sábado, julho 24, 2010

Três Alqueires e Uma Vaca - Gustavo Corção

Ao longo de sua carreira, Chesterton escreveu sobre Tomás de Aquino, Agostinho, Dickens e outros. Não se trata propriamente de biografias, onde um autor destaca os principais acontecimentos de uma personalidade, muitas vezes procurando ligá-los com suas obras. O interesse de Chesterton era exclusivamente sobre as idéias destes grandes pensadores. É exatamente isso que Gustavo Corção se propôs ao fazer com o grande escritor inglês.

A dificuldade de resumir as idéias de um autor de mais de 80 livros, todos fecundos em reflexões e análises, foi o maior obstáculo à pretensão de Corção. Resolveu agrupar as principais idéias de Chesterton em torno de 3 eixos principais ou 3 grandes idéias e tendo como fio condutor o que considerava a grande característica do pensamento do inglês, o humanismo verdadeiro.

Não um humanismo em que o homem era retirado de sua situação real e pensado abstratamente. O homem de Chesterton não é o operário, o camponês, o bispo ou o aristocrata. Ou melhor, é todos e nenhum ao mesmo tempo; é o homem comum, aquele que vemos todos os dias, aqueles que nós somos. Um homem comum que pode ser um operário, camponês, bispo, aristocrata ou até mesmo um rei. Chesterton pouco se interessava sobre o que tornava um homem específico, o que o separava dos demais. Seu interesse era para o que tinha em comum a todos os homens, o que consistia a essência de sua humanidade.

Nascer, crescer, brincar, comer, morrer, amar, beber, pecar, se arrepender. São coisas comuns aos homens de todas as épocas e todos os lugares e a verdadeira essência de uma filosofia saudável, à reflexão que engrandece e que nos faz descobrir coisas sobre nós mesmos. Chesterton dedicou sua vida a esta reflexão e Corção aponta três eixos de pensamento em sua obra, que evitaria o homem de cair em uma das três grandes situações que o tornaria desumano, que o faria perder sua humanidade: a loucura, a barbárie e a escravidão.

Para não ser doido

O primeiro confronto de Chesterton, para lançar um desafio a uma opinião geralmente admitida, é entre o poeta e o louco.


É um lugar comum que um louco é um homem que perdeu a razão. Chesterton inverte esta crença e afirma: o louco é um homem que perdeu tudo, exceto a razão. Matemáticos ficam loucos, físicos também, enxadristas, filósofos. O poeta não. O poeta é capaz de sentir o mistério nas coisas, grandes ou pequenas, e se deixar maravilhar por elas. Dedicam suas vidas a tentar expressar esta maravilhamento, em tentar encontrar palavras para descrever o que muitas vezes é impossível descrever. O homem que cerca-se da razão por todos os lados é incapaz de ver o mistério das coisas mais simples e separam-se da humanidade. O poeta tenta entrar de cabeça no mundo enquanto que o racional tenta colocar o mundo na cabeça. Acaba louco.

O louco de Chesterton não tão somente o que está no hospício e que reconhecemos facilmente nesta condição. O louco de Chesterton são os materialistas, os deterministas, os comunistas, em resumo, os idealistas. Os que imaginam ter uma explicação racional para o mundo e o homem, que criam um modelo em que o mundo se encaixa perfeitamente. O louco é Marx, Nietzsche, Wells, Rousseau e tantos outros que acharam ter a explicação racional para o universo. Alguns deles acabaram realmente reconhecidos como loucos, outros morreram sem evidenciar sua real condição.

Aqui entra o papel especial da criança. Ela é completamente capaz de ver o mistério em tudo que vê, ela sente o maravilhamento em uma porta sendo aberta, um sorriso da mãe, uma chuva que cai. A sua pureza deveria ser o lembrete para a humanidade nunca esquecer que existem coisas que fogem à nossa capacidade de raciocinar. Ao crescer, o homem perde muito desta capacidade e esta é sua perdição. O segredo da vida saudável é manter o máximo possível esta idéia de mistério e deslumbramento como o mundo.

Para não ser bárbaro

O bárbaro-positivo não é apenas o inimigo da civilização, mas o que procura uma nova civilização, uma civilização de segunda ordem. A nova ordem.


Se a primeira idéia-mestra era sobre a saúde mental do homem, a segunda é sobre sua saúde social. Para Chesterton uma das características que separava o homem não só dos animais como das bestas e répteis, humanos ou não, era a capacidade especial de fazer promessas. O homem civilizado era aquele capaz de prometer e cumprir o que prometeu, era aquele capaz de fazer juramentos e cumprir o que jurou. A antítese deste homem, o bárbaro, podia ser visto na Alemanha nazista que fazia tratados e acordos para depois descumpri-los. O resultado foi a devastação que se seguiu. O totalitarismo, seja o fascismo, nazismo ou comunismo era o resultado da perda da capacidade do homem de fazer promessas. A democracia se perde quando uma sociedade deixa de jurar.

Aqui Chesterton apresentava uma de suas idéias mais polêmicas, o relacionamento do divórcio com o fim da democracia. O homem e a mulher ao se divorciarem rasgam uma promessa solene que fizeram, uma promessa de eternidade, um juramento sagrado. Tanto mais grave era este fato quando os motivos eram os mais fúteis. Certamente que um casamento não é uma fonte inesgotável de prazeres ao longo de toda sua duração, muitas vezes é difícil de manter, como são as coisas da vida. No entanto, não se pode esquecer que foi fruto do juramento mais expontâneo e particular que alguém pode fazer em sua vida. Os homens não conseguem perdoar a traição à pátria, fruto de um acidente de nascimento, mas não vêem nada demais em trair o casamento, uma pátria que foi escolhida livremente.

Outra idéia relacionado à civilização era o respeito à tradição. Para Chesterton a democracia era o respeito ao legado, ao que recebemos de nossos antepassados. A tradição é a democracia dos mortos, é dar ouvidos às pessoas que viveram antes de nós e que não podem mais se expressar diretamente. Isso não significa que nada deva ser mudado, ao contrário, é preciso mudar sempre para que a essência da tradição se mantenha e que ela não se perca com o passar dos tempos. Um poste só permanece branco se for constantemente pintado de branco. Conservar não é uma atitude passiva, é um constante agir para manter o que foi conquistado com muito custo.

Para não ser escravo.

Foi pois ortogado ao homem, no dia da sua criação, um direito de posse e domínio sobre todas as coisas.


Chesterton repudiava tanto o comunismo quanto o capitalismo. Para ele, ambas eram doenças pois deixavam de respeitar o princípios fundamental da economia.Das três idéias-mestras, é a que parece menos religiosa mas é aqui que o leitor comete um erro típico dos paradoxos mostrados por Chesterton. Para ele, a idéia da posse era a que mais se relacionava à Deus e o milagre da criação.

O comunismo é herege porque não respeita o direito de propriedade e o capitalismo é herege porque defende o direito de propriedade, só que para apenas alguns. O fundamento do cristianismo sempre foi uma idéia de posse e de recompensa. Chesterton defendia que todos os homens, sem excessão, tinham direito a uma propriedade e um meio de subsistência. E que deveria usar o lucro de seu trabalho não apenas para si mesmo, mas para o uso de sua comunidade. Se a posse era particular, o uso deveria ser distribuído e assim choca-se tanto com o comunismo quanto com o capitalismo. O primeiro negava o direito ao lucro, o segundo afirmava que o homem tinha direito ao uso exclusivamente privado de sua propriedade.

A idéia de Chesterton gira em torno disso; e eu queria ser um gênio para convencer ao leitor, depois dele, que a idéia mais poética e mais maravilhosa do mundo está ligada à posse de três alqueires e uma vaca. Ou então, o que é muito mais fácil, eu queria que o leitor fosse um homem extremamente simples, para descobrir isso sozinho.


Mais uma vez Gustavo Corção nos presenteia com um texto de prosa fácil e escrito com paixão. Um diálogo de um autor vivendo as angustias do século XX, o livro é de 1961, que tenta dialogar com um escritor que viveu um século antes e que teve como referência. Corção viu que o homem se tornou louco, bárbaro e escravo, talvez o melhor argumento para comprovar a grandeza de G. K. Chesterton.

2 comentários:

marioblu@terra.com.br disse...

Nos anos 1950 estudei em um colégio da ordem franciscana (SC) e lembro-me do professor de matemática (origem alemã) Walter Dachs que comentava a obra de Gustavo Corção e nos incentivava a ler o livro (Tres alqueires e uma vaca). Nós jovens adolescentes não compreendiamos o conteúdo. Hoje (60 anos após) lembrei-me dos conselhos do velho professor.

Nivaldo Michetti disse...

saiba portanto,que sou esse "homem extremamente simples".