quarta-feira, agosto 25, 2010

Capitalismo e Liberdade

Capitalism & Freedom, 1962
Milton Friedman

Este é um dos economistas que não se estuda em uma faculdade brasileira. Não que não tenha importância. O homem foi prêmio Nobel e a principal influência da política econômica dos governos Reagan e Tatcher. No mínimo um pensador de enorme influência. Seu pecado? Defendeu com unhas e dentes, por toda sua vida, o capitalismo e sua relação com a liberdade.

Neste livro, ele mostra como o capitalismo é um pressuposto para um regime de liberdade política, muito embora não seja suficiente. É possível ter um regime totalitário e capitalista, como foi o nazista, mas jamais haverá um regime democrático sem liberdade econômica. Daí se intui que Friedman não acreditava na associação de democracia com socialismo.

A essência do livre comércio é a produção de riquezas, o que termina por beneficiar toda a sociedade, tanto quem produz quanto quem consome. O motivo é simples: a liberdade econômica está na troca voluntária de bens entre duas pessoas. Esta troca só ocorre se ambos estiverem interessados no resultado, ou seja, se ambos ganharem.

A deturpação do livre mercado leva à restrição de liberdades e o prejuízo de indivíduos e empresas, normalmente com ação direta dos governos constituídos. Paradoxalmente, o capitalismo é mal entendido justamente pelas pessoas que termina por beneficiar. Apenas uma alta dose de mistificação e a total incompreensão de regras econômicas simples podem justificar a constante intervenção do estado na liberdade econômica. Uma intervenção que no entender de Friedman só pode levar à restrição das liberdades individuais.

O autor trata basicamente de 4 pontos ao longo de 11 capítulos:

  1. a relação da liberdade econômica e liberdade política: como o princípio básico do capitalismo nada mais é do que um principio de liberdade individual: o direito das pessoas trocarem o que produzirem.
  2. o papel do governo na economia: o que justifica a intervenção governamental? Ela é eficaz para resolver os problemas que se propõe? Quais as causas destes problemas? E se a grande causa for justamente a intervenção do governo?
  3. o papel do governo na sociedade e a promoção da liberdade: como fica a questão da licença ocupacional? Como o governo pode atuar na educação e quais as justificativas para esta atuação? Quais os campos da vida em sociedade que o governo deve intervir?
  4. a distribuição de renda e a questão da pobreza: aqui Friedman argumenta fortemente contra o pensamento igualitário e mostra a verdadeira igualdade está no tratamento desigual dos desiguais. Longe de ignorar o problema da pobreza, lembra que muitas vezes esta questão é relativa pois ignora o grande ganho das camadas mais pobres ao longo das décadas em função do livre mercado e a redução efetiva da desigualdade entre ricos e pobres, principalmente em função da redução constante do preço dos bens produzidos. A maior contribuição que uma sociedade pode fazer para mitigar a questão da pobreza é ajudar efetivamente os mais pobres como pessoas e não como integrantes de determinados grupos.
Friedman conclui chamando atenção para o convencimento dos intelectuais do ocidente que o capitalismo teria uma série de falhas e deveria ser corrigido pelos governos. Entretanto, estas falhas só ficam evidentes quando se compara os problemas reais da sociedade com o que deveria ser, ou seja, o real com o ideal. Após anos de intervenção estatal, já é possível analisar os efeitos reais da intervenção do estado na economia.

Entretanto, há um problema sério. Enquanto que os benefícios da ação estatal são visíveis, diretos e imediatos, seus efeitos nocivos são invisíveis para a grande maioria, indiretos e demoram para se fazerem sentir. Os políticos possuem incentivos claros para rejeitar os efeitos negativos e decidir em função dos efeitos visíveis, aumentando a intervenção do estado.

O grande problema das medidas governamentais para corrigir o capitalismo é que obriga as pessoas a decidirem contra seus interesses pessoais a fim de promoverem o suposto interesse geral. Como Adam Smith observou, as pessoas ao perseguirem seus interesses particulares freqüentemente promovem os interesses gerais melhor do que se assim desejassem.

Esta é a grande lição do liberalismo.

Um fenômeno atual e cada vez mais evidente

Auto-engano, 1999
Eduardo Giannetti, Companhia de Bolso

Eduardo Giannetti trata de um dos mais importantes fenômenos sociais de todos os tempos: o auto-engano. Promove uma investigação ao longo da história de como as pessoas enganam a si mesmas quase o tempo todo e como isso afeta a sociedade em geral, recorrendo a exemplos extraídos da literatura e da vida real.

Sua investigação começa pela natureza e o valor do auto-engano, como se processa esse mecanismo? Qual a sua origem? Depois, trata da dualidade entre autoconhecimento e auto-engano, abordando desde a técnica maiêutica, celebrizada por Sócrates, e a necessidade de fugir do autoconhecimento e enganar a si próprio. No terceiro capítulo, trata da lógica do auto-engano. Como acontece? Por fim, a parcialidade moral e a convivência humana. Como se dá a questão da moral e da ética em um ambiente de auto-engano?

Gianetti é feliz ao tratar de um dos fenômenos mais importantes de nossos dias. Não por acaso, Sócrates advertiu: conheças a si mesmo. Cristo continuou: a verdade está em cada um de nós. Por que então existe esta compulsão por enganar nós próprios sobre nós mesmos? Trata-se de uma investigação interessante, procurando abordar as várias faces do problema.

Não sei até que ponto o autor tem razão em suas conclusões, mas não vejo como duvidar da existência e atualidade desse fenômeno, talvez ainda mais ampliado em tempos de internet e redes sociais. Diante do quadro atual, no Brasil e no mundo, passei a considerar cada vez mais as questões levantadas por Gianetti. Até onde o auto-engano estaria nos levando para caminhos perigosos e ameaçando a nossa própria convivência humana?

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Now playing: Novos Baianos - 1970 - E ferro na Boneca - A Casca De Banana Que Eu Pisei
via FoxyTunes

terça-feira, agosto 24, 2010

Dilma na frente e a cabeça do brasileiro

No capítulo de introdução de Hitler e os Alemães, Voegelin diz:

o problema experiencial alemão central de nosso tempo: a ascensão de Hitler ao poder. Como foi possível?


É mais ou menos o meu sentimento depois de 8 anos de governo Lula e uma tendência do povo brasileiro de eleger Dilma como presidente. Se isso acontecer, dirá mais sobre o povo brasileiro de nosso tempo do que do petismo. Como uma sociedade de maioria conservadora, sem ódios, consegue se anestesiar a ponto de aceitar um governo de natureza socialista e revolucionário?

Culpo o povo? De jeito nenhum! O brasileiro comum é a grande vítima da manipulação que sofre todos os dias da imprensa, da mídia em geral, das instituições públicas e até mesmo do grande empresariado. Ninguém é mais socialista do que o grande empresário brasileiro! Cada vez me convenço mais que a culpa primordial está na "alta" cultura brasileira. Desculpem as aspas, mas a ironia é irresistível. Não dá para chamar aquele bando de alta cultura. Não mesmo.

A maior evidência da corrupção de nossa elite veio justamente do livro que veio para absolvê-la! Na verdade, Alberto Almeida estava tão preocupado em agradar os progressistas que não percebeu a estupidez do próprio raciocínio. Acabou acampando a tese de que o problema do Brasil seria o povo que professaria valores piores do que a elite. A solução? Simplesmente educar a população.

O que o idiota, e uso o termo com todo rigor, foi incapaz de compreender é que em qualquer lugar do mundo os valores serão melhores à medida que o grau de escolaridade é maior. O grande problema é a qualidade desta elite.

Só para exemplificar, no livro "Cabeça de Brasileiro", ele mostra que 72% dos brasileiros com curso superior consideram corrupção um funcionário público receber um presente de Natal de uma empresa que ele ajudou a ganhar um contrato do governo. Sapientíssimo ele compara com os 20% de analfabetos que consideram a prática ser de corrupção e grita, estão vendo? O analfabeto tem valores piores do que o topo da pirâmide educacional.

Almeida deixa de ver o mais gritante. Que 80% de analfabetos, que constituem os grandes bolsões de pobreza, principalmente no nordeste, não consiga ver a corrupção do ato, não acho nada demais. O que me espanta são os 28% de brasileiros com nível superior que não consigam enxergar algo tão gritante!

Pois são estes que começam o processo de disseminação de valores pela sociedade. São os professores, jornalistas, comerciantes, membros do estado. Se 100% considerassem a prática de corrupção já haveria aqueles que não veriam deste modo, mas partindo de 72%, fica tudo muito mais difícil.

O resultado só poderia ser esta coisa liderando as pesquisas e assumindo o favoristismo para ser eleita presidente da república. Um sinal evidente da pobreza de nossos tempos.

segunda-feira, agosto 23, 2010

Até quando ter esperanças?

Conto de Inverno
Conte D'hiver, 1992
Eric Rohmer

Até que ponto se pode viver na recordação de um grande amor que por ação do destino ficou para trás? Move on, dizem os americanos. Deixe o passado para trás e viva a vida. No Brasil usamos o "que passou, passou" e outras pérolas da sabedoria popular. O importante é voltar nossas ações para o futuro e não se deixar prender por acontecimentos do passado. Ou não? Será possível viver um amor que apesar de ter sido interrompido ainda se encontra assustadoramente presente?

É o ponto de partida para "Conto de Inverno", de Eric Rohmer, parte de um conjunto que denominou Contos das Quatro Estações. Félicie viveu um grande amor de verão em alguma ilha do litoral francês. Por um lapso seu, passou o endereço errado para Charles, um imigrante ilegal que partia em viagem para a América. Pior que isso, errou o nome da cidade, tornando encontrá-la um verdadeiro milagre.

Cinco anos depois, encontramos Félicie dividida entre Luic e Maxence. E com uma filha de Charles, Elise. No entanto, a lembrança de seu primeiro amor ainda não se dissipou e ela convive com dúvida da escolha entre passado e futuro. É assim que ela deixa Luic, um intelectual, por Maxence, seu chefe em um salão de beleza. Todos estes acontecimentos vamos descobrindo como descobriríamos na vida real, através de conversas. É através de diálogos que vamos descobrindo tudo que aconteceu na vida de Félicie e suas reflexões sobre estes acontecimentos. É quase uma reprodução do método socrático, onde ela vai conhecendo a si mesma através de perguntas que faz para si mesma e pela interação com as pessoas a sua volta.

No entanto, são em dois momentos íntimos que consegue extrair de si mesma as respostas que precisa. No primeiro, após mudar-se para Neveurs com Maxence, entra por acaso em uma catedral, acompanhando a filha. Enquanto a menina contempla um presépio, ela senta-se e reza. Na verdade, mais do que rezar, ela conversa consigo mesmo, como contaria depois para Luic. Dizia um pensador francês que quem conversa consigo mesmo acaba conversando com Deus. Ele ressaltava o papel da autoconfissão como caminho para o verdadeiro conhecimento. Ela decide deixar Maxence e retornar para Paris, buscando reorganizar sua vida.

O segundo momento de iluminação, ocorre ao assistir uma peça de Shakespeare, Conto de Inverno. Na peça, o rei Leonte vê a esposa ressuscitar pelo poder da fé e da esperança. Apesar de estar ao lado de Luic, é um novo momento íntimo, pois ambos assistiram peças diferentes. Ele vê, pelos olhos frios de um intelectual, uma redição do mito da ressurreição, quase como se fosse um folclore. Ela vê, através do sentimento, o poder da fé em nossas vidas. Luic é católico praticante, enquanto que Félicie está brigada com Deus, como ela mesmo diz. No entanto, percebe-se a fé autêntica nela e não em Luic, que chega a duvidar dos milagres, uma das bases do cristianismo. Rohmer sugere que a verdadeira religiosidade não está na exteriorização da fé, mas na incorporação dela em nossas vidas.

Resolve por fim viver sozinha. Em uma conversa com Luic ela confessa que tem remota esperança de um dia encontrar Charles novamente, e mesmo assim poderia estar casado ou não a amar mais, mas viver com esta esperança era melhor do que qualquer outra vida pois o prêmio seria inimaginável. Luic lembra que trata-se da aposta de Pascal no que se refere à imortalidade. Era melhor viver acreditando na imortalidade da alma pois o prêmio seria infinito e mesmo se fosse ilusão, seria melhor viver uma vida sob esta perspectiva. Algum momento depois, ela comenta que ele só era capaz de acreditar no que lia nos livros, uma nova crítica ao exagero que pode levar uma vida intelectual, afastando a pessoa da realidade.

E foi assim que Félicie deixou Luic por Maxence, depois Maxence por Luic e finalmente Luic por Charles, mesmo que seja apenas pela presença de sua memória. A crença no milagre de reencontrar Charles depois de tanto tempo é suficiente para dar a ela uma direção em sua vida. Só que Rohmer conta sua estória justamente na época de Natal...

Nunca conheci um cineasta que conseguisse retratar a beleza da mulher com tanta destreza. Certamente escolhe atrizes bonitas para seus filmes, como muitos outros fazem. Sua diferença é a personalidade que consegue dotar estas personagens, deixando-nos apaixonados por cada uma de suas heroínas. Consegue aliar a beleza física, algumas vezes não tão evidentes, com gestos, olhares e espírito que as transformam e mulheres ricas em tanta beleza. Coisa de gênio.

Mais uma vez Rohmer centra seu filme nas pessoas e na realidade. Alguns críticos afirmam que seus filmes são lentos demais para o cinema. Pode ser. Mas são no ritmo da vida real. Assim, dá tempo ao expectador de refletir junto com seus personagens, de pensar em nossas próprias vidas. Ouvi falar em Eric Rohmer no dia de sua morte, no fim do ano passado. De lá para cá, vi cerca de 6 filmes dele. Não houve um único que não admirasse, que não me fizesse refletir depois. Seus personagens são extraordinariamente reais, assim como suas estórias. Nos deparamos com algumas delas o tempo todo, mas com ele aprendemos a refletir sobre estas experiências. Na verdade, Rohmer foi uma espécie de cineasta filósofo, que conseguiu entender o amor como pouquíssimos cineastas badalados foram capazes de fazer.

Fico especialmente feliz por saber que ainda tenho tanto filme dele para assistir. Um verdadeiro privilégio.

domingo, agosto 15, 2010

A Economia em nosso dia a dia

O Naturalista da Economia
Em busca da Explicação para os enigmas do dia a dia
Robert H. Frank, 2007

Robert Frank é professor de economia e nunca se conformou com a constatação que os alunos da disciplina de Introdução à Economia guardassem tão pouco dos conceitos apresentados e muitas vezes saíam com conhecimentos ainda mais pobres. Para ele, a explicação estava no fato dos professores, em geral, não mostrarem claramente aos alunos a aplicação dos conceitos econômicas no dia-a-dia e a disciplina fosse vista como um conjunto de fórmulas, gráficos e conceitos abstratos.

Frank passou a propor que seus alunos utilizassem os conceitos aprendidos no curso para formular uma pergunta sobre padrão de comportamento que observassem no dia a dia e a respondessem. Uma parte do resultado foi selecionado pelo autor e compôs o livro "O Naturalista da Economia" e tem como propósito claro mostrar como a economia permeia nossa vida e explica muito do que acontece a nossa volta.

Assim, perguntas como "por que os ovos vermelhos são mais caros?", "por que o vinho é tão caro nos restaurantes?", "por que damos gorjeta para alguns serviços e não para outros?, são apresentadas e respondidas utilizando conceitos simples de economia como custo de oportunidade, custo-benefício, oferta e demanda, custo agregado e etc. O autor procura desmistificar um pouco a economia e mostrar que não é um assunto apenas para estudiosos e que seus conceitos básicos estão na verdade a alcance de cada um, basta disposição para observação e reflexão.

O único problema é o leitor achar que a economia explica tudo. Existem coisas, como a ação muitas vezes irracional do homem, que não se explicam por conceitos que partem do princípio que nossas ações estão voltadas para o maior benefício possível. Nem sempre isto é verdade. Reconhecendo estes limites, entretanto, a economia é uma excelente ferramenta para compreender muitos dos comportamentos das pessoas nas mais diversas situações.

Mais um livro no esforço atual de muitos economistas em popularizar e mostrar que a economia está no dia a dia e ao alcance de todos.

segunda-feira, agosto 09, 2010

Manhattan


Algumas vezes em minha vida assisti filmes do Woody Allen. O primeiro, lá pelos meus 14, 15 anos, foi "Tudo que você sempre quis saber sobre sexo...". Um título interminável que nem vale a pena citá-lo todo. Achei engraçado, até porque a idade era propício para isso. Vi "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa" _ um dos grande exemplos de títulos imbecis para filmes estrangeiros _ ainda naquela época e desisti do cara. Era muito chato.

Alguns anos depois, assisti "Poderosa Afrodite" por causa do Oscar da Mira Sorvino, quando ainda ligava para esse tipo de coisa. Achei sem pé nem cabeça. Por fim, acho que ano passado, vi "Annie Hall" novamente e finalmente comecei a entender o cara. Na verdade, comecei a perceber que um bom filme começa com bons personagem, principalmente se forem reais. Exatamente o que tinha em Annie Hall.

Voltei à carga este ano e agora foi a vez de Manhattan, o filme em preto-e-branco que Allen filmou em 1979, ainda na esteira de Annie Hall. O personagem principal do filme é o do título. Nunca fui em Nova Iorque, talvez nunca vá, mas uma vez João Pereira Coutinho disse que ninguém nunca será capaz de enxergar a cidade como o cineasta. Nem a verdadeira Nova Iorque consegue rivalizar com a que Allen mostra em seus filmes.

Para mostrar Manhattan, uma série de personagens interessantes que retratam bem o período confuso que foi os anos 70. Ninguém estava satisfeito com ninguém, pelo menos até o momento que se separavam. A partir daí misturavam-se arrependimento e descoberta em uma confusa relação de sentimentos.

Isaac, personagem de Allen, é um narcisista, coisa que tem certa desconfiança. Não tem a mínima hesitação em concordar que é uma pessoa engraçada e culta. Não consegue entender porque a ex-esposa o trocou por outra mulher, tem uma namorada de 17 anos que dedica seu tempo a "educá-la" e desfilar seu entendimento da vida. Não é por acaso que se sente pessoalmente atingido quando conhece Mary que não só é uma intelectual, como tem opiniões diversas da sua. O fato dela ter discordado dele, principalmente em frente da jovem Tracy, o tira do sério.

Mary é amante de seu melhor amigo, que também não está muito satisfeito com a esposa. Quando este resolve se livrar da amante, acaba empurrando-a para Allen que por sua vez termina com Tracy. O interessante é que Isaac lembra Tracy sempre a lembrou para não se apaixonar por ele, da mesma forma que a ex-esposa dele também o avisara.

Começa o círculo dos arrependimentos. Invariavelmente os personagens se arrependem das escolhas que fizeram e procuram voltar aos relacionamentos que acabaram de deixar. No fundo, são pessoas perdidas em uma sociedade cada vez mais materialista e individualista. Tanto Yale quanto Isaac e Mary estão apenas preocupados com si mesmos e não conseguem se colocar no lugar das pessoas que supostamente amam.

Tracy, ainda uma adolescente, ao contrário, é extremamente madura para sua idade e sabe com clareza o que quer. Allen conseguiu ser habilidoso ao criar um romance entre um homem de 40 anos e uma menina de 17 sem chocar, justamente por mostrar a jovem como mais desenvolvida que o próprio Isaac.

O fim é muito criticado, mas pessoalmente acho que erraram o ponto. Era justamente o final mais coerente para um homem que apesar de muitas vezes cínico, narcisista e orgulhoso, tinha uma vontade sincera de ser uma boa pessoa, como atesta seu escrúpulo em não se envolver com a amante do seu melhor amigo, coisa que depois não foi retribuído.

No fundo, todo o sistema de defesa que Isaac tinha montado em relação a Tracy não era para protegê-la de um homem mais experiente e de sua própria inexperiência no amor. Era justamente o contrário, era para protegê-lo de apaixonar-se por alguém tão jovem.

Não sei se comecei a entender Woody Allen, mas acho que comecei a apreciar seus filmes. O que implica que tenho muita coisa pela frente para assistir. Ainda bem.

terça-feira, agosto 03, 2010

Avisem as FARCs...



Os zelosos jumentos, digo, juízes do TSE devem conceder direito de resposta por mais uma acusação de ligação com as FARCs, desta vez feita... pelas FARCs!!!

Vejam as bandeiras que se encontram no site das FARCs!

segunda-feira, agosto 02, 2010

PT e as FARCs, surrealismo puro!

Difícil ver um debate político no país. O TSE, vulgo Bedel de eleições, resolveu declarar que associar PT com as FARCs é "ofensa passível de direito de resposta". O pior é que até agora o PT não negou esta associação, nem no próprio pedido de direito de resposta!

Seria de supor que o direito de resposta seria justamente para o PT negar sua vinculação com as FARCs. Mas, não! O partido quer apenas impedir que se discuta o assunto. Quem é esse Índio da Costa para fazer uma insinuação destas? Aliás, vários políticos petistas fizeram brincadeiras com o nome do candidato a vice na chapa de Serra, cadê a turma do politicamente correto? Cada os bedéis das palavras alheias?

O advogado do PT chegou a sugerir que o problema não é associação com as FARCs, mas associação com o tráfego de drogas. Segundo o partido, existe gente honesta nas FARCs, como nas favelas no Brasil.

É um escárnio! É mais uma demonstração do absurdo da situação. Uma favela não é uma organização criminosa. Como qualquer bairro brasileiro, existem pessoas honestas e desonestas. Já uma organização que vive de comércio de drogas, seqüestros e atos terroristas é criminosa por natureza. Não há uma única pessoa honesta lá dentro. O lugar daquele bando é no banco dos réus, respondendo por inúmeros crimes.

O TSE não perde uma oportunidade de promover mais uma vergonha!

Relatório da CIA: Como será o mundo em 2020

Na verdade, não se trata de um relatório da CIA, mas de uma análise prospectiva do Conselho Nacional de Inteligência, responsável pela análise estratégica da comunidade de inteligência americana. De modo geral, o documento tenta visualizar como estará o mundo em 2020 para fornecer subsídios para as tomadas de decisão para políticas de longo prazo.

Nos tempos atuais é ainda mais complicado tentar imaginar o mundo do futuro, mesmo menos de duas décadas à frente. Basta retroceder um pouco no tempo e se colocar no lugar de uma pessoa em 1989 quando o muro de Berlim veio abaixo. Teria como imaginar o 11 de setembro? Um presidente americano mestiço com uma plataforma altamente socializante? Um Brasil economicamente estabilizado? Um Irã caminhando para se tornar uma nação nuclear?

Vivemos um tempo de alto grau de incertezas e prever o futuro nessas condições é altamente problemático. No entanto, pior do que imaginar um quadro confuso é não imaginar quadro nenhum. O relatório procura montar um quadro coerente com as informações disponíveis na época que foi escrito; se está certo, só o tempo dirá.

Diante das incertezas, são projetados 4 cenários extremos:

  1. Pax americana: é o mais favorável aos EUA. É o retorno ao pré 11 de setembro de 2001 com os EUA reinando como potência absoluta no planeta, como o Império responsável pelos grandes rumos da humanidade. Embora novas potências surjam, notadamente China e Índia, sua liderança tecnológica e militar o mantém ainda em um patamar sem rival.
  2. Ciclo do Medo: é o cenário mais pessimista, o caos mundial. A proliferação das armas de destruição em massa e biológica leva a uma situação de busca da segurança absoluta, com reflexos no cenário da globalização e o fechamento dos países diante de ameaças potenciais externas. Os Estados Unidos vêem sua influência desmoronar e volta-se para si mesmo, tentando proteger-se da ação de novos e antigos grupos terroristas.
  3. Novo Califado: este cenário foi montado para imaginar como se comportaria o mundo diante de um movimento global fomentado por uma identidade religiosa radical. A união de vários países islamicos em torno de um Califa causaria uma confusão não só no próprio mundo muçulmano quanto nas relações entre EUA, Rússia, Europa e China.
  4. Mundo de Davos: é uma ilustração do sucesso da globalização. Um robusto crescimento econômico, liderado por China e Índia, dá uma nova face ao processo, agora menos ocidental, transformando o palco de atuação política. Embora os EUA ainda exerçam a liderança militar e tecnológica, seu poder econômico perde importância relativa para demais nações em desenvolvimento.
O relatório faz suas projeções em cima de alguns eixos como a globalização, o combate ao terrorismo, o crescimento chinês e indiano, a mudança do perfil demográfico dos países desenvolvidos e o controle de armas de destruição em massa. Tentar confirmar ou negar as previsões a priori é quase tão temerário quanto fazê-las. No entanto, o documento tem a clara relevância de pelo menos levantar quais são os dilemas que poderão orientar as decisões mundiais nos próximos anos. Serve, pelo menos, para acompanhar os acontecimentos dos próximos 10 anos e ver até ponto foi escrito por visionários ou por homens completamente enganados pelos indícios que possuíam na época.

Se voltarmos no tempo, no início da década de 30, quem imaginaria que a Alemanha se recuperaria da pesada crise econômica que atravessava e em 10 anos teria toda a Europa a seus pés?

Embora sempre tenha existido homens capazes de prever tendências, houveram também aqueles que erraram completamente. Malthus que o diga!