segunda-feira, maio 31, 2010

O perfil ideológico do brasileiro e suas contradições

Muito interessante a pesquisa que o DATAFOLHA realizou sobre a preferência ideológica do brasileiro. Existem duas formas de ver os números, dependendo de como se considera as regiões cinzentas do "centro-esquerda" e do "centro-direita". O que não pode é misturar as duas coisas, hora considerar centro-direita como centro e outra como direita, de acordo como o que se quer demonstrar. É uma técnica de trapaceiro intelectual e é muito utilizada na questão racial no Brasil[1].

Se considerarmos centro-esquerda como esquerda e o mesmo para centro-direita, temos a seguinte distribuição no Brasil:
Esquerda: 20%
Centro: 17%
Direita: 37%
Não sabem: 26%

Não deixa de ser surpreendente que depois da algumas décadas de domínio cultural esquerdista, por parte de intelectuais e jornalistas, ainda tenhamos quase o dobro de brasileiros se declarando de direita em relação aos de esquerda. Não é de hoje que direita significa uma espécie de palavrão por aqui. Em "Vícios privados, benefícios Públicos", Eduardo Gianetti já lembrava que Nelson Rodrigues chegou a escrever que era o único direitista do Brasil!

Eu sempre achei que a maioria dos brasileiros expressassem valores conservadores e fossem incapazes de relacionar estes valores com o que comumente se chama de direita. A maior surpresa para mim é que boa parte dos brasileiros não só expressam o conservadorismo como reconhecem esta expressão.

Como explicar então que não tenhamos um candidato de direita nas eleições deste ano, repetindo o quadro das duas últimas eleições? Como se explicar que o presidente da república venha a público afirmar que felizmente só haverá candidatos de esquerda e isso não ser um escândalo? Pelo menos 37% dos brasileiros não se acham representados em uma disputa eleitoral para a presidência da república; qual a implicação para um sistema democrático?

A situação é tão aberrante, que ser de direita na política brasileira significa ser menos esquerda, ou mesmo de centro. Com explicar que o PSDB seja considerado de direita por 51% dos seus simpatizantes? Ou que Serra seja considerado de direta por 43% dos seus simpatizantes? Considerar o PSDB e Serra como expressões da direita brasileira é algo de surreal.

Se considerarmos os centro-esquerdas e centro-direitas de centro, temos os seguintes números:
esquerda: 12%
centro: 38%
direita: 24%
não sabe: 26%

Novamente, a direita tem a vantagem sobre a esquerda de 2 para 1. Isso tudo, repito, depois de anos de massacre cultural sobre a direita. Como pode este sentimento resistir tanto tempo no espírito das pessoas?

Pessoalmente só vejo uma explicação. A verdade está ao seu lado. Só assim para entender porque um sentimento permanece vivo depois de tanto massacre midiático e praticamente sem vozes ou espaço para defesa. O que temos defendendo os valores conservadores na mídia brasileira? Reinaldo Azevedo na Veja, Olavo de Carvalho no Diário do Comércio e em seu site e pouca coisa mais. É ou não é um feito e tanto?

Fico só imaginando se estas vozes fossem multiplicadas, se os espaços dos jornais e revistas fossem realmente divididos entre direita e esquerda o que restaria desta última, pois a realidade imediata, aquela que cada pessoa com um mínimo de bom senso e honestidade consigo mesma consegue perceber mostra que o discurso da esquerda não tem lastro na existência, é uma enorme empulhação para criar benefícios para uns poucos privilegiados. Só com muito propaganda para tamanha impostura prosperar.



[1] Técnica muito bem documentada por Ali Kamel em seu indispensável "Não Somos Racistas". No caso, o elemento "mutante" são os pardos. Eles são considerados negros para evidenciar uma maioria negra no país, no entanto são excluídos na hora de se considerar determinados aspectos que contrariam a idéia do preconceito racial no país.

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