quinta-feira, março 24, 2011

Um pouco sobre democracia

Outro dia, em uma discussão com um colega sobre o Oriente Médio, ele recorreu a um pensamento que volta e meia me é arremessado como uma pedra: para muitos países a ditadura é melhor do que a democracia. Como se alguns povos não merecessem um regime de liberdade.

Em vão tentei argumentar em contrário. Minha inaptidão deveu-se a dois fatores, primeiro porque sou realmente muito ruim para argumentar oralmente, as idéias me fogem o tempo todo; depois, porque ele efetivamente não me deixou falar uma frase completa. Como discutir quando cortam sua palavra o tempo todo? Fazer o mesmo? Por que algumas pessoas não deixam você completar um pensamento?

Eu não acho que seja possível que todos os países se tornem democráticos de uma hora para outra. A democracia exige alguns valores e algumas atitudes, muito mais moralmente e espiritualmente do que propriamente materiais. Chesterton defendia que no estado primitivo, ao contrário do que pensa Hobbes, os povos são democráticos. Como o tempo é que alguns se tornam totalitários porque a sociedade se torna complexa e a democracia para funcionar em sociedades mais complexas exige uma série de requisitos. Para o genial pensador inglês o totalitarismo surge em geral do cansaço com a democracia, quando um povo fica impaciente por respostas rápidas e de saco cheio dessa estória de eterna vigilância. Prefere deixar que uma pessoa concentre o poder e resolva logo os problemas.

Penso como meu colega então? Em alguns países a democracia não funciona? Não propriamente. Para comparar uma coisa com outra, ele parte do princípio que é possível implantar a democracia em qualquer país e que em muitos desses ela não funcionaria. Aqui talvez esteja o fundo da minha discordância, a democracia não pode ser implantada em qualquer país pois ela precisa ter algumas condições prévias como o entendimento de direitos individuais, respeito à pessoa humana, liberdade de expressão e etc. Sem essas condições, há uma falsa democracia.

Sem alongar mais, não acho que o Haiti experimentou a democracia depois da deposição do Baby Doc. Poderia ter de nome, mas o que se viu foi uma mistura de autoritarismo com anarquia, contribuindo para aumentar ainda os problemas herdados da ditadura. Alguns pensadores defendem que a democracia nunca é plenamente realizável pois ela se baseia em um equilíbrio de poderes inalcançável na prática, mas que nações seriam mais democráticas quanto mais buscassem e chegassem perto desse equilíbrio. Pode ser. Realmente não consigo ver no mundo uma nação que seja 100% democrática, mas as diferenças entre uma Cuba e um Estados Unidos é abissal.

Retornando ao Oriente Médio, para terminar onde comecei, não vejo condições a curto ou médio prazo para uma democracia, até porque ela é uma criação ocidental baseada em valores ocidentais. Para que fosse possível, seria necessário que os povos da região incorporassem esses valores. O grande problema é que alguns desses valores são duramente combatidos por muitas lideranças islâmicas. O que estamos vendo no Oriente Médio é uma troca de regimes, provavelmente autoritários e a grande pergunta que devemos fazer é como serão as novas lideranças. Afinal, não há nada tão ruim que não possa piorar e sim, um ditador pode ser pior do que outro.

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