domingo, julho 25, 2010

Crise Mundial, problema financeiro?

A crise que estourou em 2008 e se espalhou pelo mundo, principalmente nos países mais ricos, foi tratada inicialmente como uma crise financeira causada pela irresponsabilidade de investidores gananciosos. Além de socorrer o sistema bancário para evitar uma crise de liquidez que colocasse em risco a economia como um todo, o remédio era disciplinar os irresponsáveis para que ela não mais voltasse a ocorrer.

Passados dois anos, começa a surgir explicações que divergem das primeiras análises. Seria o mercado financeiro o grande vilão? Estaria a economia real, aquela das empresas e consumidores, sujeita aos desmandos de banqueiros e investidores inescrupulosos ou o contrário? Seria o sistema financeiro a vítima de uma disfunção da própria economia?

Luc Ferry é um filósofo francês, autor de algumas obras que buscam popularizar a filosofia como "Aprendendo a Viver" e foi ministro da educação da França entre 2002 e 2004. Na condição de presidente do Conselho de Análise da Sociedade, instituído pelo governo de seu país para analisar e propor escolhas diante dos desafios atuais, coordenou um estudo sobre a crise mundial e as sugestões para enfrentá-la. O resultado deste estudo encontra-se em "Diante da Crise, Materiais para uma Política de Civilização", publicado em maio de 2009.

Para Ferry, a crise é sobretudo econômica e o sistema financeiro teve um papel secundário na crise. As raízes da crise está no consumismo desenfreado, ampliado enormemente pela globalização, que tornou a sociedade dependente do aumento interminável do padrão de consumo, acima da capacidade de compra dos indivíduos e empresas. O resultado é o endividamento geral, com o crédito substituindo o salário como fonte de recursos e gerando artificialmente um sistema que não pode se manter infinitamente. O que aconteceu em 2008 foi que a capacidade de endividamento chegou no limite.

O livro é estruturado em duas partes. Na primeira, Ferry analisa a globalização e seus efeitos históricos, que contribuíram em grande parte para o estabelecimento da sociedade voltada para o consumo. Na segunda, apresenta 5 eixos de propostas para o governo francês enfrentar a crise.

A globalização é uma realidade que junto com benefícios traz também efeitos nefastos. A sua primeira fase, ocorrida a partir do século XVIII, ficou conhecida como revolução científica e social, que rompeu com o mundo antigo estabelecendo um novo paradigma de busca do progresso pelo domínio da natureza. A segunda, que surgiu a partir da segunda metade do século XX "com o nascimento dos mercados financeiros, ligados à comunicação instantânea na Internet, representa, ao mesmo tempo, um produto da primeira e uma ruptura total com ela" terá como grande característica o surgimento de uma estrutura, o capitalismo, onde tudo será submetido a uma economia de competição que mudará radicalmente a forma de viver no mundo.

O capitalismo assumirá uma forma de revolução permanente, trocando de lugar com o socialismo. A desconstrução das tradições herdadas de nossos avós, fruto de uma luta da esquerda contra o capitalismo, terá como maior beneficiário o próprio capitalismo que terá as condições de impor uma sociedade de consumo, só possível pelo estabelecimento de novos valores de constante revolução. O burguês conservador, deplora a perda destas tradições por parte de seus filhos e da juventude, mas ao mesmo tempo necessitará dela para sobreviver economicamente. A mudança passa a ser a palavra-chave nas empresas, o que é incompatível com um ideal verdadeiramente conservador. Por fim, ocorre o que chamou de sacralização do humano. Deus, pátria e o próprio ideal de revolução, as razões que o homem tinha para morrer e matar, se perde e a família, filhos e parentes, passa a ser o motivo capaz de fazê-lo lutar. Nos próximos anos as relações entre política e vida privada sofrerão uma revolução.

Diante deste quadro, Ferry propõe 5 eixos de propostas para a França se posicionar no novo cenário. São elas:

- Um eixo duplo, totalmente prioritário: o auxílio às famílias, o auxílio às empresas;
- um eixo de "equidade": em que condições todos os nossos concidadãos podem sentir-se "no mesmo barco"?
- Um eixo de "educação": repensar do começo ao fim a educação cívica, o caminho profissional, os programas econômicos e o lugar das grandes obras em nossos ensinamentos filosóficos e literários;
- Um eixo de "redução de déficits": a questão da solidariedade entre as gerações e
- Um eixo "Europa" que finalmente a apresenta com o bom nível para retomar as rédeas sobre um curso do mundo que a globalização está sempre tirando de nós.

Ferry conclui lembrando que diante da crise, que é econômica, financeira, social e política, as margens de manobra orçamentárias dos governos são limitadas e que apenas um projeto de civilização sincero, equitativo e coerente pode permitir fazer frente ao risco de considerar o mundo como injusto e desprovido de sentido. O horizonte de consumo infinito e ilimitado não é sustentável, é preciso encontrar um novo modelo de desenvolvimento e até mesmo um novo projeto de sociedade. A crise é mais do que uma catástrofe em si, é uma oportunidade de abrir os olhos e reverter o caminho que está sendo seguido e cujas consequências ainda poderão ser bem piores no futuro do que se viu até aqui.

O curto livro de Ferry, tem 115 páginas, tem o inegável mérito de refletir sobre a crise em um ambiente bem mais amplo do que pela via da economia. Chama atenção para a relação entre a destruição dos valores tradicionais e o estabelecimento de uma cultura de consumo, invertendo papéis entre burgueses e boêmios, entre artistas e banqueiros. Paradoxalmente, os artistas se tornaram os maiores amigos dos grandes capitalistas. A família é colocado por ele em papel central, inclusive com propostas concretas para um crescimento populacional europeu.

No entanto, Ferry apresenta uma crença absoluta no papel da ciência como fonte única do progresso humano. Parece considerar que a superação do sentimento religioso é uma condição para esse progresso. A educação é visto como ele como fonte da formação cívica e não como a capacitação para a reflexão humana através da busca de conhecimentos básicos.

O capitalismo é visto por ele como um sistema, dentro de uma visão até certo ponto marxista, embora rejeito o socialismo como solução econômica para a humanidade. Por rejeitar a relação da filosofia com a religião, não pode conceber que os problemas da liberdade econômica são provenientes da própria fraqueza humana e deixa de perceber o que para Bento XVI, por exemplo, é bem claro. A cupidez humana é a responsável pelo consumismo e não o sistema econômico em si e que a reforma moral é o fundamento para que a sociedade ser organize de modo mais harmônico, justamente o que prega as grandes religiões.

Apesar disso, o curto livro de Ferry tem méritos inegáveis, principalmente por fugir da esquematização exclusivamente financeira sobre uma crise que poder ter razões que vão muito além da economia e consegue enxergar em um quado mais amplo a primeira crise do novo século.

Um comentário:

Anônimo disse...

necessario verificar:)