segunda-feira, maio 31, 2010

Exercício de filosofia: Santo Agostinho e a Ordem

Seguir e perceber a ordem das coisas, caro Zenóbio, a que se refere cada uma em particular, e ainda mais ver e explicar a ordem do universo, que guia e governa o mundo, é muitíssimo difícil e raro para os homens. Acrescente-se a isto o fato de que embora alguém o possa fazer, não consegue encontrar um ouvinte que, quer pelo método de sua vida, quer por certa situação de conhecimento, seja digno de coisas tão divinas e obscuras.


Estas são as palavras com que Santo Agostinho abre o diálogo "Sobre a Ordem", onde investiga a existência da ordem no universo. Comecei a reler este diálogo seguindo um exercício proposto pelo mestre Olavo de Carvalho no seu curso do filosofia.

Trata-se de "comer" uma obra filosófica, ou seja, incorporar todo o pensamento de um filósofo que você tenha admiração. O exercício é simples, não ler mais do que uma ou duas frases por dia e meditar profundamente sobre elas. Um grande filósofo condensa pensamentos profundos em poucas palavras e muitas vezes passamos por cima na pressa do nosso dia a dia.

Bem, escolhi este livro de Santo Agostinho para praticar o exercício e essas são as duas primeiras frases. Acho que fui muito feliz porque elas realmente são profundas e me levaram a meditar bastante.

Divido algumas conclusões que cheguei:

  1. Existe uma ordem no universo que governa o mundo.
  2. Mundo e universo são coisas diferentes.
  3. Perceber e seguir esta ordem é muito difícil. Agostinho considera, portanto, que é possível não seguir a ordem o que sugere o determinismo não é absoluto.
  4. Ver e explicar a ordem é ainda mais difícil e raro.
  5. É difícil também encontrar um ouvinte pois para perceber esta ordem é preciso tanto ter méritos quanto um certo grau de conhecimento. Isso sugere que conhecimento e evolução caminham lado a lado (uma idéia de Sócrates) e que são exigências para ser digno do saber (a verdade também é uma dádiva, uma idéia cristã). Aqui também há uma possível referência ao Mito das Cavernas de Platão.
  6. A ordem é uma coisa divina e obscura, mostrando que há uma conotação de mistério na Revelação divina.
Vejam quantos pontos importantes Agostinho toca em duas frases. Existe uma ordem no universo? Como se articulam livre-arbítrio e determinismo na existência humana? É possível ver a verdade? Qual a sua natureza? É possível transmiti-la? É possível atingir sabedoria sem evolução moral?

Só estas duas primeiras frases já valeram o exercício e porque Olavo de Carvalho é um dos poucos no Brasil realmente capacitados a ensinar filosofia. Se não for o único.

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