sábado, novembro 06, 2010

Destruindo mitos

Lituma nos Andes (1993)
Mario Vargas Llosa, Tradução de Josely Vianna Baptista

Vivemos uma época de mitos. Não por acaso, já que vivemos uma explosão nas formas de comunicação, na rapidez como uma informação se difunde de parte a parte no globo. Cada vez é mais comum escutar que está se vivendo um momentos histórico, mesmo antes da história ser feita, uma antecipação do que ainda estar por vir. Não importa a consistência do mito criado, o que conta é a sua difusão.

Mario Vargas Llosa é um escritor corajoso. Não se deixa pautar pela patrulha politicamente correta e mostra seu olhar sobre a existência humana em todas as suas faces. Não por acaso, uma de suas referências constantes é o genial escritor Albert Camus, outro que se distinguia pela integridade intelectual. Embora ambos tenham se caracterizado por fortes posições políticas, nenhum deles dedicou-se a construir obras ideológicas, ao contrário, procuravam expressar em suas obras a autenticidade das experiências reais.

Em Lituma nos Andes, obra que escreveu em 1993, depois da derrota eleitoral no Peru, o mais novo Nobel da literatura mostrou uma das faces de mitos do século XX, a face da irracionalidade. Ao acompanhar a aventura do Cabo Lituma, personagem extraído de "A Casa Verde", e de seu auxiliar da guarda civil em um pequeno posto de proteção a uma obra rodoviária no alto dos Andes, Llosa mostra que a realidade pode ser muito diferente do que se propaganda por aí.

Na década de 90, o Peru ainda sofria com um dos mais sanguinários grupos armados do continente, o Sendero Luminoso. Assim como as FARCs, sua pregação marxista seduzia e ainda seduz intelectuais do mundo inteiro, que fecham os olhos para suas atrocidades e tentam justificar a opção pela violência por uma concepção racional de sua luta política. Esta visão é destruída por Llosa neste pequeno romance.

Quando um professor francês insiste em fazer uma viagem por terra em uma região de atuação do Sendero, sonhando em mostrar para seus alunos slides de sua viagem com a namorada, pensava que sua situação de turista e simpatizante com o Peru seria seu passaporte para evitar problemas. Descobriu o ar de indiferença do jovens guerrilheiros ao seus protestos enquanto tenta fazer perguntas racionais para pessoas que agem seguindo critérios absolutamente irracionais, de ideologia pura.

O mesmo acontece com uma aldeia peruana que é atacada pelo Sendero e se une a eles no julgamento dos "opressores" e, principalmente, de suas condenações. Uma das passagens mais marcantes é de uma idosa pesquisadora européia que tenta explicar para um grupo de guerrilheiros que seu único interesse é científico, de defesa do meio ambiente, e que não se envolve em questões políticas. A frase de seu auxiliar é cortante:

"_ Escutam, mas não ouvem nem querem saber o que se diz a eles (...) Parecem de outro planeta."

Depois de contar toda sua estória a eles e mostrar suas simpatias, tentando persuadi-los pela razão, um guerrilheiro diz a ela: "Esta é uma guerra e você é um peão do inimigo de classe (...) Você nem mesmo percebe que é um instrumento do imperialismo e do Estado burguês. E ainda por cima se dá ao luxo de ter boa consciência, de sentir-se a grande samaritana do Peru. Seu caso é típico".

O principal mito que Llosa ataca não é propriamente o Sendero Luminoso, mas a crença que se pode ter uma atitude neutra diante de uma guerrilha que usa a violência como forma de atuação, uma crença arraigada nos intelectuais de esquerda e que trazem grande desgraças para os que acreditam nessas teses. Ou você faz parte do terror ou é um inimigo, não há meio termo.

Llosa também é implacável em mostrar os métodos e a crueldade da forças policiais e militares do Peru. Não assume a defesa de um grupo diante do outro, para ele, os dois lados da moeda se deixam levar pela irracionalidade e pelo completo desrespeito à dignidade da pessoa humana.

O livro, entretanto, não é apenas sobre o Sendero, mas também sobre certos mitos relacionados aos indígenas. Esqueçam o bom selvagem de Rousseau, o que aparece nos Andes retratado pelo escritor é um povo extremamente místico que vive sob constante medo dos guerrilheiros e das próprias forças estatais. A desconfiança e a falta de solidariedade são traços marcantes que Lituma logo identifica nos habitantes locais enquanto tenta ganhar-lhes a confiança. '

O fio condutor da obra é o desaparecimento de três pessoas que participam da construção da estrada e que aos poucos vai levando Lituma para um universo de supertições e antigos rituais. O ponto chave para entender o alcance do livro é o diálogo entre Lituma e um professor dinamarquês que passava as férias nas serras do Peru há 30 anos. O professor mostra um entendimento da história inca maior do que os próprios peruanos e faz referência a um antigo povo que havia sido conquistado pelos incas.

"_ Melhor dizendo, apagada pelos incas _ corrigiu. _ Eles fizeram uma boa fama e desde o século XVIII todos falam de uns conquistadores tolerantes, que adotavam os deuses dos vencidos. Um grande mito. Como todos os impérios, os incas eram brutais com os povos que não se submetiam a eles docilmente."

Mais adiante o professor acrescenta sobre os huancas:

"Claro que eram umas bestas. Algum povo da antiguidade passaria no teste? Qual deles não foi cruel e intolerante, julgado da perspectiva de hoje?"

Quando perguntam ao professor porque ele continuava a vir ao Peru, o que o país tinha que despertava esta paixão em alguns estrangeiros. O professor responde rindo: "É um país que ninguém entende. E não há nada mais atraente que o indecifrável, para pessoas de países claros e transparentes como o meu".

A um certo ponto, Lituma desiste de tentar levar a justiça os responsáveis pelo desaparecimento dos três homens, quer apenas saber o que aconteceu com eles. É advertido. Desista daquela estória, nada de bom tinha em descobrir o destino deles. Não acredita, continua procurando. Junto com o leitor descobre que aquele tinha sido o melhor conselho que respondeu na obra.

Para não dizer que Llosa fez um livro apenas sobre a violência irracional, também contou uma estória de amor irracional. Um amor altamente improvável entre uma prostituta e o guarda costas de um chefe do crime, uma estória que corre paralela, mas não no espaço e no tempo, com as investigações de Lituma. É essa estória que carrega consigo uma esperança no meio de tanto caos, uma esperança que em "A Casa Verde" Vargas não deu ao leitor.

Por mais irracional que seja o mundo, e talvez até por causa disso, o amor continua como a maior fonte de esperanças para o homem. É a mensagem final que Llosa deixa para seu leitor em mais uma excelente obra que o deixa como talvez o maior escritor da atualidade.

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