quarta-feira, setembro 29, 2010

Amor aos 40

Conto de Outono
Conte d'Automne, 1998


Duas Amigas enfrentando a entrada da terceira idade. Magali, viúva, com os filhos ausentes, dedica-se sozinha a levar uma pequena vinícula a frente. Isabelle, casada há 23 anos, prepara-se para o casamento da filha. São duas mulheres na faixa dos 40 anos que enfrentam os desafios da entrada na terceira idade, com tudo que tem de bom e de ruim.


Eric Rohmer fez aqui um filme de contrastes. Magali vive no campo, tem pela terra uma veneração, se ofende com as instalações industriais que tomam a paisagem e começa a sentir os efeitos da solidão. Isabelle vive na cidade, trabalha em uma loja de livros, dedica-se à família. Não por acaso o filme começa com uma reunião familiar, algo que não existe mais para Magali. O próprio filho, que mora próximo, faz questão de não encontrar com a mão. Em nenhum momento do filme, eles dividem uma cena.

Outro contraste é com Étienne, a namorada do filho de Magali. Jovem sonhadora e inteligente, divide-se entre a relação com o namorado imaturo e um romance terminado com seu professor de filosofia. Este só consegue relacionar-se com alunas, fugindo de pessoas de sua idade.

Tanto Isabelle quanto Étienne resolvem ajudar Magali a conseguiu alguém para dividir a vida. O contraste de métodos e objetivos é nítido. Étienne vê a chance de resolver um dilema próprio, conseguindo manter o professor por perto e criando um muro entre eles através do possível relacionamento dele com a amiga. Isabelle, mais experiente, sabe que a amiga não aceita um romance armado e resolve conseguir um pretendente que se encontre com ela por acaso. Para isso, resolve se fazer passar por uma interessada e através de um anúncio de jornal conhece um pretendente e através de uma série de encontros vai testando-o. Um jogo perigoso como ela própria reconhece no fim, pois passou a sentir a atração de um romance.

O filme é uma meditação sobre o amor na maturidade, focando as diversas possibilidades. Há a solidão, a tranquilidade do amor consolidade, o homem que procura uma mulher no mesmo nível de maturidade, o que procura meninas. A vida não termina aos 40, pelo contrário, traz novos caminhos que se não possuem a inocência do primeiro amor, está repleto das experiências acumuladas da vida de cada um.

Mais um filme de Rohmer que demonstra porque ele foi diferente e não se encontra no nível da esmagadora dos cineastas de sua época. Comparado com os de hoje chega a ser covardia. Ninguém mais do que ele foi capaz de captar os dilemas morais e espirituais do século XX.

segunda-feira, setembro 27, 2010

O maior dos impérios

Império
Como os Britânicos fizeram o mundo moderno
Niall Ferguson

Quando se fala em Império, o primeiro que vem a mente da maioria das pessoas, como referência, é o Império Romano. Outros pensam até no Macedônico de Alexandre, no americano de hoje. No entanto, o maior Império que já existiu em toda História, com todas as consequências próprias de tamanho poder, foi o Império Britânico, que chegou a dominar 1/4 do mundo durante alguns séculos.

Como isso foi possível? Como uma ilha e um povo reduzido conseguiu dominar continentes e populações gigantesca com um exército diminuto? Em que isso influenciou o mundo moderno? Quais as consequências reais deste domínio?

São as perguntas que Niall Ferguson coloca em "Império". Sua tese é que o domínio britânico foi tão fundamental na História que praticamente moldou o mundo de hoje, para o bem ou para o mal. Basta pensar que seus herdeiros, o Estados Unidos, foi sua colônia. Fala-se muito da globalização como um fenômeno contemporâneo, mas na verdade foi uma criação dos britânicos ao longo dos séculos XVII e XVIII.

Ferguson analisa o domínio britânico sobre 6 prismas: a conquista de mercados de bens (o papel dos piratas), o estabelecimento de mercados de trabalho (os plantadores), a expansão cultural (missionários), a implantação de governos fiéis á coroa (mandarins), o estabelecimento de mercados de capital (banqueiros) e finalmente da Guerra (os falidos).

Trata-se de um livro bastante interessante que mostra os acertos e erros dos britânicos durante a existência do Império. Deve-se ter em mente que o julgamento do papel dos britânicos deve ser feito em termos dos valores da época e não do que sabemos e cultuamos hoje. Muitos dos erros que hoje são considerados claros, não eram no passado.

Ferguson condena duramente seus compatriotas na questão da escravidão, das tentativas de exportar a força a cultura cristão em sociedades inteiras e a ferocidade com que os ingleses reagiram a muitas revoltas coloniais. Como foi possível a expansão de um povo que cultuava a liberdade através do imperialismo e o domínio de outros povos.

Não se deve cair no erro de considerar o Império Britânico o grande mal de sua época; ao contrário, seus rivais eram muito piores. Sempre foi possível ouvir vozes, dentro de suas fronteiras, em seu parlamento, nas discussões políticas, de pessoas protestando contra os abusos britânicos, coisa não muito comuns em outros lugares.

Quando o Império Britânico foi desafiado pelas novas potências imperialistas como a Alemanha nazista e o Japão, teve a oportunidade de deixar os alemães conquistarem a Europa e ficar com suas colônias. Liderados por Churchill, fizeram a coisa certa, enfrentaram os novos impérios e pagaram o preço com a perda de seu próprio Império. Foi uma decisão consciente que redime alguns dos crimes cometidos ao longo dos últimos séculos pelos ingleses.

Analisar o papel dos britânicos na construção do mundo moderno desperta paixões e julgamentos dos mais diversos. O que fica, entretanto, é a constatação que o mundo seria bem diferente hoje se não fosse a existência do Império Britânico. Se valeu a pena, cabe a cada um estudar para responder. Foi o que Ferguson fez.

domingo, setembro 26, 2010

Estamos mais radicais?

A Era do Radicalismo
Entenda por que as pessoas se tornam extremistas Cass R. Sunstein, 2010

Uma característica cada vez mais evidente nos dias de hoje é o extremismo nas opiniões levando a uma situação cada vez maior de radicalismo. Como exemplos recentes, podemos citar a crise financeira de 2008, o crescimento do terrorismo, o fanatismo das pessoas e o abismo político que vai sendo construído cada vez mais nas discussões políticas. A pergunta que Sunstein coloca e tenta responder é: por que isso acontece? Por que a era atual pode ser marcada pelo radicalismo nas várias questões da vida humana?

As respostas que o autor apresenta para a questão que colocou gira em torno de um argumento principal: a reunião de pessoas como pensamentos alinhados para determinado viés, mesmo que em diferentes graus, leva seus membros a tomarem posições cada vez mais extremas. O grande questão de hoje é que a revolução dos meios de comunicações e a explosão das redes sociais facilitou o encontro de pessoas que pensam parecido, o que tem conduzido os grupos a assumirem posições cada vez mais extremistas.

Para chegar a esta conclusão, Sunstein recorre a diversas pesquisas comportamentais e decisões de determinados grupos, como cortes de apelação, para evidenciar que a posição final é mais extrema, independente do lado, do que a média das posições iniciais. O grande fator para polarização dessas posições é a existência de pessoas que pensam de maneira semelhante e que reforçam as próprias posições ao longo das discussões.

O autor tenta esboçar as possíveis soluções para o problema, entre as quais pode se destacar a resposta dos conservadores, o tradicionalismo; o consequencialismo e, por fim, o sistema de freios e contrapesos, uma das bases da fundação dos Estados Unidos. Estas respostas associam-se respectivamente aos pensamentos de Edmund Burke, Jeremy Bentham e James Madison. Sunstein se concentra principalmente no último, os freios e contrapesos, pode acreditar ser de melhor aplicação tanto na vida cotidiana quanto no âmbito político.

A evidência mostra que Sunstein tem uma certa dose de razão na sua tese e em seus argumentos, embora este fenômeno não seja particularmente novo. A grande novidade, que foi pouco explorada no livro, é porque esta tendência está cada vez mais forte. Ele chega a esbarrar na questão do impacto dos meios de comunicações, principalmente a internet, mas acaba não desenvolvendo muito esta questão. Sua principal preocupação está em demonstrar que o fenômeno existe e pode ser evidenciado cientificamente, o que para mim parece evidente. Quando se reúnem pessoas com pensamentos parecidos, os indivíduos acabam tendo mais argumentos para defender suas posições e se convencem mais facilmente que estão com a razão.

As idéias de Sunstein me despertaram para a importância deste fenômeno, algo que já vinha me preocupando a algum tempo. Não só tenho reparado no extremismo das pessoas nas discussões como tenho me visto dentro deste quadro, tanto que ultimamente tenho evitado determinados confrontos porque sinto aflorar o radicalismo em meus pensamentos, o que normalmente não é bom.

Por outro lado, existem sim questões que todo radicalismo é pouco. Deve-se ter o devido cuidado com o que é opinião e o que é verdade, o que está assentado em valores e o que é auto-evidente. Entre a honestidade e desonestidade, por exemplo, não pode haver meio-termo, assim como a dignidade da pessoa humana, a pedofilia, o teorema de Pitágoras. São Tomás de Aquino dizia que a verdadeira amizade era querer as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas. Ele não queria dizer com ter as mesmas opiniões ou desejar as mesmas coisas materiais, mas ter os mesmos valores básicos. Os verdadeiros amigos compartilham dos mesmos valores, muito embora possam divergir nas questões particulares.

As soluções do autor também me pareceram superficiais e até certo ponto insuficientes. Acredito que a melhor solução para buscar o verdadeiro conhecimento e fugir dos extremismo é a dialética ensinado por Platão a Aristóteles, é a discussão sincera em que ambas as partes estão dispostas a ceder em suas idéias diante de uma melhor do que a que tinham, o que exige um virtude fundamental: a humildade. Aí que começa o problema dos tempos modernos: como ser humilde em uma época que o orgulho é cada vez mais exaltado?

No fundo, São Paulo tinha toda a razão, assim como o Eclesiastes. A vaidade está na raiz de todos os vícios do homem e, portanto, a solução gira em torno de uma única palavra, a humildade. Pena que o autor não tenha chegado nem perto desta questão, o que acaba por deixar sua obra até certo ponto incompleta. Faltou-lhe reflexão filosófica para escrever um livro melhor, o que só evidencia a importância de ter uma cultura ampla o suficiente para ligar as várias partes do saber humana, o que pouquíssimas pessoas são capazes de fazer.



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sexta-feira, setembro 24, 2010

No fim das contas, são as pessoas que fazem a diferença

1822
Laurentino Gomes, 2010
Editora Nova Fronteira


A obra trata da independência do Brasil, particularmente ressaltando o papel dos indivíduos que conduziram o processo. Além da liderança de D Pedro I, destacaram-se as figuras de José Bonifácio, Princesa Leopoldina e Thoas Cochrane. Pode-se dizer que a dimensão humana tem destaque neste livro de Laurentino, pois trata-se fundamentalmente de uma história de pessoas.

Nos capítulos ininicais são ressaltados os fatores que
impulsionaram o Brasil à independência, destacando-se a intrangigência das Cortes de Portugal, que não deram alternativa aos brasileiros do que lutar pela formação de um novo país. Além disso, o ambiente revolucionário europeu, iniciado pela Revolução Francesa, a imensa obra de D João VI no Brasil, principalmente a abertura dos portos ao comércio exterior, o receio de uma revolução de escravos, tudo isso foram fatores indutores que influenciaram os personagens descritos por Laurentino.

O autor, no entanto, foge da tentação de considerar a independência como fruto de processos sociais, esta abstração criada pelos historiadores marxistas, e procura mostrar o papel de relevo das lideranças da época. Não fossem as figuras de D Pedro, Bonifácio, Leopoldina e Cochrane, o desfecho poderia ter sido outro, principalmente a fragmentação do território nacional em pequenas repúblicas, conforme o que aconteceu no resto do continente.

Existe um senso comum de que a Independência foi um simples acordo entre D Pedro e D João, que a população assistiu como espectadora. Não foi bem assim. A Independência do Brasil foi conquistada palmo a palmo, estado por estado. As possibilidades estavam todas contra o Brasil, principalmente porque D João tinha levado todos os recursos com ele em sua volta para Portugal. O Brasil nascia como um país virtualmente falido. Graças a liderança de D Pedro, o heroísmo de brasileiros anônimos e alguns golpes de pura sorte, a balança acabou por pender para o lado brasileiro. Segundo Laurentino, tinha tudo para dar errado e por um certo tempo parecia que realmente iria dar. Contrariando todos os prognósticos, acabou dando certo.

Ao analisar o 1º Reinado, busca resgatar a dimensão humana da controversa figura de nosso primeiro imperador. Homem de qualidades, como a coragem e a liderança, mas com fraquezas bem reais. Um líder político que procurou equilibrar interesses mas acabou sucumbindo pelo desgaste provocado pelo romance com a Marquesa de Santos _ a imperatriz era extremamente popular _ e pela interferência na sucessão portuguesa, o que levantou dúvidas sobre sua lealdade.

Forçado a abdicar, D Pedro retornou a Portugal, onde a história lhe daria um último grande capítulo. Para garantir os direitos de sua filha, Maria da Graça, liderou uma guerra civil com os liberais contra os absolutistas do irmão, D Miguel. Venceu e restaurou a monarquia constitucional em Portugal, seu último triunfo. Morreu logo depois da sagração da filha, vítima de tuberculose, pouco antes de completar 36 anos.

O grande mérito de Laurentino não é apenas de conseguir despertar o interesse pelo passado brasileiro, mas também de resgatar a dimensão humana dos grandes acontecimentos históricos do Brasil, rejeitando a teoria das forças abstratas que conduzem os destinos humanos; no fim das contas, quem tomam as decisões e fazem a histórias são os indivíduos reais, com suas virtudes e defeitos. Com uma prosa fácil, própria de reportagens da imprensa, evita o tecnicismo, este mal que assola grande parte da academia brasileiro e tornam a História inacessível ao grande público, além de procurar ficar longe da ideologia, que tanto mal faz ao estudo do passado.

Não se trata de um livro de história, mas de um livro reportagem, em que Laurentino conta um acontecimento fundamental da História do Brasil a partir de um cuidadoso trabalho, baseado principalmente em historiadores de diversas épocas. Longe de esgotar o assunto, é ume excelente ponto de partido para quem deseja conhecer melhor os fatos históricos que marcaram nossa história.

segunda-feira, setembro 20, 2010

O papel do crédito na formação do Império Britânico

Estou lendo Império, de Niall Ferguson. Trata-se de uma investigação sobre a formação do Império Britânico e principalmente sobre seu legado. O primeiro capítulo trata de como a Inglaterra saiu atrasada na colonização e de piratas dos mares acabaram por ser a grande potência do século XIX. A resposta que sempre me veio a cabeça foi o seu poder naval, a opção de dominar os mares.

Só que outras nações, como a Espanha, também lutavam pelo domínio dos mares. Além do mais, a França era cerca de duas vezes mais rica do que a Inglaterra. Onde se deu a mudança?

Ferguson traz um argumento interessante. Quando a Inglaterra se associou à Holanda, ela incorporou a principal invenção dos holandeses, o sistema de crédito. Esse fado deu aos britânicos uma grande vantagem nas guerras do século XVIII, quando conquistou o domínio marítimo. Enquanto os países continentais, como França e Espanha, ficavam limitadas a sua quantidade de recursos disponíveis, os britânicos captavam recursos da própria sociedade através de uma espécie de emissão de dívida pública. Em outras palavras, gastava para pagar depois. Desta forma, conseguia a colaboração voluntária da própria população (talvez até de estrangeiros), enquanto que seus inimigos eram obrigados a tomar a força, o que não devia ser muito fácil em relação à nobreza e a burguesia que se estabelecia. Não é ilícito supor que muita gente escondia seu ouro, muitas vezes em nações estrangeiras (Suiça?).

Enfim, no século XVII os ingleses aprenderam com os holandeses que ter dívida não era de todo ruim, desde que os juros ficassem dentro do orçamento anual. Se for verdade, é mais uma demonstração que fatos econômicos costumam ter grande influência em acontecimentos históricos, o que não quer dizer que sejam os únicos fatores. A economia não é tudo, como imaginava Marx.

domingo, setembro 19, 2010

Pouco acrescentou

De Menino a Homem
Gilberto Freyre

Estão na minha lista de leitura as obras principais de Gilberto Freyre, principalmente agora que a questão racial no Brasil ganhou grande impulso em torno da discussão sobre as primeiras leis raciais do Brasil (também chamadas ações afirmativas).

Freyre conseguiu a proeza de ser atacado à esquerda e à direita pela mesma tese. Chesterton ensinou-me que quando algo é atacado pelos mesmos motivos por teorias das mais variadas direções é porque costuma ser verdade. Foi um dos argumentos que usou em Ortodoxia para defender o Cristianismo, mas isso é outra estória.

O importante é que a importância de Freyre para o país é inegável. Quando vi "De Menino a Homem", uma curta autobiografia de seu período mais produtivo, encarei como a oportunidade de ter uma introdução à sua obra. Acabei de certa forma frustrado.

Freyre não aborda muito suas idéias e o processo que resultou nos seus livros mais importantes; seu foco foi sua experiência pessoal na sociedade em que viveu, tanto no Brasil quanto no exterior. Aliás, uma das coisas que fica patente foi que o Gilberto Freyre foi mais respeitado lá fora do que aqui. Sem novidades, visto o exemplo de Mário Ferreira dos Santos.

Apesar de algumas constatações interessantes, como o entendimento que se você tem algo importante a dizer escreva um livro e não uma tese acadêmica, conselho de um professor seu, nos Estados Unidos, claro, o livro acabou por decepcionar. Comparado com Reflexões Autobiográficas de Eric Voegelin, por exemplo, fica muito aquém. Talvez tenha ficado mal acostumado com o velho mestre alemão, mas a comparação me foi irresistível.

Quando terminei Reflexões, tinha uma boa idéia das teses centrais de Voegelin, suas obras importantes e a experiência que o levou a escrevê-la. Freyre toca de passagem em seus principais livros, pouco fala de suas idéias e alguma coisa da experiência que estava vivendo.

Valeu apenas como uma leve tintura de sua personalidade. Muito pouco para tanta expectativa.



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