domingo, março 07, 2010

O Feijão e o Sonho - Orígenes Lessa

Juca tem uma grande paixão na vida, a poesia. Nada é mais importante para ele do que escrever poemas e seu projeto de vida encontra-se inteiramente voltado para este fim, dedicando-se de corpo e alma. Nenhum outro ofício o interessa, nem mesmo o de professor de uma pequena escola em uma cidade do interior paulista, aliás o único.

O grande problema e dilema de Juca é manter a sua própria família. Juca casou-se, tem filhos. Pouco dinheiro ganhou com a poesia, menos ainda com o jornalismo. Seus filhos passam fome, a esposa tenta fazer milagres com o pouco que tem. A grande questão do livro de Orígenes Lessa é esta: até onde pode ir um homem por seu sonho mais íntimo? Pode sacrificar as pessoas que lhe são mais caras? Deve esquecer o que considera ser sua vocação para viver uma vida burocrática?

Praticamente todo o romance se passa no embate entre o sonhador Juca e sua esposa, a realista ao extremo Maria Rosa. Ela não consegue aceitar que tenha que viver na miséria junto com os filhos para que o marido dedique seu tempo e seu esforço para perseguir seu grande sonho. Ela simplesmente não o compreende, da mesma maneira que Juca não consegue compreender porque a esposa dá mais valor a pagar suas contas no mercado do que uma estátua grega. Em muitos momentos a comunicação é rompida, falam idiomas diferentes.

Juca e Maria Rosa são ampliações do dilema que muitas pessoas sentem em seu íntimo ao longo da vida. Possuem um sonho e a vontade de realizá-lo, no entanto a vida coloca obstáculos a todo momento. Devem ir atá o fim? Ou existe um ponto que devem aceitar e mudar o projeto que cada um tem para si?

Particularmente acho que o homem deve cumprir com todas as suas obrigações para com a sociedade, principalmente as que contraiu por vontade própria. Ninguém obrigou Juca a casar, muito menos a ter filhos. Sustentá-los é uma obrigação sua ou não casasse. O que não se pode é fugir de responsalidades assumidas, mesmo que atinjam o nosso projeto pessoal. Também ninguém deve se anular totalmente, uma família jamais pode ser uma prisão ou um estorvo.

Uma pena que Lessa tenha optado pela solução fácil e feito Juca ter sucesso no fim. Ficou a impressão que valeu a pena ter negligenciado os filhos e a esposa, obtendo a tão sonhada recompensa. O próprio Juca admite no fim que não chegou a conhecer os próprios filhos e era um estranho em sua própria casa. É um preço a se pagar por deixar o mundo real e as pessoas que amamos na procura de nossos desejos, muitas vezes frutos de nosso egoísmo.

4 comentários:

Joaquim Garcia de Araújo disse...

Gostei do resumo, eu-me vontade de ler o livro. No dia a a dia, vivencio a situação abordada pelo autor: Tenho dois filhos, um é o feijão e o outro é o sonho. Sempre fui "feijão", mas hoje ao 76 anos me vejo envolvido com o mundo do sonho e até cheguei a reunir poemas suficientes para um livro que pretendo publicar em breve.

jlsantanna disse...

Poesia ( e ARTE ) é questão praticamente de Destino ( melhor : Destinação ).É impossível fugir. O comentário me pareceu desconhecer essa realidade ( que talvez só os artistas compreendam, visto que para todos arte é faz de conta e diversão e não mergulho profundo no pensamento!...) O final é ótimo. Seria injusto a quem pagou o preço da Arte ( como Van Gogh __só um exemplo, há inúmeros!...)... mas numa sociedade utilitária, só o que dá dinheiro e pode ser descartável é útil. Pobreza. E a Humanidade por isso vai sempre mal das pernas. Já a Rosinha, de princesa que era vira algo inenarrável !... Esta sim, um exemplo ruim de falta de ideal.E ele a amava tanto que ela nunca deixou de ser Musa. Bom exemplo !... O romance é obra prima. Vários artistas tentaram conciliar e muitos olharam para trás e sentiram haver traído a raiz da vida.Fui professor, exerci bem minha tarefa ( fui até bom professor ) mas, confesso ___ era uma angústia cotidiana. E, por saber dos meandros políticos da Educação que faz reserva para o mercado e trai o seu Alto Ideal vivia oprimido e embaraçado.Os alunos me inquietavam. Olhava pra eles e me sentia um 171. Mas acho que a realidade é tão dura que nem eles aguentariam se eu contasse a verdade, revelando a sujeira desse jogo. É a cultura ocidental capitalista. Nunca fui pequeno-burguês... A vida extrapola sempre pra mais...mas os DOMÍNIOS!... Só consegui paz depois que aposentei. E aí pude fazer arte como ela exige __apuro, respeito ao público, mergulho e dedicação...A obra merece ser lida, mas meditada. Abraços. Jorge Sunny ( Poeta __ me leia no recanto das letras __ Poesia Flosófica ) Abraços. Felicidades !...( Mesmo "do contra" espero que publiquem... Sucessos !... sunny

Anônimo disse...

aaaaaaaaaaaaaa mais ou menos me ajudou bem mas não tem o que eu precisava

Anônimo disse...

gostei dos comentários e da publicação. Não li o livro, vou ler, difícil escolha entre a realidade e o sonho.Não da pra fugir dos compromissos assumidos, e quanto aos sonhos? Só sonha-los?