terça-feira, junho 22, 2010

O Triste Fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto

O Nosso Dom Quixote

Edmundo Burke foi o autor de uma das frases célebres da história: "o patriotismo é o último refúgio do canalha". Não se referia ao sentimento que nos deveria ligar à nossa pátria, um sentimento baseado no desejo de fazer parte de um passado comum, de uma história, de uma tradição. Algo que não conseguimos explicar, mas que nos deixa volta e meia comovidos por um feito de um compatriota ou uma meta alcançada por nosso país.

Houve uma época recente que bastante desiludido com o que acontecia no meu país, tentei renunciar a qualquer espécie de patriotismo e me desligar de qualquer sentimento de nacionalidade. Tentei de tudo, a raiva, a indiferença. No fim, acabava comovido com os acordes do hino ou uma medalha olímpica por parte de um de nossos atletas. Por que isso? Se a razão me apontava que não havia absolutamente nada para ter orgulho no país, por que não conseguia me livrar destes laços?

Foi quando Ortodoxia caiu em minhas mãos. No Capítulo V, A Bandeira do Mundo, Chesterton trata de duas formas de patriotismo que não levam a nada. Na primeira, o homem não ama porque não vê razão para amar, só vê defeitos, tudo é tremendamente errado, é o pessimista. Na segunda forma, o homem sabe exatamente a razão para amar, é o otimista. Nenhum dos dois será capaz de mudar o objeto do seu amor, o primeiro por desprezá-lo e o segundo por achá-lo bom como está.

Uma pessoa que odeia tudo no Rio de Janeiro, que odeia a cidade, nada fará para melhorá-lo. Tentará ir embora o mais cedo possível ou passará a vida lamentando o fato de ter que morar na cidade. Por outro lado, uma pessoa que ama a cidade por diversas razões, como a praia e o clima, por exemplo, nada fará enquanto ninguém mexer na praia e no clima. Está satisfeito com o que vê.

Então quem é capaz da mudança? Segundo Chesterton, aquele que ama sem razão. Aquele que vê qualidades, defeitos e não entende porque ama o Rio de Janeiro. "O homem mais capaz de destruir o lugar que ama é exatamente aquele que o ama por uma razão. O homem que vai melhorar o lugar é aquele que o ama sem uma única razão."

Foi neste pensamento simples de Chesterton que encontrei a paz em meu patriotismo. Não consigo ver um motivo para amar meu país, e nem tento mais, mas tenho por ele amor, sem razão nenhuma além de ter nascido aqui. De certa forma, sou aquele que ama sem razão.

Policarpo Quaresma era um otimista. Amava o Brasil e passou a vida estudando as razões para amá-lo. Seu amor só fazia sentido pela idéia da perfeição: o Brasil era melhor que qualquer outro país em todos os aspectos. Chegou ao ufanismo, passou a rejeitar qualquer contribuição de outra cultura, defendeu a adoção do tupi como língua oficial do país e chegou ao ponto de se recusar usar fertilizantes em suas terras pois teria que admitir que estas terras não eram férteis.

Lima Barreto cria seu Don Quixote brasileiro, um homem incapaz de ver a realidade e que criou um universo paralelo para viver, para fazer sua crítica à sociedade de sua época. Uma sociedade assustadoramente atual.

Quando propõe o tupi como língua oficial, por exemplo, é ridicularizado pelos jornais e se torna uma celebridade. Seus colegas de burocracia se revoltam contra ele, não pelo ato em si, mas pela audácia de fugir da mediocridade da repartição e atingir alguma glória, mesmo que negativa. Um dos traços que identifico em boa parte dos brasileiros é a inveja do sucesso alheio. Em todos os sentidos.

Interessante também que Quaresma, depois de internado como louco, resolve mudar-se para o interior e tornar-se agricultor para provar que o futuro do país passava pela agricultura. Sua saga mostra bem a dificuldade de ser um empreendor no Brasil. O município vive uma luta política entre o prefeito e o presidente da câmara e Quaresma recusa-se a tomar partido. Acaba tendo seus negócios perseguidos por ambos, através de multas e punições mostrando a dependência do empreendimento privado em relação ao poder político. São tantas as leis que qualquer empreendimento sempre estará cometendo alguma ilegalidade e através desta ilegalidade o poder político mantém o controle da sociedade civil. Nada mais atual.

Por fim, acaba envolvendo-se na Revolta da Armada onde descobre a verdadeira natureza de Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro. Condenado à morte, acaba abandonado por todos e desiludido com suas próprias decisões mostrando como pode ser brutal o mergulho na realidade.

Policarpo é o retrato ampliado dos brasileiros que hoje dão suporte ao rumo que o país assumiu. Atrás de um patriotismo equivocado, é incapaz de ver a realidade e acredita estar sendo dirigido por um grande estadista que na verdade é apenas um velhaco preguiçoso quer ganhar o suficiente para atender seus próprios interesses.

Lima Barreto não descreveu o Brasil do início da República.

Descreveu o Brasil do século XXI.

segunda-feira, junho 21, 2010

O Enforcado - Georges Simenon, 1931

Um dos sentimentos mais angustiantes que um homem pode ter é a culpa. Como lidar com ela? Como não se deixar dominar por uma força tão poderosa que é capaz de destruir o espírito de quem a sente e prejudicar todos a sua volta?

Existem pessoas que acreditam que a culpa é um sentimento ruim, que devemos evitá-la. Certa vez uma pessoa me disse que não se arrependia de nada na vida, que só olhava para o futuro. A culpa é um sentimento que necessariamente aponta para o passado pois relaciona-se com algo que já fizemos, que está em nossa história pessoal. Até que ponto podemos varrê-la para debaixo do tapete? Se é verdade que aponta para o passado, seus efeitos se prolongam no presente e ameaçam o futuro. Em muitos casos, a culpa só aumenta, tornando-se um fardo insuportável.

Esquecer o que passou? Não é tão simples assim, ainda bem. Imaginem uma sociedade onde todos conseguissem se livrar do passado por força da vontade, se ninguém sentisse culpa. Em que nos transformaríamos? Como haveria arrependimento e perdão sem a consciência do erro e a culpa consequente? O que seria do homem se fosse incapaz de sentir culpa?

Por outro lado, se sentir culpa é uma necessidade do espírito, o excesso neste sentimento pode levar literalmente à loucura, remetendo a Aristóteles e sua teoria das virtudes. Existe uma medida para o sentimento de culpa, é louvável tê-lo, mostra que temos a vontade de evoluir, mas não podemos deixar-nos imobilizar por este sentimento, não podemos sentir culpa demais.

Georges Simenon dá uma senhora aula sobre remorso e culpa no romance O Enforcado, publicado pela primeira vez em 1931. Aprendi com Mario Vargas Llosa que um grande romancista conta uma estória em várias camadas superpostas e este pequeno grande livro, como é próprio de Simenon, é um exemplo marcante desta teoria.

Em uma primeira camada, temos um típico drama policial. O Comissário Maigret se depara com um estranho caso de suicídio e passa a investigar minuciosamente as pistas que se sucedem até descobrir o mistério por trás da morte Louis Jeunet. Mas esta não é a verdadeira estória contada por Simenon, a estória principal se encontra em uma segunda camada, uma estória da culpa e seu efeito sobre o espírito dos homens.

O primeiro a lidar com ela é o próprio Maigret. Por um ato seu, um certo Jeunet comete o suicídio; não por acaso o título do capítulo é "O crime do Comissário Maigret". Ciente de sua culpa, resolve encará-la de frente e fazer a única coisa que sabe para tentar remediá-la. Descobrir porque Jeunet se matou por causa de uma simples troca de uma valise que continha nada mais do que um terno velho e sujo. Maigret não racionaliza, não tenta fugir do sentimento de culpa: "nessa noite, um Maigret silencioso, arrasado pela fatalidade, assistira às operações de seus colegas alemães... Não estava longe _ estava aliás bem perto _ de pensar que acabara de matar um homem."

As outras formas de lidar com a culpa se revelam na conclusão do caso. O troca de valise de Maigret fora apenas o estopim para um atormentado Jeunet, no limite após 10 anos carregando sua culpa, tirar a própria vida em um ato de desespero. Não foi o único, outro fizera o mesmo há 10 anos pela mesma culpa. É o retrato de duas pessoas que deixaram-se consumir pelo remorso, que sentiam-se culpados por cada momento feliz que tinham em suas vidas, que angustiavam-se ainda mais em serem felizes.

Outros lidaram melhor com a culpa, ficaram bem de vida, mas nunca se livraram totalmente do sentimento que teimava em perturbar suas consciências. Tornaram-se boas pessoas, pais zelosos, mas incapazes de desfrutar na plenitude do sucesso que alcançaram em suas vidas. No fim, levaram um vida efêmera e terminaram castigados pelo próprio Jeunet que resolvera encarnar a vingança de um crime que todos cometeram anos antes.

Um crime cometido por um bando de garotos! Maigret percebe o que nenhum deles fora capaz de perceber. Se era verdade que cometeram um crime, havia diversas situações atenuantes, inclusive a atitude da vítima para com eles. Na verdade, o maior crime daqueles garotos fora a alienação que os membros de uma sociedade secreta, por menos e mais insignificante que seja, sofrem em relação à condição humana. Em um ato de tolice, 6 rapazes condenaram suas vidas. A irresponsabilidade de jovens que se deixam levar pela bebida e pela supressão momentânea da consciência pelo efeito de se fazer parte de um grupo, um fenômeno cada vez mais presente em nossa sociedade contemporânea.

Maigret percebe também que a fuga gerara efeitos muito piores que a assunção do erro na época do crime. Como comenta no fim, mais 10 casos como esse provariam que não havia necessidade de polícia, que Deus acertava as contas invariavelmente. Mas como bem comenta, não haveriam 10 casos como esse...

Simenon escreveu um "O Enforcado" um livro de extraordinária concisão e clareza, sem perder a profundidade que um tema destes requer. Em duas breves páginas ele narra, por exemplo, o confronto de Maigret com três homens sem que nenhum deles dissesse uma só palavra. Uma guerra de nervos que transcende ao texto. Um autor menos talentoso levaria 4 vezes mais palavras para tentar produzir o efeito que ele consegue. Não conheço outro autor com esta capacidade, talvez apenas Camus.

Que Simenos não seja colocado ao lado dos grandes escritores só mostra a má vontade que a crítica tem com o gênero do romance policial, como se fosse algo menor na literatura. Simenon prova que um grande romancista não se prende a gêneros literários e que merece figurar ao lado dos grandes da literatura mundial.

sexta-feira, junho 04, 2010

Charles Dickens (Jane Smiley)

Charles Dickens pode ser considerado a primeira celebridade do mundo moderno. Ao contrário de muitos grandes autores que o precedeu, alcançou a grande fama em vida, sendo um escritor de bastante sucesso e referenciado ainda jovem. Aos 25 anos já tinha publicado 3 livros e algumas peças de teatro e já era considerado o maior escritor da Inglaterra. Um caso raro de talento precoce para a literatura.

Esse é o perfil que a escritora Jane Smiley explora em sua curta biografia de Dickens. Confesso que sou meio avesso à biografias, mas estou começando a mudar minha opinião. Depois de ler sobre a vida de Yitzhak Rabin, tive a sorte de ler esta bonita obra de Smiley. A escritora conseguiu com bastante clareza expor a trajetória de Dickens, o primeiro homem a se ver administrando uma carreira de sucesso, com reconhecimento e procurando, ao mesmo tempo, preservar sua privacidade.

Ela é especialmente feliz ao relacionar acontecimentos da vida do escritor com seus inúmeros e inesquecíveis personagens, mostrando que um grande artista busca a experiência do mundo real para transpor para sua arte. Dickens conseguiu este feito com extrema maestria.

Uma obra digna de seu personagem.

Parreira resolve falar

Depois de 4 anos, o técnico Carlos Alberto Parreira resolveu desabafar e responsabilizou os jogadores pelo fracasso de 2006. Reclamou especialmente dos atletas que se apresentaram acima do peso, passando de 100kg.

Tudo bem.

Mas não adianta posar como se não tivesse nada a ver com aquilo. Foi ele quem convocou e, principalmente, quem escalou. Quando resolveu "poupar" os titulares, o Brasil teve sua melhor atuação na Copa, no jogo contra o Japão. No jogo seguinte, trouxe o bando de volta e o resultado foi o que se viu.

Se Parreira não tivesse opção no banco, até se entende. Mas tinha Robinho e Cicinho comendo a bola, doidos para jogar. Preferiu ficar com seus medalhões que visivelmente não queriam nada com nada.

Parreira tem que lembrar que o comandante era ele. Da mesma forma como recebeu merecidamente os louros de levar um time medíocre a ganhar o caneco em 1994, tem a grande parcela de responsabilidade por levar uma seleção infinitamente mais talentosa ao fracasso em 2006.

Parece até que o Parreira de 2006 queria provar que quem estava certo era o Parreira de 1994. Que Dunga não resolva provar a mesma coisa. Se bem que pela convocação, parece que quer confirmar que para ganhar a Copa precisa jogar feio. E ainda reclama do time de 82...

quarta-feira, junho 02, 2010

A Copa está chegando

Hoje o Brasil faz o seu primeiro amistoso preparatório para a Copa.

Contra o forte Zimbábue, para dar uma ajuda ao democrata presidente do país que está no poder há 30 anos.

Não precisa ser gênio para ver as patas de Celso Amorim nesta decisão brilhante. Mais uma mostra que no Brasil não há diferença entre o público e o privado.

E o ufanismo já começou.

Salário-mínimo e sua mágica


Como se forma o valor de um salário?

É preciso ter em mente que os salários dependem da interação entre empresas e trabalhadores. São três os fatores que exercem um papel importante nessa interação[1]:

  1. as escolhas das empresas que precisam de trabalhadores
  2. as escolhas dos trabalhadores, que vendem seu trabalho
  3. o processo de barganha entre empresas e trabalhadores
Não há mágica. A empresa analisa o custo-benefício da contratação de um trabalhador analisando dois fatores: o custo total (salários, impostos e benefícios sociais) e seu efeito líquido sobre o lucro da empresa. Quanto mais produtivo ele for, quanto mais ele influir no faturamento da empresa, mais ela estará disposta a pagar por ele. Se os benefícios de contratar esse trabalhador superarem os custos, a empresa escolhe contratá-lo.

O trabalhador, por sua vez, analisa o salário que pode receber, além de outros fatores como o aprendizado, estabilidade, etc. O custo de trabalhar em uma empresa é o tempo que poderia ser utilizado em outras atividades (lazer, cuidar da família, trabalhar por conta própria, etc). Ela decide oferecer seu trabalho apenas se os benefícios forem maiores do que este custo de oportunidade.

O terceiro elemento é a negociação. Empresas querem pagar menos, trabalhadores querem receber mais. Um importante fator que influi no preço do trabalho (o salário) é a concorrência, tanto entre empresas (tende a elevar salários) quanto entre trabalhadores (diminui salário).

Qualquer medida econômica que não afete estes três fatores configura o que Gonçalves e Guimarães denominaram "economágica".

Vejamos o caso do salário-mínimo.

O governo, ao estipular um valor mínimo para o salário, interfere no mercado. Ele não influencia na competição entre as empresas, nem na competição entre trabalhadores. Seu maior efeito é sobre o custo da mão de obra. Considerando que o salário-mínimo não interfere na capacidade de produzir do trabalhador, alguns deixarão de ser empregados.

Imagine dois trabalhadores que conseguem produzir R$ 600 e R$ 500 para uma empresa, exercendo a mesma função. Por um salário menor do que o benefício, ela poderá contratá-los. Digamos, por R$ 450.

No entanto, por imposição do governo, ela não pode pagar menos do que R$ 550. O que faz a empresa? Permanece com o primeiro trabalhador, que tem seu salário aumentado em R$ 100 e dispensa o segundo por não ser vantajoso. O resultado é que o benefício de um se faz a custa do outro. A empresa também perde, pois se vê sem condições de produzir na sua capacidade. A economia do país perde pois a empresa produzirá um pouco menos. Por isso o resultado de uma político de aumento artificial de salários causa um efeito colateral importante, o desemprego.

E quem exatamente é colocado fora do mercado de trabalho pelo salário-mínimo? Justamente os menos capacitados, geralmente os jovens que estão iniciando no mercado. São eles que pagam pelos benefícios dos que estão melhores colocados.

É o que mostra este post do blog Carpe Diem, onde se evidencia que o pessoal do NYT precisa assistir um curso básico de economia antes de escrever as bobagens que costumam escrever.



[1] "Economia sem Truques", Gonçalves, C. E. e Guimarães, B.



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