terça-feira, abril 27, 2010

Eleições 2010

Não tenho a mínima empolgação pelas eleições 2010, até porque muito pouca coisa vai mudar. Concorrem três candidatos de esquerda e um eleitor de perfil conservador não tem muito para onde correr. Coisas de uma democracia torta e com poucas chances de mudar a curto e médio prazo. Mais uma vez, um povo de maioria conservadora, vai se deixar governar pela esquerda.

Em tese, Serra é melhor candidato do que as suas concorrentes. Dilma é uma piada. Pode até ser eleita presidente, mas será única e exclusivamente por carisma de seu chefe, se é que ele quer a eleição de sua criatura. Marina ficaria muito melhor na continuação daquela bobagem filmada por Cameron, se é que não participou do primeiro. Ainda acho que aquela smurfete foi inspirada em nossa intérprete do "povo da floresta".

E Serra? Por que ele é melhor do que Dilma? Principalmente porque é mais fraco. Não tem ao seu lado a militância partidária, os sindicatos, os fundos de pensão, jornalistas e intelectuais de miolo mole. Jamais vai ter a liberdade que é dada a Lula, por exemplo. Seu governo em São Paulo foi um grande exemplo, não havia um passo que desse sem uma crítica negativa dos chamados formadores de opinião.

Então Serra seria melhor para o Brasil? Não necessariamente. Um governo seu será tão ruim que poderá custar caro ao projeto da esquerda e mesmo para Lula. Basta lembrar que Maluf nunca mais conseguiu ser eleito para um cargo do executivo depois de criar Celso Pitta. Ela tem potencial para enterrar o PT de vez.

Mas reconheço que é um risco grande. Nossos amigos jornalistas e intelectuais são vaidosos ao extremos, jamais reconhecerão o tamanho da bobagem que defendem. Podem protegê-la como fizeram este tempo todo com Lula, embora seja uma tarefa mil vezes mais difícil.

Resumindo, o quadro é uma lástima só. Não há como vencer nesta eleição, o máximo que se pode aspirar é pelo mal menor. O governante será trocado mas o poder continuará nas mãos de quem está hoje. Dias sombrios ainda estarão na frente desta pobre nação.

segunda-feira, abril 26, 2010

Retomando

Depois de um longo inverno em que usei o blog apenas para publicar resenha de livros que ando lendo, pretendo retomar uma presença mais constante por aqui.

Foi um período de silêncio absolutamente necessário. Comecei este blog em 2004 e lembro que uma das minhas primeiras jornadas foi uma cobertura da Copa do Mundo, jogo a jogo. Era um tempo que escrevia com absoluta alegria, fascinado com a descoberta da filosofia, com o interesse despertado para a política (acompanhei as eleições com vários posts diários) e sim, escrevi muita bobagem. Faltava-me muito background para emitir os comentários que fiz, faltava muito conhecimento.

Não quer dizer que saiba muito mais hoje. Mas pelo menos tenho consciência que o que não sei é uma infinidade, coisa que nunca tinha pensado a sério em 2004. Praticamente eu tinha adotado um ideário e defendia-o com tenacidade, embora me faltasse argumentos para muitas das minhas convicções.

Hoje me pergunto se este não seria um dos problemas centrais da civilização moderna, ou pós-moderna, como queiram. Não existiriam convicções demais? Cada vez mais eu vejo as pessoas mais estudadas, mais preparadas, como defensores de ideologias, o que leva a um paradoxo: justamente os que deveriam pensar o mundo são os que estão mais presos as suas próprias idéias, que geralmente não tem nada de próprias. No fundo, como diria Santo Agostinho, a vaidade está na origem dos nossos pecados intelectuais.

Desisti de tentar dialogar em busca da construção de um conhecimento mais seguro, isso nos dias atuais é praticamente impossível; principalmente com pessoas que pensam muito diferente de você. Consigo isso com alguns poucos amigos que partilham de muitos dos meus valores e idéias. É interessante que justamente nos pontos que não concordamos que travamos as melhores conversas, que invariavelmente terminam com um enriquecimento mútuo. O mesmo não dá para as pessoas que estão em campo oposto no que se refere a idéias. Por mais que tente levar para o lado construtivo, me vejo diante de uma agressividade e uma disputa que sinceramente não quero travar. É muito triste e dolorido ver no outro um adversário, alguém tentando vencer uma disputa ideológica, que apenas quer que você admita que ele está certo, principalmente quando trata-se de uma pessoa muito querida.

Este é um dos efeitos perversos da ideologia, ela afasta pessoas que sempre se admiraram e se respeitaram. Hoje evito participar de qualquer debate com pessoas que não vejo nenhuma possibilidade de entendimento, principalmente pessoas queridas. Não acho que hoje seja uma época aberta para discussões, até porque a linguagem foi hipotecada para o politicamente correto e não se aceita mais uma liberdade para expor um pensamento.

Retomando o assunto do blog, minha visão sobre um monte de coisas mudaram. Percebi que política não é uma questão isolada e auto-suficiente. Ela é a extensão da cultura de uma sociedade, suas idéias e seus valores, sua auto-imagem. Sinceramente, as picuinhas políticas pouco me interessam agora. O meu interesse maior está no debate cultural, nas idéias que estão se consolidando na sociedade e que na minha visão trarão consquências ainda mais graves para todos nós do que as que já existem hoje.

Meu interesse sincero é descobrir a verdade na experiência real, por mais dolorosa que seja. Trata-se do projeto de uma vida inteira e de impossível conclusão, mas esta busca me anima hoje para muita coisa. Penso que este blog pode ser um registro de tantas dúvidas e receios que cada vez mais vejo claros em minha mente. Outro dia rascunhei um lista de perguntas que gostaria de responder, algo que me desse o norte para um projeto de estudos. Foi impressionante a quantidade de itens que levantei em alguns minutos. Pretendo fazer o mesmo aqui. A seu tempo.

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domingo, abril 25, 2010

O Sal da Terra - Cardeal Ratzinger

Ratzinger, J. O Sal da Terra. Original: Salz der Erde, Munchen 1996. Tradução de Inês Madeira de Andrade, Rio de Janeiro. Editora Imago, 2005.

Em 1996, ano desta entrevista aberta com Peter Seewald, Joseph Ratzinger era o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o legítimo sucessor do “Grande Inquisidor”, o homem responsável por dar a última palavra em doutrina dentro da Igreja. O então Cardeal Ratzinger não exigiu nenhuma pergunta antecipada nem vetou qualquer assunto e o resultado foi uma análise crítica da relação da Igreja Católica com o mundo do final do século XX.

“Talvez tenhamos que nos despedir das idéias existentes de uma igreja de massas. Estamos possivelmente perante uma época diferente e nova da história da Igreja. Nela, o cristianismo voltará a estar sob o signo do grão de mostarda, em pequenos grupos, aparentemente sem importância, mas que vivem intensamente contra o Mal e trazem o Bem para o mundo.”

Ratzinger conta sua infância e sua relação pessoal com a Igreja, sem fugir de temas espinhosos como sua participação na juventude nazista. A trajetória intelectual, a participação no Vaticano II, a relação com João Paulo II, o caminho de Ratzinger para o papel que desempenhava no momento da entrevista é delineado com fluência e sinceridade.

O Cardeal reconhece que a Igreja vive uma época de declínio em que o catolicismo deixará de ser uma igreja de massas para retomar um pouco do que foi no início do cristianismo. Critica também o peso da instituição sobre a fé sincera e afirma que este processo terá o benefício de deixar a Igreja menos quantitativa e mais qualitativa. No futuro haverão menos católicos, mas serão mais sinceros em sua fé.

Re-afirma a aliança da fé com a razão, um conceito pouco compreendido nos dias de hoje em que se coloca invariavelmente religião e filosofia em cantos opostos.

“Uma coisa não é possível sem a outra, a verdade e realidade são inseparáveis. Uma verdade sem realidade seria pura abstração. E uma verdade que não é transformada em “sabedoria humana” não seria uma verdade humanamente assimilada, mas uma verdade deformada”.

Analisa também o cânon da crítica à Igreja, tratando com desembaraço temas como a contracepção, o aborto, o celibato e o divórcio. Evita fazer condenações generalistas e faz uma afirmação que não deve ser esquecida:

“A questão de saber como se divide a culpa pelas pessoas é sempre um questão que não se pode decidir de forma abstrata.”

Por fim, trata da relação da Igreja com o mundo. Como a Igreja deve se preparar para o terceiro milênio? Qual o futuro que espera a Igreja Católica? A Igreja deve se modificar para aceitar os novos tempos ou deve se manter firme no que acredita?


Este livro é essencial para se entender um pouco do que pensa no atual Papa. Trata-se de uma das entrevistas mais sinceras e abertas que já li, tanto pelo preparo e pertinência do jornalista quanto pela disposição de Ratzinger de responder objetivamente cada pergunta formulada. Acostumado com políticos, que passam entrevistas inteiras fugindo da essência das perguntas e procurando não se comprometer com nenhuma opinião que possa render perda de apoio política pelos infinitos grupos de pressão, é alvissareiro deparar-se com uma conversa no nível que foi esta entre o cardeal e Seewald.

O ponto principal da entrevista foi sem dúvida a auto-crítica da Igreja Católica. Ratzinger reconhece o declínio do catolicismo mas vê com bons olhos a passagem de uma fé quantitativa para uma mais qualitativa. Muitos dos prognósticos que explanou tornaram-se realidade nos anos que se sucederam, como o renascimento da fé entre os mais jovens. Entretanto, sua previsão do fim da catolicismo como uma Igreja de massas pode ser questionado pela conversão que acontece hoje na África e na Ásia; o que não muda a clareza de sua análise.

Achei bastante interessante suas considerações sobre os temas polêmicos como aborto, celibato, divórcio, ordenação das mulheres. Longe de tratar o assunto como um dogma, até porque deixa claro que não são, Ratzinger explica pacientemente porque a fé católica é incompatível com estas demandas da sociedade moderna. Chega a relacionar a manutenção do celibato com o casamento; no dia que um se for, o outro perderá o sentido.

Ratzinger olha para o futuro com esperança e fé, como deve ser visto por uma católico. Para ele, a época de turbulência passará e a Igreja passará por um necessário processo de purificação e fortalecimento da fé essencial, que animou o catolicismo há dois mil anos, nos primeiros tempos.

“O objetivo do cristianismo é a vida eterna e não a integração num grupo no qual se pode exercer poder.”

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sexta-feira, abril 23, 2010

Mosaico da Economia - Eliana Cardoso

Um dos problemas de criar uma grande expectativa por um livro é terminar sentindo uma enorme decepção. Este foi o caso desta obra da economista Eliana Cardoso.

Quando escutei uma matéria sobre o livro na rádio CBN no fim do ano passado, inclui o livro em minha lista de leitura. A impressão que tive era que se tratava de mais uma obra que procurava explicar com simplicidade os conceitos econômicos, utilizando o panorama nacional e internacional para mostrar na prática o que é a economia. Algo no estilo do excelente "Economia sem Truques".

Enganei-me redondamente. Não sei o que Eliana Cardoso tentou fazer neste livro. Se procurou usar a clareza, foi muito mal sucedida, pois achei suas idéias uma tremenda confusão. Teve horas que defendeu o livre mercado, sua citação mais frequente era Keynes, ignorou a participação do governo americano na bolha imobiliária, reclamou dos gastos públicos brasileiros, defendeu a distribuição de renda. Afinal, o que ela defende? Liberalismo ou intervencionismo?

Mas tudo isso poderia ficar para trás, pois muitas de suas análises foram até interessantes; outras, nem tanto.

O problema começou, de verdade, com sua intenção de usar a literatura e a poesia para chamar atenção de suas idéias. Como leitora, é uma grande economista. Em Orgulho e Preconceito consegue ver Lizzy como uma espécie de feminista moderna lutando contra os dois vícios do Sr Darcy sem perceber que a moça era tão orgulhosa e preconceituosa como ele. Coisa que a própria Lizzy admite no romance.

Para piorar ainda mais, quis usar seu livro para afirmar seu ateísmo e desprezo pela religião. Para ela, o culpa das instituições brasileiras não funcionarem e não termos o progresso econômico desejado é de São Tomás de Aquino!

Aproveitou o livro para fazer também a defesa do ideário da esquerda festiva americana com a defesa do aborto, liberação das drogas (menos o cigarro, claro), agenda verde, escola para bandido e tudo mais que tem direito.

Foi um destes livros que li por insistência. Na esperança que algo o salvasse.

Não vi nada.

segunda-feira, abril 05, 2010

O Avesso da Vida - Philip Roth

Henry é um dentista bem sucedido, pai de família com três filhos, vivendo uma vida sem sobressaltos. Tem um caso com sua ajudante, o máximo que se permitiu em termos de pecado. Nesta vida típica de subúrbio vai vivendo seus dias, até que descobre ter um problema cardíaco que o obriga a tomar uma pesada medicação. O tratamento funciona mas há um poderoso efeito colateral, a medicação o deixa impotente. A opção é uma cirurgia para implantação de ponto de safena com risco suficiente para ser contra-indicada por seu médico.

Este é o ponto de partida para este romance de Philip Roth que segue uma espécie de narrativas possíveis, não temporal, para narrar os possíveis desdobramentos de sua premissa. Em um deles, Henry vai para a mesa de operação e morre; em outro sobrevive e, sofrendo de profunda depressão, acaba em Israel descobrindo uma fé que nem julgava possuir; em outra é seu irmão Nathan, o escritor e personagem principal, que submete-se à cirurgia para manter seu caso com uma mulher casada e transfere literariamente o problema para Henry escrevendo a primeira estória.

Cada narrativa tem seu problema moral para lidar. No primeiro, o certinho Henry submete-se a uma cirurgia de risco não porque não pode manter relações com a esposa, mas porque não suporta não ter mais a amante. Sua morte deixa desamparada uma família com esposa e três filhos. O que leva uma pessoa a assumir tamanho risco e colocar de lado sua responsabilidade com os três filhos? Ele pode fazer esta escolha?

A segunda narrativa, que tem por pano de fundo a fuga de Henry, após a bem sucedia cirurgia, para Israel abandonando a família (novamente o problema da responsabilidade com a própria família), trata na verdade do confronto de Nathan, um judeu americano, com a fé judaica em Israel. Primeiro através da conversa com um colega escritor que mora em Telaviv e representa o judeu israelense que deseja o fim da violência acima de qualquer coisa, mesmo a custa da ortodoxia judaica e depois com o confronto com um judeu radical e ortodoxo que vive nos territórios ocupados e não acredita em uma paz com os palestinos, apenas uma convivência possível tendo a desconfiança como base. É o capítulo mais denso do livro e chega a deixar o leitor exausto. Para mim, comecei a ver que a questão judaica vai muito além da religião, é uma questão de identidade. Nathan podia ser um judeu, mas não assumiu a identidade judaica e por isso era cobrado.

Nas narrativas seguintes, Nathan entra em confronto com o catolicismo através do casamento com uma católica, mesmo que não praticante. Aos poucos percebe que seu espírito de americano judeu tolerante não é o que imaginava, principalmente fora de seu país onde as pessoas possuem uma fé católica um pouco mais ortodoxa. Descobre que possui escondida uma identidade judaica, o que o coloca em conflito com a nova esposa.

Gostei muito deste livro, o primeiro que leio de Philip Roth. Várias vezes terminei um capítulo meditando sobre as questões que coloca e percebendo que a relação do judaismo como o mundo é mais complexa que eu imagina e transcende a própria questão do Oriente Médio. Longe de dar respostas, Roth apenas aponta a problemática da relação dos judeus com o mundo e também a relação entre eles, pois Israel não é um bloco homogênio como imaginava. Vive na tensão entre as diversas visões dentro do judaísmo, umas mais tolerantes e outras não, e a necessidade de se afirmar exteriormente como um único povo, através da identidade judaica. De quebra, coloca em discussão a responsabilidade com a família, tanto na questão sexual quanto religiosa. Onde está o limite? Se fica fácil tentar condenar Henry pela traição sexual, fica mais difícil colocar a traição religiosa, se é que se pode colocar neste termo. Qual a diferença entre elas? Qual causou mais danos à sua família?

Uma obra que abre muitas perguntas e deixa para o leitor o trabalho de tentar dar solução para elas. Como um grande livro deve ser.

sexta-feira, abril 02, 2010

Seminário de Filosofia

Poucas pessoas são tão polêmicas no Brasil quanto Olavo de Carvalho. Para seus detratores, e são muitos, é um radical de direita, adepto da teoria da conspiração, um prepotente. Pois ele é tudo isso. É um radical de direita à medida que você aceita a visão esquerdista que quem não está com ela, está contra ela. Pois pouquíssimas pessoas são tão anti-esquerda quanto Olavo de Carvalho. Neste contexto, ele é um direitista fanático. Também é um adepto da teoria da conspiração. É bom lembrar que qualquer um que dissesse pouco antes de estourar a II Guerra Mundial que a Alemanha iria entrar em Guerra com o mundo inteiro, ocupar a França em questão de semanas, citiar a Inglaterra e exterminar 6 milhões de judeus em fornos crematórios também seria tachado de adepto da teoria da conspiração. Pois Olavo prega que existe um grande movimento mundial que busca implantar um governo global no planeta. Um movimento que atua em três vertentes: uma elite política-econômica globalista, o islamismo e o comunismo. Também é prepotente porque afirma claramente que é o único filósofo vivo no Brasil, sem meias palavras. Diz que a única forma de aprender filosofia no Brasil é com ele.

Só que aos poucos, muitas pessoas estão tomando conhecimento de Olavo de Carvalho mesmo com um boicote sistemático de praticamente todos os meios de comunicações no Brasil. Tudo porque há coisa de 5 anos atrás, escrevendo no Globo, passou a denunciar sistematicamente a associação dos partidos de esquerda do Brasil, especialmente o PT, com o narco-tráfico das FARCs. Tudo através do Foro de São Paulo, a entidade que só muito recentemente, a contra-gosto, começou a ser reconhecido na grande mídia brasileira. O mais absurdo é que Olavo apenas chamou atenção para os documentos públicos divulgados, na internet, pelo próprio Foro em que afirmam a ligação ideológica entre partidos e movimentos sociais de esquerda na América Latina para restabelecer aqui o que foi perdido no Leste Europeu com a queda do Muro de Berlin. Seus maiores expoentes eram Fidel Castro e Lula; entre seus integrantes, as FARCs. Mas isso é outra estória. O fato é que Olavo incomodou muito com essa estória e acabou mandado embora do Globo, posteriormente do JB, da Zero Hora e hoje só escreve no Diário do Comércio. Esta é a idéia da esquerda sobre um debate e liberdade de expressão. Ela só existe dentro dos limites impostos pela esquerda, como Ann Coulter descobriu recentemente no Canadá.

Bem, este é o Olavo das primeiras camadas, dos artigos de jornal e seu podcast. Seu objetivo é comentar os fatos recentes e chamar atenção para o que está acontecendo. É sua veia mais polêmica e visível. Existem outros trabalhos do filósofo, estes muito mais profundos e importantes, entre os quais, o seminário de filosofia. O seminário é um curso dado por ele pela internet. Seu ponto de partida é que não existe mais vida intelectual no Brasil, principalmente nas chamadas ciências Humanas. As universidades são antros que conjugam burocracia com ideologia esquerdista de quinta categoria. Nossos intelectuais são incapazes sequer de entender o que defendem. Pouquíssimos marxistas, por exemplo, são capazes de ler e entender Marx. A esquerda nem precisou vencer um debate cultural pois a direita recusou-se a travá-lo e o resultado é que a cultura brasileira foi tomada de assalto pelo pensamento monopolítico da esquerda em suas várias formas. Uma prova é o fato de só existirem partidos e políticos de esquerda no Brasil, como foi dito com alegria por Lula outro dia. Sob aplausos dos intelectuais. Este é o ideal de democracia deles. O fim do pensamento conservador e o totalitarismo cultural das esquerdas.

Não é que todo brasileiro se tornou esquerdista, o que seria impossível. O foco foi outro, incapacitar o brasileiro, em todos os níveis, de pensar o mundo real. Só assim se pode compreender o que se faz nas escolar brasileiras há mais de vinte anos, do primário à universidade. É muita ingenuidade supor que a qualidade do ensino no Brasil é fruto apenas da incompetência das políticas educacionais; ao contrário, elas foram muito eficientes para atingir os fins que se propuseram.

Neste contexto, Olavo deu como perdido a batalha pelos corações da alta cultura brasileira, se é que se pode usar este termo. Percebeu que a única saída era que uma nova geração surgisse com uma qualidade que fizesse toda a diferença: a capacidade de pensar com seriedade. E foi assim que montou seu seminário de filosofia, convencido que se conseguisse passar esta mensagem para algumas dezenas de alunos já faria uma enorme diferença. Pois surpreendeu-se. Não se trata de algumas dezenas de alunos, mas algumas centenas. Sua maior dificuldade hoje é operacionalizar o curso para tanta gente, já que utiliza uma estrutura praticamente doméstica para suas atividades. É o puro "home teaching". Entre este pessoal, encontra-se este que escreve estas linhas. O curso já tem mais de um ano e estou acompanhando as primeiras aulas, mais precisamente a oitava.

Ao contrário do que poderia imaginar, o curso é bem diferente do que se vê em seus artigos e no podcast. Sai o Olavo inflamado, polêmico. Entra o professor ponderado, calmo, buscando iluminar e dividir seus estudos de décadas. Não é um curso de propaganda conservadora ou de direita, pouco se falou de política ou ideologia até agora; o foco é a atitude filosófica. Para ele, só nós podemos estabelecer critérios para verificar a verdade das idéias que chegam a nós. Ninguém, nem mesmo ele, pode fazer isso. Olavo retoma a idéia principal de Sócrates, nós temos que buscar a verdade em nós mesmos. Como se fazer isso? Este é o grande tema do seminário de filosofia.

Um dos pontos iniciais do curso é a impossibilidade de se pensar idéias, estudar filosofia, antes de desenvolver a capacidade de imaginar o que é possível e o que é impossível. Uma pessoa cuja visão de mundo são as novelas da Rede Globo, best sellers ou a maioria dos filmes do cinema jamais será capaz de pensar filosoficamente ou por si mesmo pois ela é incapaz de discernir o possível do impossível. Daí a importância de educar o imaginário antes de pensar com seriedade sobre as coisas. Isso não é novo, é Aristóteles. O primeiro ano do curso de Olavo é somente para isso, educar o imaginário. Como se faz isso? Primeiro pela experiência real. É preciso observar as pessoas, os acontecimentos que somos testemunhas diretas e principalmente guardar estas referências, estes símbolos que tomamos contato. É preciso ser fiel a nossa experiência imediata, por mais dolorida que seja. No entanto, só isso não basta pois a quantidade de situações possíveis é tão grande, embora longe de infinita, que é impossível e indesejável que experimentemos todas. Afinal, ninguém quer ser assaltado para tentar entender como se sente uma pessoa nessa situação. Para nossa sorte, existem pessoas que dedicam sua vida a registrar simbolicamente estas experiências do mundo real através de um dos instrumentos mais antigos da humanidade: a literatura. Entenda-se aqui em seu sentido mais amplo, incluindo poesia, música, teatro, cinema, etc. Os grandes escritores ou criadores são aqueles que conseguiram registrar com fidelidade as experiências da existência. Quem já sentiu ciúmes na vida consegue se ver em Bentinho, quem desejou vingança se vê no Conde de Monte Cristo. Não naquela dimensão evidentemente, mas aspectos de sua experiência real estão evidentes nestes personagens.

Para encurtar, voltei minhas leituras mais para a literatura recuperando um imenso tempo perdido. Quais livros ler? Outro ponto interessante de Olavo que mostra o caráter não dogmático do seu curso. Ele deu algumas dicas iniciais mas recusa-se a fazer uma lista, tanto de livros de literatura quanto livros de filosofia. Cada um tem que montar sua própria lista através de um processo de pesquisa. Segundo ele, se passarmos um ano escrevendo uma lista de leitura de filosofia, por exemplo, teremos aprendido mais do que um ano lendo livos a esmo.

Estou tentando fazer isso agora. Comecei por Chesterton. Minha intenção é colocar uma página na internet, o mais rápido possível e ir melhorando-a continuamente. A vantagem de ter uma página pública, ligada a um post de blog, é que posso receber sugestões e outras visões sobre a mesma obra. É fundamental não ficar preso a uma única resenha, a um único ponto de vista. Ao final de um certo período, talvez o ano sugerido por Olavo, terei uma lista para seguir durante a vida. Muito provavelmente nunca chegarei perto de terminá-la. É meio angustiando saber que não temos tempo para ler tudo que gostaríamos durante uma vida, mas ter uma lista, feita por mim mesmo, já é um caminho a seguir.

Retomando o ponto que comecei, pelo que vi nestas oito aulas que acompanhei, principalmente pelos questionamentos que foram enviados pelos alunos por e-mail, acho que futuramente a cultura brasileira poderá sofrer o impacto que está precisando. O pessoal está levando o curso muito a sério e estão dispostos a romper o status quo que foi estabelecido pela hegemonia cultural da esquerda. Tem muita gente talentosa ali.

É minha maior esperança para vencer esta guerra. Se ainda der tempo.