segunda-feira, junho 21, 2010

O Enforcado - Georges Simenon, 1931

Um dos sentimentos mais angustiantes que um homem pode ter é a culpa. Como lidar com ela? Como não se deixar dominar por uma força tão poderosa que é capaz de destruir o espírito de quem a sente e prejudicar todos a sua volta?

Existem pessoas que acreditam que a culpa é um sentimento ruim, que devemos evitá-la. Certa vez uma pessoa me disse que não se arrependia de nada na vida, que só olhava para o futuro. A culpa é um sentimento que necessariamente aponta para o passado pois relaciona-se com algo que já fizemos, que está em nossa história pessoal. Até que ponto podemos varrê-la para debaixo do tapete? Se é verdade que aponta para o passado, seus efeitos se prolongam no presente e ameaçam o futuro. Em muitos casos, a culpa só aumenta, tornando-se um fardo insuportável.

Esquecer o que passou? Não é tão simples assim, ainda bem. Imaginem uma sociedade onde todos conseguissem se livrar do passado por força da vontade, se ninguém sentisse culpa. Em que nos transformaríamos? Como haveria arrependimento e perdão sem a consciência do erro e a culpa consequente? O que seria do homem se fosse incapaz de sentir culpa?

Por outro lado, se sentir culpa é uma necessidade do espírito, o excesso neste sentimento pode levar literalmente à loucura, remetendo a Aristóteles e sua teoria das virtudes. Existe uma medida para o sentimento de culpa, é louvável tê-lo, mostra que temos a vontade de evoluir, mas não podemos deixar-nos imobilizar por este sentimento, não podemos sentir culpa demais.

Georges Simenon dá uma senhora aula sobre remorso e culpa no romance O Enforcado, publicado pela primeira vez em 1931. Aprendi com Mario Vargas Llosa que um grande romancista conta uma estória em várias camadas superpostas e este pequeno grande livro, como é próprio de Simenon, é um exemplo marcante desta teoria.

Em uma primeira camada, temos um típico drama policial. O Comissário Maigret se depara com um estranho caso de suicídio e passa a investigar minuciosamente as pistas que se sucedem até descobrir o mistério por trás da morte Louis Jeunet. Mas esta não é a verdadeira estória contada por Simenon, a estória principal se encontra em uma segunda camada, uma estória da culpa e seu efeito sobre o espírito dos homens.

O primeiro a lidar com ela é o próprio Maigret. Por um ato seu, um certo Jeunet comete o suicídio; não por acaso o título do capítulo é "O crime do Comissário Maigret". Ciente de sua culpa, resolve encará-la de frente e fazer a única coisa que sabe para tentar remediá-la. Descobrir porque Jeunet se matou por causa de uma simples troca de uma valise que continha nada mais do que um terno velho e sujo. Maigret não racionaliza, não tenta fugir do sentimento de culpa: "nessa noite, um Maigret silencioso, arrasado pela fatalidade, assistira às operações de seus colegas alemães... Não estava longe _ estava aliás bem perto _ de pensar que acabara de matar um homem."

As outras formas de lidar com a culpa se revelam na conclusão do caso. O troca de valise de Maigret fora apenas o estopim para um atormentado Jeunet, no limite após 10 anos carregando sua culpa, tirar a própria vida em um ato de desespero. Não foi o único, outro fizera o mesmo há 10 anos pela mesma culpa. É o retrato de duas pessoas que deixaram-se consumir pelo remorso, que sentiam-se culpados por cada momento feliz que tinham em suas vidas, que angustiavam-se ainda mais em serem felizes.

Outros lidaram melhor com a culpa, ficaram bem de vida, mas nunca se livraram totalmente do sentimento que teimava em perturbar suas consciências. Tornaram-se boas pessoas, pais zelosos, mas incapazes de desfrutar na plenitude do sucesso que alcançaram em suas vidas. No fim, levaram um vida efêmera e terminaram castigados pelo próprio Jeunet que resolvera encarnar a vingança de um crime que todos cometeram anos antes.

Um crime cometido por um bando de garotos! Maigret percebe o que nenhum deles fora capaz de perceber. Se era verdade que cometeram um crime, havia diversas situações atenuantes, inclusive a atitude da vítima para com eles. Na verdade, o maior crime daqueles garotos fora a alienação que os membros de uma sociedade secreta, por menos e mais insignificante que seja, sofrem em relação à condição humana. Em um ato de tolice, 6 rapazes condenaram suas vidas. A irresponsabilidade de jovens que se deixam levar pela bebida e pela supressão momentânea da consciência pelo efeito de se fazer parte de um grupo, um fenômeno cada vez mais presente em nossa sociedade contemporânea.

Maigret percebe também que a fuga gerara efeitos muito piores que a assunção do erro na época do crime. Como comenta no fim, mais 10 casos como esse provariam que não havia necessidade de polícia, que Deus acertava as contas invariavelmente. Mas como bem comenta, não haveriam 10 casos como esse...

Simenon escreveu um "O Enforcado" um livro de extraordinária concisão e clareza, sem perder a profundidade que um tema destes requer. Em duas breves páginas ele narra, por exemplo, o confronto de Maigret com três homens sem que nenhum deles dissesse uma só palavra. Uma guerra de nervos que transcende ao texto. Um autor menos talentoso levaria 4 vezes mais palavras para tentar produzir o efeito que ele consegue. Não conheço outro autor com esta capacidade, talvez apenas Camus.

Que Simenos não seja colocado ao lado dos grandes escritores só mostra a má vontade que a crítica tem com o gênero do romance policial, como se fosse algo menor na literatura. Simenon prova que um grande romancista não se prende a gêneros literários e que merece figurar ao lado dos grandes da literatura mundial.

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