sexta-feira, maio 14, 2010

A Mão e a Luva

Machado de Assis, 1874

Em suas primeiras obras, Machado ainda estava influenciado pelo romantismo, muito embora já mostrasse traços do realismo e da fina ironia que iria permear sua obra posteriormente. Pode-se dizer que A Mão e a Luva é uma obra romântica, ou quase.

Este quase vai pelo toque de Machado. Sua horoína não é perfeita. Embora tenha uma natureza boa, ele não deixa de apontar-lhe os defeitos. Depois da declaração de Estevão, um pretendente, Machado descreve: "Guiomar não tinha um coração tão mau, que lhe não doessem as mágoas de um homem que acertara ou desacertara de a amar". A moça gostava que lhe admirassem, mas que mantivessem a distância e não se declarassem.

Estevão por outro lado, era o típico herói de romance. Bom amigo, apaixonado, eloquente, disposto a conquistar o coração de sua amada. Só que ele não é o herói de Machado. Pelo contrário, seu destino é a frustração de não conseguir o amor de Guiomar.

Trata-se de Luís Alves, o amigo rico que deseja ser deputado, o verdadeiro herói de Machado. Para ter uma idéia do caráter do rapaz, sobre a amizade com Estevão, Machado afirma que era menos do que de Estevão para ele, o mesmo que afirma do amor entre ele e Guiomar futuramente. Luís Alves era um bom rapaz, mas retribuía sempre menos do que recebia.

Essa é estória de amor entre Luís Alves e Guiomar, ele um rapaz ambicioso que deseja carreira na política, ela uma jovem um tanto frívola que pretende ficar acima dos homens. Não foi o amor e a paixão que fizeram Luís Alves conquistar a moça ao mesmo tempo que estava a serviço de Estevão sondando-lhe o coração, mas o puro cálculo psicológico e a percepção que estava diante de uma futura esposa adequada para suas pretensões de vida.

Por tudo isso, A Mão e a Luva já mostrava uma tendência ao rompimento das amarras do romantismo e o leitor atento já começa a perceber as marcas que Machado consagraria em suas obras maiores. Era um autor ensaiando e polindo a própria genialidade.

Nenhum comentário: