segunda-feira, outubro 04, 2010

Um exemplo da deformação marxista da história

Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai
Julio José Chiavenatto

Em 1984, Orwell adverte que para dominar o futuro é preciso dominar o presente. Sua inspiração foi o que Stalin fez na União Soviética, extirpando a participação de outro sanguinário, o Trotsky, na Revolução Russa, mostrando que os revolucionários sempre tiveram idéia fixa em recontar o passado sob sua ótica, deformando e alterando sem o menor pudor fatos históricos para comprovar sua ideologia. Uma das frases mais constantes dos dias de hoje é que a história é contada pelos vencedores. Verdade. Mas quais vencedores? Os que venceram uma guerra? Os que venceram uma disputa política? Uma revolução? Mas quem venceu em cada fato histórico desses? Quem venceu a revolução francesa? O povo?

Quem conta a histórica é quem venceu uma outra guerra, uma que quase ninguém fala, como se fosse um assunto sem importância, embora talvez seja o que realmente importa. Conta a história quem domina a cultura. Simples assim. Marx estava completamente errada sobre o grande motor da história, a economia. Esta é uma das consequências da ação humana e não sua causa. São pessoas que realizam ações e a maior influência sobre seus atos é a cultura que recebe. Quem conta a história é quem compreende que para dominar a política é preciso dominar a cultura.

Chegamos então em Chiavenatto. Deveria se escrever uma tese sobre como uma geração inteira de historiadores e formadores de opinião consideraram o panfleto carregado de ideologia que escreveu sobre a Guerra do Paraguai como a quebra de um paradigma da historiografia brasileira. O livro é uma verdadeira bomba... do início ao fim! O autor não tenta nem disfarçar, afirma desde o início que sua visão é completamente pró-Solano López. Apesar de não ser historiador _ acredito que se fosse a obra seria ainda pior _ ele se pretende um autodidata da história e acaba por influenciar os que deveriam ser historiadores de verdade e expõe de maneira contundente toda a miséria de nossa vida cultural.

Para ter uma idéia, cito logo da primeira página:

A partir da independência o Paraguai é a única república da América Latina que não sofre a presença dos caudilhos nem é conturbada por revoluões ou golpes. É um país coeso, com a autoridade centralizada por revoluções ou golpes (...) Francia, El Supremo, assume o poder e exerce uma ditadura peculiar: usa o absolutismo como método de governo em benefício do povo (...) Decreta, poderia se dizer, a pobreza como norma de vida dos paraguaios (...) Nos cárceres, não existem pobres: são os ricos, a chamada " classe esclarecida", que poderia voltar-se contra Francia, que estão presos.


Chiavenatto consegue ver nisso tudo a maravilha do sonho do ditador perfeito, que governa para os mais pobres, o sonho de todo socialista, embora só alguns admita isso para si mesmo. O tom do livro é todo esse, elogios rasgados aos ditadores paraguaios e condenação de cada ato dos países alidados. Consegue a proeza de considerar a invasão paraguaia do Mato Grosso como uma reação e não como uma invasão, e mais ainda, que o Brasil teria "roubado" o Mato Grosso do Paraguai ao final da guerra, como se já não fosse seu território.

Escrito nos anos 70, seu propósito foi produzir uma obra contra os militares, atuando principalmente sobre os dois maiores nomes da história militar brasileira, Caxias e Osório. Talvez não imaginasse que mudaria o ensino do episódio nas escolas brasileiras, gerando um mal que levará gerações para ser corrigido.

Sua tese é que a guerra foi um genocídio patrocinado pela Inglaterra para destruir o país mais progressista das Américas, que começava a ameaçar o Império Britânico. Não há uma única referência para dar suporte a seus argumentos, nem mesmo bibliografia, só discurso. Em qualquer país do mundo, seria considerado como é, um panfleto de propaganda. No Brasil foi considerado como obra séria.

Nada mais sintomático da influência nefasta da ideologia socialista do que o seguinte trecho, em que Chiavenatto mostra o "erro" do segundo ditador paraguaio:

A incompreens"ao de Carlos Antonio López de que há um determinismo histórico conduzindo as nações...

O erro dos ditadores paraguaios foi não dar devida atenção ao "determinismo histórico", esta gigantesca farsa que está no coração da mentalidade revolucionário, a maior chaga da história da humanidade.

Chiavenatto é mais um dos incontáveis idiotas úteis que realmente acredita nessa bobageira sem fim. Genocídio Americano é um exemplo do tamanho da desonestidade intelectual1 que um militante ideológico é capaz de fazer. Se fosse só isso, já seria ruim; mas que uma série de historiadores tenham dado crédito a um panfleto é algo que só mostra a pobreza intelectual dessa gente.



1: A melhor definição de desonestidade intelectual que já vi: fingir saber o que não sabe e fingir não saber o que sabe muito bem. Cortesia do Olavo de Carvalho.

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