domingo, setembro 26, 2010

Estamos mais radicais?

A Era do Radicalismo
Entenda por que as pessoas se tornam extremistas Cass R. Sunstein, 2010

Uma característica cada vez mais evidente nos dias de hoje é o extremismo nas opiniões levando a uma situação cada vez maior de radicalismo. Como exemplos recentes, podemos citar a crise financeira de 2008, o crescimento do terrorismo, o fanatismo das pessoas e o abismo político que vai sendo construído cada vez mais nas discussões políticas. A pergunta que Sunstein coloca e tenta responder é: por que isso acontece? Por que a era atual pode ser marcada pelo radicalismo nas várias questões da vida humana?

As respostas que o autor apresenta para a questão que colocou gira em torno de um argumento principal: a reunião de pessoas como pensamentos alinhados para determinado viés, mesmo que em diferentes graus, leva seus membros a tomarem posições cada vez mais extremas. O grande questão de hoje é que a revolução dos meios de comunicações e a explosão das redes sociais facilitou o encontro de pessoas que pensam parecido, o que tem conduzido os grupos a assumirem posições cada vez mais extremistas.

Para chegar a esta conclusão, Sunstein recorre a diversas pesquisas comportamentais e decisões de determinados grupos, como cortes de apelação, para evidenciar que a posição final é mais extrema, independente do lado, do que a média das posições iniciais. O grande fator para polarização dessas posições é a existência de pessoas que pensam de maneira semelhante e que reforçam as próprias posições ao longo das discussões.

O autor tenta esboçar as possíveis soluções para o problema, entre as quais pode se destacar a resposta dos conservadores, o tradicionalismo; o consequencialismo e, por fim, o sistema de freios e contrapesos, uma das bases da fundação dos Estados Unidos. Estas respostas associam-se respectivamente aos pensamentos de Edmund Burke, Jeremy Bentham e James Madison. Sunstein se concentra principalmente no último, os freios e contrapesos, pode acreditar ser de melhor aplicação tanto na vida cotidiana quanto no âmbito político.

A evidência mostra que Sunstein tem uma certa dose de razão na sua tese e em seus argumentos, embora este fenômeno não seja particularmente novo. A grande novidade, que foi pouco explorada no livro, é porque esta tendência está cada vez mais forte. Ele chega a esbarrar na questão do impacto dos meios de comunicações, principalmente a internet, mas acaba não desenvolvendo muito esta questão. Sua principal preocupação está em demonstrar que o fenômeno existe e pode ser evidenciado cientificamente, o que para mim parece evidente. Quando se reúnem pessoas com pensamentos parecidos, os indivíduos acabam tendo mais argumentos para defender suas posições e se convencem mais facilmente que estão com a razão.

As idéias de Sunstein me despertaram para a importância deste fenômeno, algo que já vinha me preocupando a algum tempo. Não só tenho reparado no extremismo das pessoas nas discussões como tenho me visto dentro deste quadro, tanto que ultimamente tenho evitado determinados confrontos porque sinto aflorar o radicalismo em meus pensamentos, o que normalmente não é bom.

Por outro lado, existem sim questões que todo radicalismo é pouco. Deve-se ter o devido cuidado com o que é opinião e o que é verdade, o que está assentado em valores e o que é auto-evidente. Entre a honestidade e desonestidade, por exemplo, não pode haver meio-termo, assim como a dignidade da pessoa humana, a pedofilia, o teorema de Pitágoras. São Tomás de Aquino dizia que a verdadeira amizade era querer as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas. Ele não queria dizer com ter as mesmas opiniões ou desejar as mesmas coisas materiais, mas ter os mesmos valores básicos. Os verdadeiros amigos compartilham dos mesmos valores, muito embora possam divergir nas questões particulares.

As soluções do autor também me pareceram superficiais e até certo ponto insuficientes. Acredito que a melhor solução para buscar o verdadeiro conhecimento e fugir dos extremismo é a dialética ensinado por Platão a Aristóteles, é a discussão sincera em que ambas as partes estão dispostas a ceder em suas idéias diante de uma melhor do que a que tinham, o que exige um virtude fundamental: a humildade. Aí que começa o problema dos tempos modernos: como ser humilde em uma época que o orgulho é cada vez mais exaltado?

No fundo, São Paulo tinha toda a razão, assim como o Eclesiastes. A vaidade está na raiz de todos os vícios do homem e, portanto, a solução gira em torno de uma única palavra, a humildade. Pena que o autor não tenha chegado nem perto desta questão, o que acaba por deixar sua obra até certo ponto incompleta. Faltou-lhe reflexão filosófica para escrever um livro melhor, o que só evidencia a importância de ter uma cultura ampla o suficiente para ligar as várias partes do saber humana, o que pouquíssimas pessoas são capazes de fazer.



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