segunda-feira, maio 10, 2010

Poemas de Álvaro de Campos

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa criou algumas personalidades para escrever suas poesias. Uma delas era o engenheiro naval Álvaro de Campos. Através dele, Pessoa mostrava a relação do homem com a modernidade, tanto na euforia quanto na desilusão.

Campos é um homem da ciência e é tomado de entusiasmo pelas maravilhas da tecnologia.

"À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
tenho febre e escrevo.
Escrevo rangando os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos."

No entanto, vai caindo em uma espécie de desilusão ao compreender as contradições, ao conflito que uma vida materialista vai gerando em relação a uma vida espiritual. A modernidade começa a encomodá-lo e o poeta não sabem bem o porquê.

Surge a crítica social:

"Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamentos, políticos, relatores de orçamentos.
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E o parlamento tão belo como uma borboleta)."

O desalento:

" Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância..."

A desesperança:

"Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio."

A velocidade dos tempos que se iniciavam:

"Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima.."

Em muita coisa identifiquei-me com Álvaro de Campos. Não sei é uma tendência de encontrar na poesia um reflexo de nossa alma ou se realmente os poemas de Pessoa fizeram-me refletir sobre coisas que ainda não tinha pensado. Talvez aí esteja o grande talento de um poeta, fazer-nos perceber nossas próprias contradições e encontrar uma expressão para algo que nem sabíamos definir.

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