sábado, outubro 09, 2010

Pessimismo

A dama do cachorrinho e outras histórias
Anton Tcékhov
Editora L & PM

Não sou particularmente exigente com o final de estórias, seja no cinema ou na literatura. É claro que na hora fica um sensação ruim com o fim triste, mas alguns dos melhores livros (ou filmes) que já li (ou vi) terminaram com finais assim. A exigência do chamado final feliz divide as pessoas, mas confesso que não me incomoda muito um final triste. No fim, vale a trama e as reflexões que desperta. O que me incomoda mais é o pessimismo, a falta de esperança na ação humana, na capacidade que o indivíduo tem de contrariando todas as perspectivas superar a si mesmo e tomar determinadas atitudes aparentemente inexplicáveis, como se tivesse um lampejo apontando para a coisa certa a fazer e se entregue a este lampejo. Algumas das melhores obras da literatura são assim. Um exemplo é Um Conto de Duas Cidades do Dickens em que a pessoa mais improvável tem a atitude mais nobre de toda a estória e alcança a tão sonhada redenção, mesmo em um final triste.

Os contos de Tchékhov tem essa faceta que me incomoda. O autor parece não acreditar na capacidade do ser humano, na grandeza dos seus pequenos atos, mesmo que sejam raros. Seus personagens são mesquinhos, patéticos e, principalmente, sem redenção possível. Dizem que retratou sua época, que faz uma crítica devastadora da Rússia do fim do século XIX, devastando principalmente a burguesia e a aristocracia. Pode ser de uma parte, mas não consigo acreditar que em qualquer sociedade não existam atos que nos fazem ter esperanças na humanidade. A visão de Tchékhov é sem esperanças, e por isso mesmo incompleta.

Seu talento é inegável e escreveu excelentes contos, como a dama do cachorrinho, Iônytch e Zínotchka. Neste último, o melhor da coletânea, há um vislumbre de rompimento com Dymov, mas a visão pessimista e sombria permanece. Não há redenção para o homem na visão de Tchékhov, o que só mostra que não foi capaz de perceber a essência do ser humano, a incrível capacidade de superar a si mesmo, por mais raro que seja essa ocasião.

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