domingo, julho 25, 2010

Crise Mundial, problema financeiro?

A crise que estourou em 2008 e se espalhou pelo mundo, principalmente nos países mais ricos, foi tratada inicialmente como uma crise financeira causada pela irresponsabilidade de investidores gananciosos. Além de socorrer o sistema bancário para evitar uma crise de liquidez que colocasse em risco a economia como um todo, o remédio era disciplinar os irresponsáveis para que ela não mais voltasse a ocorrer.

Passados dois anos, começa a surgir explicações que divergem das primeiras análises. Seria o mercado financeiro o grande vilão? Estaria a economia real, aquela das empresas e consumidores, sujeita aos desmandos de banqueiros e investidores inescrupulosos ou o contrário? Seria o sistema financeiro a vítima de uma disfunção da própria economia?

Luc Ferry é um filósofo francês, autor de algumas obras que buscam popularizar a filosofia como "Aprendendo a Viver" e foi ministro da educação da França entre 2002 e 2004. Na condição de presidente do Conselho de Análise da Sociedade, instituído pelo governo de seu país para analisar e propor escolhas diante dos desafios atuais, coordenou um estudo sobre a crise mundial e as sugestões para enfrentá-la. O resultado deste estudo encontra-se em "Diante da Crise, Materiais para uma Política de Civilização", publicado em maio de 2009.

Para Ferry, a crise é sobretudo econômica e o sistema financeiro teve um papel secundário na crise. As raízes da crise está no consumismo desenfreado, ampliado enormemente pela globalização, que tornou a sociedade dependente do aumento interminável do padrão de consumo, acima da capacidade de compra dos indivíduos e empresas. O resultado é o endividamento geral, com o crédito substituindo o salário como fonte de recursos e gerando artificialmente um sistema que não pode se manter infinitamente. O que aconteceu em 2008 foi que a capacidade de endividamento chegou no limite.

O livro é estruturado em duas partes. Na primeira, Ferry analisa a globalização e seus efeitos históricos, que contribuíram em grande parte para o estabelecimento da sociedade voltada para o consumo. Na segunda, apresenta 5 eixos de propostas para o governo francês enfrentar a crise.

A globalização é uma realidade que junto com benefícios traz também efeitos nefastos. A sua primeira fase, ocorrida a partir do século XVIII, ficou conhecida como revolução científica e social, que rompeu com o mundo antigo estabelecendo um novo paradigma de busca do progresso pelo domínio da natureza. A segunda, que surgiu a partir da segunda metade do século XX "com o nascimento dos mercados financeiros, ligados à comunicação instantânea na Internet, representa, ao mesmo tempo, um produto da primeira e uma ruptura total com ela" terá como grande característica o surgimento de uma estrutura, o capitalismo, onde tudo será submetido a uma economia de competição que mudará radicalmente a forma de viver no mundo.

O capitalismo assumirá uma forma de revolução permanente, trocando de lugar com o socialismo. A desconstrução das tradições herdadas de nossos avós, fruto de uma luta da esquerda contra o capitalismo, terá como maior beneficiário o próprio capitalismo que terá as condições de impor uma sociedade de consumo, só possível pelo estabelecimento de novos valores de constante revolução. O burguês conservador, deplora a perda destas tradições por parte de seus filhos e da juventude, mas ao mesmo tempo necessitará dela para sobreviver economicamente. A mudança passa a ser a palavra-chave nas empresas, o que é incompatível com um ideal verdadeiramente conservador. Por fim, ocorre o que chamou de sacralização do humano. Deus, pátria e o próprio ideal de revolução, as razões que o homem tinha para morrer e matar, se perde e a família, filhos e parentes, passa a ser o motivo capaz de fazê-lo lutar. Nos próximos anos as relações entre política e vida privada sofrerão uma revolução.

Diante deste quadro, Ferry propõe 5 eixos de propostas para a França se posicionar no novo cenário. São elas:

- Um eixo duplo, totalmente prioritário: o auxílio às famílias, o auxílio às empresas;
- um eixo de "equidade": em que condições todos os nossos concidadãos podem sentir-se "no mesmo barco"?
- Um eixo de "educação": repensar do começo ao fim a educação cívica, o caminho profissional, os programas econômicos e o lugar das grandes obras em nossos ensinamentos filosóficos e literários;
- Um eixo de "redução de déficits": a questão da solidariedade entre as gerações e
- Um eixo "Europa" que finalmente a apresenta com o bom nível para retomar as rédeas sobre um curso do mundo que a globalização está sempre tirando de nós.

Ferry conclui lembrando que diante da crise, que é econômica, financeira, social e política, as margens de manobra orçamentárias dos governos são limitadas e que apenas um projeto de civilização sincero, equitativo e coerente pode permitir fazer frente ao risco de considerar o mundo como injusto e desprovido de sentido. O horizonte de consumo infinito e ilimitado não é sustentável, é preciso encontrar um novo modelo de desenvolvimento e até mesmo um novo projeto de sociedade. A crise é mais do que uma catástrofe em si, é uma oportunidade de abrir os olhos e reverter o caminho que está sendo seguido e cujas consequências ainda poderão ser bem piores no futuro do que se viu até aqui.

O curto livro de Ferry, tem 115 páginas, tem o inegável mérito de refletir sobre a crise em um ambiente bem mais amplo do que pela via da economia. Chama atenção para a relação entre a destruição dos valores tradicionais e o estabelecimento de uma cultura de consumo, invertendo papéis entre burgueses e boêmios, entre artistas e banqueiros. Paradoxalmente, os artistas se tornaram os maiores amigos dos grandes capitalistas. A família é colocado por ele em papel central, inclusive com propostas concretas para um crescimento populacional europeu.

No entanto, Ferry apresenta uma crença absoluta no papel da ciência como fonte única do progresso humano. Parece considerar que a superação do sentimento religioso é uma condição para esse progresso. A educação é visto como ele como fonte da formação cívica e não como a capacitação para a reflexão humana através da busca de conhecimentos básicos.

O capitalismo é visto por ele como um sistema, dentro de uma visão até certo ponto marxista, embora rejeito o socialismo como solução econômica para a humanidade. Por rejeitar a relação da filosofia com a religião, não pode conceber que os problemas da liberdade econômica são provenientes da própria fraqueza humana e deixa de perceber o que para Bento XVI, por exemplo, é bem claro. A cupidez humana é a responsável pelo consumismo e não o sistema econômico em si e que a reforma moral é o fundamento para que a sociedade ser organize de modo mais harmônico, justamente o que prega as grandes religiões.

Apesar disso, o curto livro de Ferry tem méritos inegáveis, principalmente por fugir da esquematização exclusivamente financeira sobre uma crise que poder ter razões que vão muito além da economia e consegue enxergar em um quado mais amplo a primeira crise do novo século.

Não se deixem enganar...

Desde que Índio da Costa disse o que a oposição tinha que ter dito lá em 2002, talvez evitando este governo que está aí, tenho acompanhado a repercussão pela imprensa. Claro que me refiro a ligação da petralhada com as FARCs.

No primeiro dia comentei com um colega: a única coisa que eu garanto é que o PT não vai negar a ligação.

Foi o que aconteceu. Esperneou, acusou Índio da Costa de tudo, a imensa imprensa marrom fez beicinho, deu chilique e claro partiram para a desqualificação pessoal, a tática preferida da esquerda em qualquer lugar do mundo. O presidente da petralhada inclusive declarou que processaria o deputado __ como se eles não soubessem que não podem dar uma chance para que se mostre na justiça os inúmeros documentos que comprovam a ligação, via Foro de São Paulo.

Por fim, foram para a justiça eleitoral, aquela que faz de tudo para evitar que as campanhas eleitorais discutam... política! Pelo TSE os candidatos podem apenas declarar quantas pontes vão construir, o que vão fazer na Saúde, na Educação, desde que tudo muito abstrato evidentemente. Em 2006, por exemplo, a oposição não pode fazer a ligação do PT com o mensalão, como se esta informação fosse irrelevante para a escolha dos dirigentes políticos do país. E depois comemoram o sucesso do "processo democrático".

Bem, o TSE, bedel da disputa "política" no Brasil, decidiu que o PSDB teria de dar direito de resposta para o PT no caso das FARCs. Confesso que fiquei curioso. Como o PT negaria a ligação com as FARCs sem... negar a ligação com as FARCs!

A resposta está aqui. Não há uma única linha sobre as FARCs no documento que o PT encaminhou para a justiça eleitoral. Por que é tão difícil dizer que o PT não teve, não tem e jamais terá qualquer ligação com as FARCs e rejeita o narco-tráfico colombiano como expressão aceitável de uma luta política.

Que o eleitor pense bem antes de dar mais um mandato para esta corja.

A propósito, leio que o crime aumentou no país nestes últimos anos. Apenas uma coincidência, claro.

sábado, julho 24, 2010

Três Alqueires e Uma Vaca - Gustavo Corção

Ao longo de sua carreira, Chesterton escreveu sobre Tomás de Aquino, Agostinho, Dickens e outros. Não se trata propriamente de biografias, onde um autor destaca os principais acontecimentos de uma personalidade, muitas vezes procurando ligá-los com suas obras. O interesse de Chesterton era exclusivamente sobre as idéias destes grandes pensadores. É exatamente isso que Gustavo Corção se propôs ao fazer com o grande escritor inglês.

A dificuldade de resumir as idéias de um autor de mais de 80 livros, todos fecundos em reflexões e análises, foi o maior obstáculo à pretensão de Corção. Resolveu agrupar as principais idéias de Chesterton em torno de 3 eixos principais ou 3 grandes idéias e tendo como fio condutor o que considerava a grande característica do pensamento do inglês, o humanismo verdadeiro.

Não um humanismo em que o homem era retirado de sua situação real e pensado abstratamente. O homem de Chesterton não é o operário, o camponês, o bispo ou o aristocrata. Ou melhor, é todos e nenhum ao mesmo tempo; é o homem comum, aquele que vemos todos os dias, aqueles que nós somos. Um homem comum que pode ser um operário, camponês, bispo, aristocrata ou até mesmo um rei. Chesterton pouco se interessava sobre o que tornava um homem específico, o que o separava dos demais. Seu interesse era para o que tinha em comum a todos os homens, o que consistia a essência de sua humanidade.

Nascer, crescer, brincar, comer, morrer, amar, beber, pecar, se arrepender. São coisas comuns aos homens de todas as épocas e todos os lugares e a verdadeira essência de uma filosofia saudável, à reflexão que engrandece e que nos faz descobrir coisas sobre nós mesmos. Chesterton dedicou sua vida a esta reflexão e Corção aponta três eixos de pensamento em sua obra, que evitaria o homem de cair em uma das três grandes situações que o tornaria desumano, que o faria perder sua humanidade: a loucura, a barbárie e a escravidão.

Para não ser doido

O primeiro confronto de Chesterton, para lançar um desafio a uma opinião geralmente admitida, é entre o poeta e o louco.


É um lugar comum que um louco é um homem que perdeu a razão. Chesterton inverte esta crença e afirma: o louco é um homem que perdeu tudo, exceto a razão. Matemáticos ficam loucos, físicos também, enxadristas, filósofos. O poeta não. O poeta é capaz de sentir o mistério nas coisas, grandes ou pequenas, e se deixar maravilhar por elas. Dedicam suas vidas a tentar expressar esta maravilhamento, em tentar encontrar palavras para descrever o que muitas vezes é impossível descrever. O homem que cerca-se da razão por todos os lados é incapaz de ver o mistério das coisas mais simples e separam-se da humanidade. O poeta tenta entrar de cabeça no mundo enquanto que o racional tenta colocar o mundo na cabeça. Acaba louco.

O louco de Chesterton não tão somente o que está no hospício e que reconhecemos facilmente nesta condição. O louco de Chesterton são os materialistas, os deterministas, os comunistas, em resumo, os idealistas. Os que imaginam ter uma explicação racional para o mundo e o homem, que criam um modelo em que o mundo se encaixa perfeitamente. O louco é Marx, Nietzsche, Wells, Rousseau e tantos outros que acharam ter a explicação racional para o universo. Alguns deles acabaram realmente reconhecidos como loucos, outros morreram sem evidenciar sua real condição.

Aqui entra o papel especial da criança. Ela é completamente capaz de ver o mistério em tudo que vê, ela sente o maravilhamento em uma porta sendo aberta, um sorriso da mãe, uma chuva que cai. A sua pureza deveria ser o lembrete para a humanidade nunca esquecer que existem coisas que fogem à nossa capacidade de raciocinar. Ao crescer, o homem perde muito desta capacidade e esta é sua perdição. O segredo da vida saudável é manter o máximo possível esta idéia de mistério e deslumbramento como o mundo.

Para não ser bárbaro

O bárbaro-positivo não é apenas o inimigo da civilização, mas o que procura uma nova civilização, uma civilização de segunda ordem. A nova ordem.


Se a primeira idéia-mestra era sobre a saúde mental do homem, a segunda é sobre sua saúde social. Para Chesterton uma das características que separava o homem não só dos animais como das bestas e répteis, humanos ou não, era a capacidade especial de fazer promessas. O homem civilizado era aquele capaz de prometer e cumprir o que prometeu, era aquele capaz de fazer juramentos e cumprir o que jurou. A antítese deste homem, o bárbaro, podia ser visto na Alemanha nazista que fazia tratados e acordos para depois descumpri-los. O resultado foi a devastação que se seguiu. O totalitarismo, seja o fascismo, nazismo ou comunismo era o resultado da perda da capacidade do homem de fazer promessas. A democracia se perde quando uma sociedade deixa de jurar.

Aqui Chesterton apresentava uma de suas idéias mais polêmicas, o relacionamento do divórcio com o fim da democracia. O homem e a mulher ao se divorciarem rasgam uma promessa solene que fizeram, uma promessa de eternidade, um juramento sagrado. Tanto mais grave era este fato quando os motivos eram os mais fúteis. Certamente que um casamento não é uma fonte inesgotável de prazeres ao longo de toda sua duração, muitas vezes é difícil de manter, como são as coisas da vida. No entanto, não se pode esquecer que foi fruto do juramento mais expontâneo e particular que alguém pode fazer em sua vida. Os homens não conseguem perdoar a traição à pátria, fruto de um acidente de nascimento, mas não vêem nada demais em trair o casamento, uma pátria que foi escolhida livremente.

Outra idéia relacionado à civilização era o respeito à tradição. Para Chesterton a democracia era o respeito ao legado, ao que recebemos de nossos antepassados. A tradição é a democracia dos mortos, é dar ouvidos às pessoas que viveram antes de nós e que não podem mais se expressar diretamente. Isso não significa que nada deva ser mudado, ao contrário, é preciso mudar sempre para que a essência da tradição se mantenha e que ela não se perca com o passar dos tempos. Um poste só permanece branco se for constantemente pintado de branco. Conservar não é uma atitude passiva, é um constante agir para manter o que foi conquistado com muito custo.

Para não ser escravo.

Foi pois ortogado ao homem, no dia da sua criação, um direito de posse e domínio sobre todas as coisas.


Chesterton repudiava tanto o comunismo quanto o capitalismo. Para ele, ambas eram doenças pois deixavam de respeitar o princípios fundamental da economia.Das três idéias-mestras, é a que parece menos religiosa mas é aqui que o leitor comete um erro típico dos paradoxos mostrados por Chesterton. Para ele, a idéia da posse era a que mais se relacionava à Deus e o milagre da criação.

O comunismo é herege porque não respeita o direito de propriedade e o capitalismo é herege porque defende o direito de propriedade, só que para apenas alguns. O fundamento do cristianismo sempre foi uma idéia de posse e de recompensa. Chesterton defendia que todos os homens, sem excessão, tinham direito a uma propriedade e um meio de subsistência. E que deveria usar o lucro de seu trabalho não apenas para si mesmo, mas para o uso de sua comunidade. Se a posse era particular, o uso deveria ser distribuído e assim choca-se tanto com o comunismo quanto com o capitalismo. O primeiro negava o direito ao lucro, o segundo afirmava que o homem tinha direito ao uso exclusivamente privado de sua propriedade.

A idéia de Chesterton gira em torno disso; e eu queria ser um gênio para convencer ao leitor, depois dele, que a idéia mais poética e mais maravilhosa do mundo está ligada à posse de três alqueires e uma vaca. Ou então, o que é muito mais fácil, eu queria que o leitor fosse um homem extremamente simples, para descobrir isso sozinho.


Mais uma vez Gustavo Corção nos presenteia com um texto de prosa fácil e escrito com paixão. Um diálogo de um autor vivendo as angustias do século XX, o livro é de 1961, que tenta dialogar com um escritor que viveu um século antes e que teve como referência. Corção viu que o homem se tornou louco, bárbaro e escravo, talvez o melhor argumento para comprovar a grandeza de G. K. Chesterton.

sexta-feira, julho 23, 2010

Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá - Lima Barreto

Lima Barreto não retratou apenas o Brasil do início do século XX; foi muito além. Retratou o Brasil do início do século XXI e acabou dando uma demonstração cabal de como é difícil mudar uma cultura, por mais que os engenheiros sociais tentem.

Em "Recordações do escrivão Isaías Caminha" ele mostra a corrupção moral da redação de um jornal e evidencia a ignorância dos jornalistas, coisa evidente em praticamente qualquer jornal brasileiro hoje; em "O Triste Fim de Policarpo Quaresma" seu alvo é o ufanismo tolo, baseado em uma falsa noção de patriotismo, que cega completamente o homem para a realidade das coisas; e, em "Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá, ele mostra não só o misto de perplexidade e desprezo pela sabedoria do próximo como a mediocridade da classe social brasileira por excelência, o funcionarismo público.

Gonzaga de Sá é um perfeito burocrata, exceto por um detalhe. Possui uma curiosidade inquietante pela realidade das coisas e, ao seu modo, é um verdadeiro filósofo na concepção clássica, pois sua busca pela sabedoria está centrada da existência real. É a partir dos dramas e acontecimentos do dia-a-dia que busca a reflexão e o conhecimento. Não possui desejo de reconhecimento ou busca títulos pomposos, não quer ser doutor, apenas que ver o mundo e pensar sobre ele. Lima Barreto mais uma vez evidencia sua crítica pelo excessivo apreço do brasileiro pela titulação, uma constante nas três obras citadas; para ele não é na Academia que se obtém o verdadeiro conhecimento, pelo contrário, enfurnado nas Universidades o pseudo-intelectual gasta seu tempo produzindo abstrações inúteis e alienando-se do mundo.

Não é por acaso que Gonzaga de Sá gosta de passar seu tempo percorrendo as ruas do Rio de Janeiro. Atento à arquitetura, aos acontecimentos, aos tipos humanos que atravessam nosso dia-a-dia, muitas vezes sem serem notados de fato. Buscava na cidade sua própria memória, tentar tomar posse de um tempo que passou e que deixou suas marcas. Boa parte das respostas que procuramos já tínhamos em nossa infância, em nossa mocidade; em algum lugar ela se perdeu ao sermos absorvidos e mediocrizados pela sociedade tecnicista que surgia. A repartição pública era talvez o maior exemplo do mal que é feito do espírito humano dentro de uma existência burocrática.

O livro é narrado por Machado, que por acaso conhece um já velho Gonzaga de Sá no desconhecido Ministério dos Cultos. Espanta-se por encontrar uma mente tão vívida e inquieta em uma repartição pública e torna-se seu amigo e admirador. O pouco tempo que convivem é o suficiente para escrever uma bibliografia sobre uma pessoa tão rica e ao mesmo tempo tão anônima na insípida máquina estatal.

Ao longo das breves páginas nada acontece de notável. Gonzaga e Machado passeiam pela cidade e analisam acontecimentos banais como o passeio das damas da sociedade, os passageiros de um trem de subúrbio, um funeral, uma parada cívica. Gonzaga sempre tem um olhar agudo para as contradições das novas tendências que chocavam-se com as tradições em uma grande cidade de sua época. Fala sobre aristocracia, democracia, feminismo, racismo, patriotismo e até sobre as linhas topográficas do Rio de Janeiro. Tudo sob a perspectiva humana, colocando o homem como o centro da experiência existencial. Através dos diversos diálogos de Machado e Gonzaga vamos tomando consciência da vida de ambos e recebemos um convite para mergulharmos no mundo real e buscar nele o ponto de partida para a reflexão sincera que pode nos levar a conhecer um pouco mais de nós mesmos e o mundo.

O clímax do livro é o desabafo que Gonzaga faz diante da mediocridade de sua repartição. Só então o leitor compreende que o velho torturou seu próprio espírito para conviver com a ignorância e a mesquinharia, o arrependimento de quem deixou de formar uma família para dedicar-se ao estudo e à observação para só então compreender que não basta ver o mundo, é preciso vivê-lo, experimentá-lo.

"O que tenho de fato, é aborrecimento, é tédio; sofro em me sentir só; sofro em me ver que organizei um pensamento que não se afina com nenhum... Os meus colegas me aborrecem... Os velhos estão ossificados; os moços, abacharelados... pensei que os livros me bastassem, que eu me satisfizesse a mim próprio... Engano! As noções que acumulei, não as soube empregar nem para a minha glória, nem para a minha fortuna... Não saíram de mim mesmo... Sou estéril e morro estéril... "

O desalento de Gonzaga é por se aproximar do fim da vida e perceber que nada realizou, que passou quarenta e um anos em uma repartição girando em torno de si mesmo e vivendo horas cercado de imbecis.

Lima Barreto não foi um pintor de paisagens sociais, foi um observador atento da alma humana. Por isso, talvez sua obra seja tão atual e nunca perca a força. São problemas existenciais que não se limitam ao Brasil, que se reproduzem diariamente em qualquer parte do mundo pois são problemas humanos. A morte está aí para cada um de nós e a pergunta que Gonzaga se deparou e que o autor coloca para nós é o que fizemos efetivamente com nossa vida. Temos a coragem suficiente para parar, olhar para nós mesmos e nossa relação com o mundo e tentar respondê-la?

domingo, julho 11, 2010

Impressionante

Nenhuma veículo até agora falou que o gol do Iniesta foi ilegal. O puxa-saquismo com a Espanha aqui no Brasil é gigantesco. O máximo que vi até agora foi um internauta comentando em um blog que Iniesta não estava impedido no primeiro lançamento porque não participou do lance.

Besteira. A bola foi lançada para ele e o zagueiro da Holanda cortou a bola exatamente por isso. O bandeirinha deveria ter marcado o impedimento ali.

A Espanha ganhou 2 dos 4 jogos do mata-mata com gols impedidos.

Este é o retrato de uma Copa medíocre. O pior é que conseguiram ver futebol neste time mediano espanhol.

Só quem jogou futebol de verdade na Copa foi a Alemanha.

Estão tão encantados com a Espanha que ninguém quer ver o óbvio. Retrato do tempo em que vivemos.

sábado, julho 03, 2010

Frase sobre o futebol

Uma das questões relativas ao futebol é porque os americanos reagem tanto a gostar do esporte mais popular do planeta.

A primeira resposta que vem na cabeça é, como sempre, a arrogância. Querem se mostrar diferente e melhores do que o restante do mundo.

Esta resposta nunca me convenceu porque o basquete também é um esporte popular no mundo e os americanos adoram. Assim como alguns outros esportes. Aliás, os caras praticam bem praticamente todos os esportes, o que se evidenciam nas olimpíadas. Por que então a reação ao futebol.

Escutei em uma rádio tupiniquim que algum colunista americano tinha dito a seguinte frase: "o futebol parece demais com a vida real para que gostemos dele".

Uma boa frase para se refletir, me deu um caminho para muitas especulações. Ainda não terminei, depois divido aqui minhas conclusões.

O "jornalismo" dos grandes portais

Eu não tenho idéia de quem vai perder as eleições este ano. Mas sei quem está fazendo o papel mais ridículo e patético: a imprensa brasileira. Particularmente os grandes portais da internet.

Só para ilustrar. Hoje, no portal da uol tinha a seguinte "notícia":



Achei estranho este "Dilma em alta", ainda mais que os dois estão empatados pela última pesquisa, e cliquei no lead. O título era, do blog do Josias:



Uma pequena diferença, não? Transformar "empate" em "Dilma em alta" é obviamente uma grande trapaça intelectual. Simplesmente patético. Estes caras ainda querem ser tratados por jornalistas sérios.

A própria folha online noticiou na semana passada que Dilma tinha ultrapassado Serra. Esta semana colocou, diante da pesquisa do Datafolha, que Dilma e Serra continuavam empatados. Como assim? Se Dilma tinha ultrapassado Serra, então a notícia tinha que ser algo como Serra empata com Dilma, ou Serra volta a empatar com Dilma. Do jeito que foi, tira-se totalmente o foco da recuperação de Serra, uma evidência de mau jornalismo e mau caratismo.

Não precisa nem dizer quem estes picaretas apoiam. Aliás, tanto a eleição de Lula quanto a possível eleição de Dilma mostra mais sobre seus eleitores do que sobre Lula e Dunga, digo, Dilma. São apenas sintomas de uma doença de espírito.

sexta-feira, julho 02, 2010

Algumas reflexões sobre a desclassificação do Brasil na Copa

  1. Por que sempre que levamos gols a culpa é da nossa defesa e sempre que fazemos o mérito é dos nossos atacantes. Ninguém viu que a Holanda errou na marcação do Robinho no gol do Brasil?
  2. Por que é sempre o Brasil que perde e não o adversário que erra?
  3. Dunga queria provar que futebol bonito não ganha Copa do Mundo. Parece que feio também pode perder. Assim como pode ganhar (como a medíocre Itália de 2006). Ah, e de vez em quando o bom futebol também ganha Copa. Só para ficar em uma recente, o Brasil de 2002 e a França de 1998.
  4. As seleções estão cada vez mais parecidas. Não consigo enxergar muita diferença no futebol europeu, africano, asiático, americano e até mesmo o da Oceania. Onde isso vai parar?
  5. Todo mundo fala que o Brasil perdeu a Copa de 82 porque jogava bonito. Não seria porque jogou contra um bom time, que naquela partida foi melhor? Gostamos de ressaltar que a Itália empatou os três jogos da primeira fase. Esquecemos de lembrar que para ser Campeã, a Itália ganhou da Argentina, Brasil e Alemanha, além da Polônia (que tinha um bom time). Quantos campeões do mundo ganharam o caneco passando por três ex-campeões? Só lembro do Brasil em 1970.
  6. O Brasil jogou nesta copa com dois adversári0s qualificados para disputar o título. Empatou com Portugal e perdeu da Holanda. Onde está a boa campanha?
  7. O que o Robinho fez no segundo tempo do jogo? E o meio-campo? O que o Daniel Alvez vez na Copa inteira?
  8. Concordo que o Brasil foi melhor no primeiro tempo. Mas daí a dizer que jogou bem vai uma distância. O chute do Kaká foi bonito, mas era um gol difícil de fazer. Assim como a conclusão de Maicon. Gol fácil mesmo o que o Juan perdeu. E só.
  9. O centro-avante da seleção não recebeu uma única bola para concluir no jogo inteiro. Dizer o que?
  10. Dunga disse que se espelhava em Maquiavel. Por isso não levou nenhum jogador para o banco que pudesse dar-lhe dor de cabeça com a torcida e a imprensa. Simplesmente não tinha ninguém que se pudesse pedir para entrar durante a partida. Com a contusão do Elano, ficou sem substituto. Claramente havia dois times, um titular, de sua confiança. E um reserva, para não encher o saco.
  11. Ainda sobre Maquiavel, suas idéias sempre pareceram brilhantes na teoria. Na prática, o Príncipe de Maquiavel (Cesar Bórgia) teve final triste. Não deixou saudades. Como a seleção de Dunga.
  12. Se o objetivo de Dunga era provar que a seleção tinha que saber perder com luta, conseguiu. Só não sei a vantagem de tudo isso.
  13. Quando algum comentarista de televisão vai reparar que o Lúcio ficou sem marcar ninguém no segundo gol. Era o zagueiro central. Só porque não estava ajeitando a meia? É mais culpado no gol do que o RC foi em 2006. Um Zagueiro central não pode ficar sem marcar ninguém em um escanteio.
  14. O André Rezek foi simplesmente ridículo tentando colocar a culpa do segundo gol da Holanda no Gilberto por não ter conseguido acompanhar o Robben no lance que resultou no escanteio. Ignorou completamente a participação de Juan no lance e tirou toda a responsabilidade da defesa porque quando a bola raspa no jogador holandês, teria tirado a defesa do lance. Só que antes da bola chegar neste jogador, já não havia ninguém marcando ninguém. Além de ter engolido a "fraca" seleção da Holanda.
  15. Aliás, o que escutei de bobagem dos comentaristas de tv foi uma festa. A seleção se transformou de vinho em água em 45 minutos. Patético.

Pauline na Praia (1983)


"Quem fala muito prejudica a si mesmo".

Como comentei aqui antes, só fui ouvi falar de Eric Rhomer no dia que ele morreu, através do blog da revista Dicta e Contradicta. Aliás, esta revista me abriu portas que nem imaginava existir, revelando-se um interessante índice para uma iniciação cultural.

Com Rhomer aprendi a vencer o preconceito contra o cinema europeu, francês em particular. Pauline faz parte de uma série de 6 filmes que fez explorando provérbios populares. Mais do que isso, o filme faz um retrato do comportamento sexual e moral no início dos anos 80. O cineasta é retratado como um moralista e conservador, mas não faz nenhum juízo de valor em seu filme. Limita-se a retratar o que estava acontecendo e deixa para o espectador a tarefa de julgar por si mesmo.

Uma obra literária ou cinematográfica torna-se especial quando consegue captar o mundo a sua volta e transformá-lo em ficção, mas uma ficção profundamente conectada à realidade. É o que acontece com mais este belo filme de Rhomer. Através dos encontros e desencontros entre um executivo conquistador, uma mulher desiludida que deseja um relacionamento intenso, um windsurfista romântico e apaixonado (uma curiosa inversão da imagem do windsurfista e do executivo) e a jovem Pauline, que deseja um relacionamento romântico com alguém de sua idade para aprenderem juntos as coisas do amor, Rhomer faz um painel do que estava _ e está _ acontecendo na sociedade moderna.

O diálogo inicial entre estes quatro personagens em um jantar na casa do executivo é a chave para entender o que cada um deseja da vida e suas idéias de moralidade. São precisamente estas reflexões que o cineasta nos convida para realizar. Seus personagens podem ser estereotipados, mas as situações são muitas vezes dolorosamente reais. Nada do que mostrou me era estranho, algumas situações experimentei por mim mesmo, outras vi acontecer. Rhomer não nos dá respostas, não apresenta soluções. O filme simplesmente termina e ficamos com nossas perguntas e sem soluções evidentes ou fáceis, apenas o sensação que há alguma coisa profundamente errada no quadro que terminamos de ver.

A resposta só pode ser encontrada em cada um.