sexta-feira, julho 23, 2010

Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá - Lima Barreto

Lima Barreto não retratou apenas o Brasil do início do século XX; foi muito além. Retratou o Brasil do início do século XXI e acabou dando uma demonstração cabal de como é difícil mudar uma cultura, por mais que os engenheiros sociais tentem.

Em "Recordações do escrivão Isaías Caminha" ele mostra a corrupção moral da redação de um jornal e evidencia a ignorância dos jornalistas, coisa evidente em praticamente qualquer jornal brasileiro hoje; em "O Triste Fim de Policarpo Quaresma" seu alvo é o ufanismo tolo, baseado em uma falsa noção de patriotismo, que cega completamente o homem para a realidade das coisas; e, em "Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá, ele mostra não só o misto de perplexidade e desprezo pela sabedoria do próximo como a mediocridade da classe social brasileira por excelência, o funcionarismo público.

Gonzaga de Sá é um perfeito burocrata, exceto por um detalhe. Possui uma curiosidade inquietante pela realidade das coisas e, ao seu modo, é um verdadeiro filósofo na concepção clássica, pois sua busca pela sabedoria está centrada da existência real. É a partir dos dramas e acontecimentos do dia-a-dia que busca a reflexão e o conhecimento. Não possui desejo de reconhecimento ou busca títulos pomposos, não quer ser doutor, apenas que ver o mundo e pensar sobre ele. Lima Barreto mais uma vez evidencia sua crítica pelo excessivo apreço do brasileiro pela titulação, uma constante nas três obras citadas; para ele não é na Academia que se obtém o verdadeiro conhecimento, pelo contrário, enfurnado nas Universidades o pseudo-intelectual gasta seu tempo produzindo abstrações inúteis e alienando-se do mundo.

Não é por acaso que Gonzaga de Sá gosta de passar seu tempo percorrendo as ruas do Rio de Janeiro. Atento à arquitetura, aos acontecimentos, aos tipos humanos que atravessam nosso dia-a-dia, muitas vezes sem serem notados de fato. Buscava na cidade sua própria memória, tentar tomar posse de um tempo que passou e que deixou suas marcas. Boa parte das respostas que procuramos já tínhamos em nossa infância, em nossa mocidade; em algum lugar ela se perdeu ao sermos absorvidos e mediocrizados pela sociedade tecnicista que surgia. A repartição pública era talvez o maior exemplo do mal que é feito do espírito humano dentro de uma existência burocrática.

O livro é narrado por Machado, que por acaso conhece um já velho Gonzaga de Sá no desconhecido Ministério dos Cultos. Espanta-se por encontrar uma mente tão vívida e inquieta em uma repartição pública e torna-se seu amigo e admirador. O pouco tempo que convivem é o suficiente para escrever uma bibliografia sobre uma pessoa tão rica e ao mesmo tempo tão anônima na insípida máquina estatal.

Ao longo das breves páginas nada acontece de notável. Gonzaga e Machado passeiam pela cidade e analisam acontecimentos banais como o passeio das damas da sociedade, os passageiros de um trem de subúrbio, um funeral, uma parada cívica. Gonzaga sempre tem um olhar agudo para as contradições das novas tendências que chocavam-se com as tradições em uma grande cidade de sua época. Fala sobre aristocracia, democracia, feminismo, racismo, patriotismo e até sobre as linhas topográficas do Rio de Janeiro. Tudo sob a perspectiva humana, colocando o homem como o centro da experiência existencial. Através dos diversos diálogos de Machado e Gonzaga vamos tomando consciência da vida de ambos e recebemos um convite para mergulharmos no mundo real e buscar nele o ponto de partida para a reflexão sincera que pode nos levar a conhecer um pouco mais de nós mesmos e o mundo.

O clímax do livro é o desabafo que Gonzaga faz diante da mediocridade de sua repartição. Só então o leitor compreende que o velho torturou seu próprio espírito para conviver com a ignorância e a mesquinharia, o arrependimento de quem deixou de formar uma família para dedicar-se ao estudo e à observação para só então compreender que não basta ver o mundo, é preciso vivê-lo, experimentá-lo.

"O que tenho de fato, é aborrecimento, é tédio; sofro em me sentir só; sofro em me ver que organizei um pensamento que não se afina com nenhum... Os meus colegas me aborrecem... Os velhos estão ossificados; os moços, abacharelados... pensei que os livros me bastassem, que eu me satisfizesse a mim próprio... Engano! As noções que acumulei, não as soube empregar nem para a minha glória, nem para a minha fortuna... Não saíram de mim mesmo... Sou estéril e morro estéril... "

O desalento de Gonzaga é por se aproximar do fim da vida e perceber que nada realizou, que passou quarenta e um anos em uma repartição girando em torno de si mesmo e vivendo horas cercado de imbecis.

Lima Barreto não foi um pintor de paisagens sociais, foi um observador atento da alma humana. Por isso, talvez sua obra seja tão atual e nunca perca a força. São problemas existenciais que não se limitam ao Brasil, que se reproduzem diariamente em qualquer parte do mundo pois são problemas humanos. A morte está aí para cada um de nós e a pergunta que Gonzaga se deparou e que o autor coloca para nós é o que fizemos efetivamente com nossa vida. Temos a coragem suficiente para parar, olhar para nós mesmos e nossa relação com o mundo e tentar respondê-la?

Um comentário:

Vinicius disse...

olá, camarada. estou lendo este livro. o Lima era um cara bem revoltado, não? acho que a consciência que o Lima tinha à sua época hoje em dia se espalhou. talvez por isso vejamos espécimes humanos cada vez mais hostis.
sobre o Policarpo Quaresma, eu nunca pude entender: trata-se de uma chacota do ufanismo ou do problema em ser patriota em um país tão Brasil quanto o Brasil?
abs