segunda-feira, abril 26, 2010

Retomando

Depois de um longo inverno em que usei o blog apenas para publicar resenha de livros que ando lendo, pretendo retomar uma presença mais constante por aqui.

Foi um período de silêncio absolutamente necessário. Comecei este blog em 2004 e lembro que uma das minhas primeiras jornadas foi uma cobertura da Copa do Mundo, jogo a jogo. Era um tempo que escrevia com absoluta alegria, fascinado com a descoberta da filosofia, com o interesse despertado para a política (acompanhei as eleições com vários posts diários) e sim, escrevi muita bobagem. Faltava-me muito background para emitir os comentários que fiz, faltava muito conhecimento.

Não quer dizer que saiba muito mais hoje. Mas pelo menos tenho consciência que o que não sei é uma infinidade, coisa que nunca tinha pensado a sério em 2004. Praticamente eu tinha adotado um ideário e defendia-o com tenacidade, embora me faltasse argumentos para muitas das minhas convicções.

Hoje me pergunto se este não seria um dos problemas centrais da civilização moderna, ou pós-moderna, como queiram. Não existiriam convicções demais? Cada vez mais eu vejo as pessoas mais estudadas, mais preparadas, como defensores de ideologias, o que leva a um paradoxo: justamente os que deveriam pensar o mundo são os que estão mais presos as suas próprias idéias, que geralmente não tem nada de próprias. No fundo, como diria Santo Agostinho, a vaidade está na origem dos nossos pecados intelectuais.

Desisti de tentar dialogar em busca da construção de um conhecimento mais seguro, isso nos dias atuais é praticamente impossível; principalmente com pessoas que pensam muito diferente de você. Consigo isso com alguns poucos amigos que partilham de muitos dos meus valores e idéias. É interessante que justamente nos pontos que não concordamos que travamos as melhores conversas, que invariavelmente terminam com um enriquecimento mútuo. O mesmo não dá para as pessoas que estão em campo oposto no que se refere a idéias. Por mais que tente levar para o lado construtivo, me vejo diante de uma agressividade e uma disputa que sinceramente não quero travar. É muito triste e dolorido ver no outro um adversário, alguém tentando vencer uma disputa ideológica, que apenas quer que você admita que ele está certo, principalmente quando trata-se de uma pessoa muito querida.

Este é um dos efeitos perversos da ideologia, ela afasta pessoas que sempre se admiraram e se respeitaram. Hoje evito participar de qualquer debate com pessoas que não vejo nenhuma possibilidade de entendimento, principalmente pessoas queridas. Não acho que hoje seja uma época aberta para discussões, até porque a linguagem foi hipotecada para o politicamente correto e não se aceita mais uma liberdade para expor um pensamento.

Retomando o assunto do blog, minha visão sobre um monte de coisas mudaram. Percebi que política não é uma questão isolada e auto-suficiente. Ela é a extensão da cultura de uma sociedade, suas idéias e seus valores, sua auto-imagem. Sinceramente, as picuinhas políticas pouco me interessam agora. O meu interesse maior está no debate cultural, nas idéias que estão se consolidando na sociedade e que na minha visão trarão consquências ainda mais graves para todos nós do que as que já existem hoje.

Meu interesse sincero é descobrir a verdade na experiência real, por mais dolorosa que seja. Trata-se do projeto de uma vida inteira e de impossível conclusão, mas esta busca me anima hoje para muita coisa. Penso que este blog pode ser um registro de tantas dúvidas e receios que cada vez mais vejo claros em minha mente. Outro dia rascunhei um lista de perguntas que gostaria de responder, algo que me desse o norte para um projeto de estudos. Foi impressionante a quantidade de itens que levantei em alguns minutos. Pretendo fazer o mesmo aqui. A seu tempo.

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Now playing: Derek & The Dominos - Nobody Knows You When You're Down And Out
via FoxyTunes

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