segunda-feira, agosto 23, 2010

Até quando ter esperanças?

Conto de Inverno
Conte D'hiver, 1992
Eric Rohmer

Até que ponto se pode viver na recordação de um grande amor que por ação do destino ficou para trás? Move on, dizem os americanos. Deixe o passado para trás e viva a vida. No Brasil usamos o "que passou, passou" e outras pérolas da sabedoria popular. O importante é voltar nossas ações para o futuro e não se deixar prender por acontecimentos do passado. Ou não? Será possível viver um amor que apesar de ter sido interrompido ainda se encontra assustadoramente presente?

É o ponto de partida para "Conto de Inverno", de Eric Rohmer, parte de um conjunto que denominou Contos das Quatro Estações. Félicie viveu um grande amor de verão em alguma ilha do litoral francês. Por um lapso seu, passou o endereço errado para Charles, um imigrante ilegal que partia em viagem para a América. Pior que isso, errou o nome da cidade, tornando encontrá-la um verdadeiro milagre.

Cinco anos depois, encontramos Félicie dividida entre Luic e Maxence. E com uma filha de Charles, Elise. No entanto, a lembrança de seu primeiro amor ainda não se dissipou e ela convive com dúvida da escolha entre passado e futuro. É assim que ela deixa Luic, um intelectual, por Maxence, seu chefe em um salão de beleza. Todos estes acontecimentos vamos descobrindo como descobriríamos na vida real, através de conversas. É através de diálogos que vamos descobrindo tudo que aconteceu na vida de Félicie e suas reflexões sobre estes acontecimentos. É quase uma reprodução do método socrático, onde ela vai conhecendo a si mesma através de perguntas que faz para si mesma e pela interação com as pessoas a sua volta.

No entanto, são em dois momentos íntimos que consegue extrair de si mesma as respostas que precisa. No primeiro, após mudar-se para Neveurs com Maxence, entra por acaso em uma catedral, acompanhando a filha. Enquanto a menina contempla um presépio, ela senta-se e reza. Na verdade, mais do que rezar, ela conversa consigo mesmo, como contaria depois para Luic. Dizia um pensador francês que quem conversa consigo mesmo acaba conversando com Deus. Ele ressaltava o papel da autoconfissão como caminho para o verdadeiro conhecimento. Ela decide deixar Maxence e retornar para Paris, buscando reorganizar sua vida.

O segundo momento de iluminação, ocorre ao assistir uma peça de Shakespeare, Conto de Inverno. Na peça, o rei Leonte vê a esposa ressuscitar pelo poder da fé e da esperança. Apesar de estar ao lado de Luic, é um novo momento íntimo, pois ambos assistiram peças diferentes. Ele vê, pelos olhos frios de um intelectual, uma redição do mito da ressurreição, quase como se fosse um folclore. Ela vê, através do sentimento, o poder da fé em nossas vidas. Luic é católico praticante, enquanto que Félicie está brigada com Deus, como ela mesmo diz. No entanto, percebe-se a fé autêntica nela e não em Luic, que chega a duvidar dos milagres, uma das bases do cristianismo. Rohmer sugere que a verdadeira religiosidade não está na exteriorização da fé, mas na incorporação dela em nossas vidas.

Resolve por fim viver sozinha. Em uma conversa com Luic ela confessa que tem remota esperança de um dia encontrar Charles novamente, e mesmo assim poderia estar casado ou não a amar mais, mas viver com esta esperança era melhor do que qualquer outra vida pois o prêmio seria inimaginável. Luic lembra que trata-se da aposta de Pascal no que se refere à imortalidade. Era melhor viver acreditando na imortalidade da alma pois o prêmio seria infinito e mesmo se fosse ilusão, seria melhor viver uma vida sob esta perspectiva. Algum momento depois, ela comenta que ele só era capaz de acreditar no que lia nos livros, uma nova crítica ao exagero que pode levar uma vida intelectual, afastando a pessoa da realidade.

E foi assim que Félicie deixou Luic por Maxence, depois Maxence por Luic e finalmente Luic por Charles, mesmo que seja apenas pela presença de sua memória. A crença no milagre de reencontrar Charles depois de tanto tempo é suficiente para dar a ela uma direção em sua vida. Só que Rohmer conta sua estória justamente na época de Natal...

Nunca conheci um cineasta que conseguisse retratar a beleza da mulher com tanta destreza. Certamente escolhe atrizes bonitas para seus filmes, como muitos outros fazem. Sua diferença é a personalidade que consegue dotar estas personagens, deixando-nos apaixonados por cada uma de suas heroínas. Consegue aliar a beleza física, algumas vezes não tão evidentes, com gestos, olhares e espírito que as transformam e mulheres ricas em tanta beleza. Coisa de gênio.

Mais uma vez Rohmer centra seu filme nas pessoas e na realidade. Alguns críticos afirmam que seus filmes são lentos demais para o cinema. Pode ser. Mas são no ritmo da vida real. Assim, dá tempo ao expectador de refletir junto com seus personagens, de pensar em nossas próprias vidas. Ouvi falar em Eric Rohmer no dia de sua morte, no fim do ano passado. De lá para cá, vi cerca de 6 filmes dele. Não houve um único que não admirasse, que não me fizesse refletir depois. Seus personagens são extraordinariamente reais, assim como suas estórias. Nos deparamos com algumas delas o tempo todo, mas com ele aprendemos a refletir sobre estas experiências. Na verdade, Rohmer foi uma espécie de cineasta filósofo, que conseguiu entender o amor como pouquíssimos cineastas badalados foram capazes de fazer.

Fico especialmente feliz por saber que ainda tenho tanto filme dele para assistir. Um verdadeiro privilégio.

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