segunda-feira, abril 05, 2010

O Avesso da Vida - Philip Roth

Henry é um dentista bem sucedido, pai de família com três filhos, vivendo uma vida sem sobressaltos. Tem um caso com sua ajudante, o máximo que se permitiu em termos de pecado. Nesta vida típica de subúrbio vai vivendo seus dias, até que descobre ter um problema cardíaco que o obriga a tomar uma pesada medicação. O tratamento funciona mas há um poderoso efeito colateral, a medicação o deixa impotente. A opção é uma cirurgia para implantação de ponto de safena com risco suficiente para ser contra-indicada por seu médico.

Este é o ponto de partida para este romance de Philip Roth que segue uma espécie de narrativas possíveis, não temporal, para narrar os possíveis desdobramentos de sua premissa. Em um deles, Henry vai para a mesa de operação e morre; em outro sobrevive e, sofrendo de profunda depressão, acaba em Israel descobrindo uma fé que nem julgava possuir; em outra é seu irmão Nathan, o escritor e personagem principal, que submete-se à cirurgia para manter seu caso com uma mulher casada e transfere literariamente o problema para Henry escrevendo a primeira estória.

Cada narrativa tem seu problema moral para lidar. No primeiro, o certinho Henry submete-se a uma cirurgia de risco não porque não pode manter relações com a esposa, mas porque não suporta não ter mais a amante. Sua morte deixa desamparada uma família com esposa e três filhos. O que leva uma pessoa a assumir tamanho risco e colocar de lado sua responsabilidade com os três filhos? Ele pode fazer esta escolha?

A segunda narrativa, que tem por pano de fundo a fuga de Henry, após a bem sucedia cirurgia, para Israel abandonando a família (novamente o problema da responsabilidade com a própria família), trata na verdade do confronto de Nathan, um judeu americano, com a fé judaica em Israel. Primeiro através da conversa com um colega escritor que mora em Telaviv e representa o judeu israelense que deseja o fim da violência acima de qualquer coisa, mesmo a custa da ortodoxia judaica e depois com o confronto com um judeu radical e ortodoxo que vive nos territórios ocupados e não acredita em uma paz com os palestinos, apenas uma convivência possível tendo a desconfiança como base. É o capítulo mais denso do livro e chega a deixar o leitor exausto. Para mim, comecei a ver que a questão judaica vai muito além da religião, é uma questão de identidade. Nathan podia ser um judeu, mas não assumiu a identidade judaica e por isso era cobrado.

Nas narrativas seguintes, Nathan entra em confronto com o catolicismo através do casamento com uma católica, mesmo que não praticante. Aos poucos percebe que seu espírito de americano judeu tolerante não é o que imaginava, principalmente fora de seu país onde as pessoas possuem uma fé católica um pouco mais ortodoxa. Descobre que possui escondida uma identidade judaica, o que o coloca em conflito com a nova esposa.

Gostei muito deste livro, o primeiro que leio de Philip Roth. Várias vezes terminei um capítulo meditando sobre as questões que coloca e percebendo que a relação do judaismo como o mundo é mais complexa que eu imagina e transcende a própria questão do Oriente Médio. Longe de dar respostas, Roth apenas aponta a problemática da relação dos judeus com o mundo e também a relação entre eles, pois Israel não é um bloco homogênio como imaginava. Vive na tensão entre as diversas visões dentro do judaísmo, umas mais tolerantes e outras não, e a necessidade de se afirmar exteriormente como um único povo, através da identidade judaica. De quebra, coloca em discussão a responsabilidade com a família, tanto na questão sexual quanto religiosa. Onde está o limite? Se fica fácil tentar condenar Henry pela traição sexual, fica mais difícil colocar a traição religiosa, se é que se pode colocar neste termo. Qual a diferença entre elas? Qual causou mais danos à sua família?

Uma obra que abre muitas perguntas e deixa para o leitor o trabalho de tentar dar solução para elas. Como um grande livro deve ser.

Nenhum comentário: