segunda-feira, maio 24, 2010

O problema da incerteza

Um dos meus interesses de estudo é como se divide a humanidade em termos de idéias. O ponto de partida clássico é a questão de esquerda x direita, o que de cara impõe alguns problemas.

Primeiro é que a direita não existe. Ela é um rótulo dado a todos que se colocam em campo oposto a ideais socialistas. Não existe, e nunca existiu, uma organização internacional para conquista de poder e implantação dos valores que são associados pelos "esquerdistas" à direita. As pessoas que são classificadas pelos socialistas em direitista ou conservadores são simplesmente pessoas que desejam controlar as próprias vidas.

Outro problema é que os esquerdistas assumiram o monopólio do uso da linguagem. Qualquer um que perceba as contradições do pensamento socialista fica sem palavras para expor o próprio pensamento. Um exemplo simples é o monopólio da expressão "justiça social". Ser de direita é automaticamente ser considerado contra a justiça social e por extensão contra os mais pobres. Como argumentar que não há injustiça social maior do que condenar milhões de pessoas à eterna pobreza como se fez no século XX em diversos países? A idéia da igualdade como um fim a ser alcançado é um absurdo completo pois pode significar tanto uma igualdade na riqueza (uma impossibilidade econômica pela escassez de recursos) quanto uma igualdade na pobreza (uma realização prática de todos os governos comunistas da História).

Rejeitando a classificação esquerda X direita, como se divide o mundo em termos de idéias? É possível usar dois rótulos em oposição, uma dialética humana?

Parece-me que existe na verdade uma grande questão em jogo, o problema do livre arbítrio e, por extensão, da responsabilidade individual. E qual o problema livre arbítrio? A sua maior consequência, a incerteza.

Existem pessoas que não conseguem viver com a perspectiva de um futuro incerto, com a idéia de que o futuro não dependa de si próprias. O livre arbítrio é a origem de todo o problema pois se o homem pode escolher livremente seu destino então pode decidir entre o bem e o mal; mais ainda, é responsável por suas decisões individuais.

Estas pessoas querem decidir o mínimo possível e não ser responsabilizadas por suas decisões. O problema é que a vida é uma sequência de tomadas de decisões e se ela não quer tomar uma decisão, alguém terá de fazê-lo. Surge então a figura salvadora do Estado. O que for possível passar para sua tutela, melhor.

No fundo, o pensamento dos esquerdistas é um pensamento cômodo. Sempre se pode culpar alguém pelas desgraças humanas, desde que não seja o indivíduo.. O problema de culpar alguém pelo mal praticada significa reconhecer que também está sujeito a praticar o mal e isso é uma idéia aterrorizante para uma mente esquerdista. Uma pessoa não mata pela ação do mal, mas pela imposição da sociedade. Uma pessoa não fracassa por decisões erradas, mas pela injustiça do sistema capitalista. No limite, chega a colocar culpa em determinadas pessoas (Bush, o Papa, etc), mas desde que fique claro que é uma pessoa completamente oposta de si própria, uma impossibilidade e no fundo é utilizada para representar seus próprios demônios imaginários.

O esquerdista sente-se feliz por suas idéias, pois elas os libertam da responsabilidade por seus atos. Sentem-se superiores em uma missão de iluminar a humanidade.

Os chamados conservadores ou direitista ou qualquer outro adjetivo substantivado que os socialistas gostam tanto, ao contrário, sentem-se infelizes com suas próprias idéias porque percebem que o destino do mundo está em cada ato individual, inclusive do seu próprio. Por isso esse ser tão odiado é por vezes visto como um pessimista, até por si mesmo, pois a sua visão de mundo o deixa angustiado. O esquerdista é um otimista por natureza, com a tranquilidade que não tem responsabilidade por nada que possa acontecer. Ele não tem que lidar com a culpa, este sentimento de humildade tão caro para os que não acreditam nas teses socialistas. Estes sentem culpa o tempo todo pois sabem que ao praticar o mal fazem o mundo pior.

Um conservador, um termo ainda inapropriado, quer apenas ser deixado em paz com suas culpas e seu pessimismo. Um direito que um esquerdista não aceita pois sua visão é universal. Aceitar o destino incerto de uma única pessoa é aceitar a incerteza para si mesmo. Seu principal desejo existencial é a certeza, para o próximo e, principalmente, para si mesmo. Por isso aceitam a igualdade, mesmo com ineficiência. O que não podem é algumas pessoas conseguirem sucesso e outras não, pois ao medo que esteja neste último grupo é para elas insuportável.

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