sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Espalhando Democracia

O Americano Tranquilo
Graham Greene

Nestes dias em que o Egito encontra-se em convulsão popular, a questão da democracia entra novamente no debate. Estariam os egípcios caminhando para um novo regime, democrático? Ou seria uma revolução para substituir uma ditadura por outra? Qual o papel dos países ricos, especialmente os Estados Unidos? Deve interferir ou deixar que o milenar país caminhe por suas próprias pernas?

Estas questões não são novas e Graham Greene tratou-as com maestria neste romance de 1955 que conta a estória de um correspondente de guerra inglês, Thomas Fowler, e do americano do título, Pyle, na nada trivial disputa pelo amor de uma vietnamita no meio do conflito entre tropas francesas e os comunistas do Vietnã na Indochina.

Fowler representa o imperialismo europeu, que encontrava-se em fase terminal e os tiros franceses eram o patético fim de uma era. Pyle era a nova ordem americana, jovem e vigoroso, defendendo abstratamente a democracia mas sempre pronto a se aliar a um ditador sanguinário, na figura do General Thé, desde que este fosse anti-comunista. Mais do que uma reflexão, Greene percebe que o conflito da Indochina era histórico, tratava-se da passagem de bastão de uma Europa esgotada e sem ter mais em que acreditar para um novo ator global, pronto para justificar crimes em nome de um ideal de democracia.

O que Pyle não consegue entender e Fowler tenta mostrar-lhe é que a democracia não pode ser imposta, coisa que os europeus sempre entenderam, principalmente para uma civilização oriental. O jovem americano estava fascinado pela tese da terceira força, uma liderança local que afastado tanto dos regimes decadentes quanto dos comunistas poderia assumir o controle do país com providencial apoio das grandes potências ocidentais. Não é por acaso que Pyle recusa-se a ver a imoralidade de um ato terrorista que vitima crianças e civis, em nome da democracia algumas mortes são toleráveis.

Greene tem a arguta visão do que viriam a seguir na Indochina e já previa que os aliados vietnamitas acabariam sendo abandonados pelas potências e seriam dizimados pelos comunistas, coisa que realmente aconteceu com a retirada súbita dos americanos sem que houvesse a menor garantia para com aqueles que lutaram por anos acreditando na promessa de paz e democracia do ocidente. Terminaram traídos e massacrados, sob aplausos dos hippies americanos e a grande imprensa, que fecharam os olhos para a tragédia que se seguiu ao fim da Guerra do Vietnã em um dos episódios mais tristes de irresponsabilidade de uma nação no século XX. Uma lição que os americanos querem mostrar que aprenderam, agora no Iraque.

O que fica evidente nesta inspirada obra de Greene é que geopolítica não é coisa fácil, muito menos simples. Teses e ideias prontos não costumam ser confirmados na vida real e chega a ser um crime querer forçar os fatos a se enquadrarem na ideologia, seja ela qual for. Um livro essencial para compreender melhor o que foi o conflito no Vietnã e o grande problema da intervenção em outro país, em outra cultura. Fica claro que a jovem Phuong é um joguete nas mãos dos dois homens, o cínico Fowler e o romântico Pyle, assim como o Vietnã foi um joguete nas mãos tanto das potências ocidentais quanto dos comunistas. O resultado foi a perpetuação da miséria e do sofrimento.

Não há respostas no livro de Graham Greene, mas há muitas perguntas e pontos de partida para quem quer refletir e pensar fora das respostas pré-fabricadas que abundam na grande imprensa mundial. Cabe ao leitor saber até que ponto quer entender a realidade. Como Fowler descobriu no fim, é impossível permanecer para sempre sem se envolver. Nos momentos de grande emoção, acabamos tomando partido, cedo ou tarde.

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