domingo, abril 25, 2010

O Sal da Terra - Cardeal Ratzinger

Ratzinger, J. O Sal da Terra. Original: Salz der Erde, Munchen 1996. Tradução de Inês Madeira de Andrade, Rio de Janeiro. Editora Imago, 2005.

Em 1996, ano desta entrevista aberta com Peter Seewald, Joseph Ratzinger era o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o legítimo sucessor do “Grande Inquisidor”, o homem responsável por dar a última palavra em doutrina dentro da Igreja. O então Cardeal Ratzinger não exigiu nenhuma pergunta antecipada nem vetou qualquer assunto e o resultado foi uma análise crítica da relação da Igreja Católica com o mundo do final do século XX.

“Talvez tenhamos que nos despedir das idéias existentes de uma igreja de massas. Estamos possivelmente perante uma época diferente e nova da história da Igreja. Nela, o cristianismo voltará a estar sob o signo do grão de mostarda, em pequenos grupos, aparentemente sem importância, mas que vivem intensamente contra o Mal e trazem o Bem para o mundo.”

Ratzinger conta sua infância e sua relação pessoal com a Igreja, sem fugir de temas espinhosos como sua participação na juventude nazista. A trajetória intelectual, a participação no Vaticano II, a relação com João Paulo II, o caminho de Ratzinger para o papel que desempenhava no momento da entrevista é delineado com fluência e sinceridade.

O Cardeal reconhece que a Igreja vive uma época de declínio em que o catolicismo deixará de ser uma igreja de massas para retomar um pouco do que foi no início do cristianismo. Critica também o peso da instituição sobre a fé sincera e afirma que este processo terá o benefício de deixar a Igreja menos quantitativa e mais qualitativa. No futuro haverão menos católicos, mas serão mais sinceros em sua fé.

Re-afirma a aliança da fé com a razão, um conceito pouco compreendido nos dias de hoje em que se coloca invariavelmente religião e filosofia em cantos opostos.

“Uma coisa não é possível sem a outra, a verdade e realidade são inseparáveis. Uma verdade sem realidade seria pura abstração. E uma verdade que não é transformada em “sabedoria humana” não seria uma verdade humanamente assimilada, mas uma verdade deformada”.

Analisa também o cânon da crítica à Igreja, tratando com desembaraço temas como a contracepção, o aborto, o celibato e o divórcio. Evita fazer condenações generalistas e faz uma afirmação que não deve ser esquecida:

“A questão de saber como se divide a culpa pelas pessoas é sempre um questão que não se pode decidir de forma abstrata.”

Por fim, trata da relação da Igreja com o mundo. Como a Igreja deve se preparar para o terceiro milênio? Qual o futuro que espera a Igreja Católica? A Igreja deve se modificar para aceitar os novos tempos ou deve se manter firme no que acredita?


Este livro é essencial para se entender um pouco do que pensa no atual Papa. Trata-se de uma das entrevistas mais sinceras e abertas que já li, tanto pelo preparo e pertinência do jornalista quanto pela disposição de Ratzinger de responder objetivamente cada pergunta formulada. Acostumado com políticos, que passam entrevistas inteiras fugindo da essência das perguntas e procurando não se comprometer com nenhuma opinião que possa render perda de apoio política pelos infinitos grupos de pressão, é alvissareiro deparar-se com uma conversa no nível que foi esta entre o cardeal e Seewald.

O ponto principal da entrevista foi sem dúvida a auto-crítica da Igreja Católica. Ratzinger reconhece o declínio do catolicismo mas vê com bons olhos a passagem de uma fé quantitativa para uma mais qualitativa. Muitos dos prognósticos que explanou tornaram-se realidade nos anos que se sucederam, como o renascimento da fé entre os mais jovens. Entretanto, sua previsão do fim da catolicismo como uma Igreja de massas pode ser questionado pela conversão que acontece hoje na África e na Ásia; o que não muda a clareza de sua análise.

Achei bastante interessante suas considerações sobre os temas polêmicos como aborto, celibato, divórcio, ordenação das mulheres. Longe de tratar o assunto como um dogma, até porque deixa claro que não são, Ratzinger explica pacientemente porque a fé católica é incompatível com estas demandas da sociedade moderna. Chega a relacionar a manutenção do celibato com o casamento; no dia que um se for, o outro perderá o sentido.

Ratzinger olha para o futuro com esperança e fé, como deve ser visto por uma católico. Para ele, a época de turbulência passará e a Igreja passará por um necessário processo de purificação e fortalecimento da fé essencial, que animou o catolicismo há dois mil anos, nos primeiros tempos.

“O objetivo do cristianismo é a vida eterna e não a integração num grupo no qual se pode exercer poder.”

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