quarta-feira, agosto 24, 2011

Uma obra rara

Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus
Evandro Affonso Ferreira


Um velho escritor sabe que está próximo do fim. Aos 80 anos, passa um domingo em uma cafeteria de um shopping. Chove. Solitário, trava diálogos telepáticos com as pessoas que observa, fugindo de seu próprio isolamento. Sua infelicidade é patente; marca de um trauma que nunca conseguiu superar, o suicídio da própria mãe quando ainda era criança. Pior, a consciência que não houve uma carta, nada, apenas a morte sem um adeus.

Em torno dessa situação, Evandro Affonso Ferreira constrói uma série de reflexões sobre a atitude do homem diante da morte, retomando um pensamento de Camus: a única questão filosófica relevante é o suicídio. O narrador teve uma vida infeliz, não acredita em Deus ou na vida futura, mas afasta qualquer tentação de "cortar a teia da própria vida" como afirma sempre. Por que? Nem ele é capaz de explicar. Um pouco do sentimento que ficou pela perda da mãe, um pouco de medo do desconhecido ou do nada absoluto.

Outros dois suicídios aparecem nos pensamentos do escritor; o da mãe de uma amiga filósofa, fazendo um contraponto ao seu próprio caso pois essa deixara uma carta; e o de uma cliente da cafeteria que teria se apaixonado pela garçonete ruiva. O foco de Evandro nem é tanto os suicidas, mas os que ficam; o abandono dos que são deixados para trás; com ou sem carta.

Utilizando uma estrutura narrativa não usual e um texto bonito, Evandro rompe com a mediocridade e a falsa literatura de pretensos intelectuais como Chico Buarque para dar uma verdadeira aula do que é ser um escritor. Além disso, foge do esquema de exaltação da pobreza e uma falsa brasilidade que se construiu nas últimas décadas, praticamente sepultando a alta cultura no país. Seu tema é universal, é a própria condição humana. O resultado é um livro maduro e de valor. Um raro alento da nossa pobre literatura.


- Posted using BlogPress from my iPad

segunda-feira, agosto 15, 2011

Notas soltas

Lars Von Trier é aquele cineasta que foi execrado por ter declarado ter simpatias por Hitler. O problema é que seus mais feroses detratores não vêem problema nenhum em gente como Oliver Stone, um fã declarado de Stalin, Fidel e que fez um filme glorificando o porco fedorento do Che Quevara. Mais uma demonstração que a esquerda não tem problema nenhum com assassinos, desde que matem pela causa certa. Cada um com seus monstros. Eu fico com nenhum. Quem admira o comunismo não tem padrão moral para criticar o nazismo. São primos siameses.

O editorial da Veja desta semana procura mostrar os partidos da base aliada como corruptos que aproveitam qualquer oportunidade para meter a mão no dinheiro do contribuinte. Até aí tudo bem. O problema é que a revista separa Dilma, seu governo e o PT da lama pintando a presidente como uma protetora do cofre, que se defende da ferocidade "dessa gente". Como se ela não tivesse participado da montagem da pilantragem. Como seu partido não fosse a diração geral da bandalheira generalizada. Como se não tivesse sido eleita por esta podridão.

Por falar em Dilma, toda hora aparece notícia que a presidente está irritada com isso, irritada com aquilo. O que não aparece é que sua irritação é com esses aliados que se deixam apanhar com a mão na bufunfa. Pelo amor de Deus senhores! Sejam profissionais!

A crise atual só mostra que o estado do bem-estar social é insustentável. Quer dizer que morreu? Longe disso. Enquanto os eleitores continuarem acreditando que o governo os protege da ganância dos ricos, políticos irresponsáveis e populistas, como Obama, continuarão sendo eleitos e aumentando ainda mais o poder do estado. E a coisa só vai piorar. Ninguém quer saber da grande verdade: o homem tem que ser o principal responsável por seu próprio sucesso. O resto é conversa.

Antony Daniels diz nas páginas amarelas o que qualquer homem sensato sabe: prisão tem como principal finalidade tirar bandido da rua. Qualquer outra coisa é secundária. A esquerda passou décadas tentando fazer da prisão uma escola para educar marginais. O pior é que conseguiu.

O torcedor do Flamengo entende que alguém torça contra seu time. O mesmo acontece com o torcedor do Fluminense, do Grêmio, do Corinthians. Menos o do Barcelona. Esse acha inconcebível que alguém possa torcer por um time que é mais do que um time de futebol, é um verdadeiro ideal de pureza. Talvez esse seja o principal motivo para tocer contra.


- Posted using BlogPress from my iPad

sábado, agosto 13, 2011

Eterna decadência


Meia-noite em Paris (Midnight in Paris, 2011)

Uma das críticas a um pensamento conservador é que a época anterior foi melhor do que a atual, o que rejeitaria o ideal do progresso. A modernidade foi toda construída em cima da idéia de ruptura com o passado e a crença exatamente oposta, que vivemos o momento mais radiante da humanidade.

Esse é o ponto de partida para o excelente filme de Allen que faz uma homenagem a Paris e tudo que a cidade representa. Gil, um roteirista de sucesso de Hollywood personifica o ideal de uma época de ouro que ja passou e Inez, sua noiva, o ideal do presente. O problema é que a referência de Gil não é sua época, onde ganhar dinheiro é o sinônimo do sucesso, mas um passado idealizado onde a obra do artista é seu grande legado. O filme é também uma reflexão sobre a arte e seu papel no mundo de hoje.

Através da magia, Gil é transportado à meia-noite para a época que sempre glorificou, a década de 20, onde passa a se encontrar e conversar com seus ídolos e referências, casos de Hemingway, Fitzgerald, Bunel, Dali e tantos outros. Conhece e se apaixona por uma namorada de Picasso e é justamente ela que mostra a ele o grande problema de achar que a grande época está em um passado idealizado. A partir desse confronto, Gil tem que lidar com seus próprios conflitos e decidir o rumo de sua vida.

Woody também aproveita para fazer uma crítica mordaz ao intelectualmente correto, uma variante do politicamente correto, na figura do amigo intelectual, ou pseudointelectual, da noiva. Não se deve tratar a arte com exibicionismo ou ferramenta para demonstrar uma pretença superioridade cultural. O verdadeiro sentido da arte está na contemplação e na admiração.


Woody Allen acerta a mão em cheio nesse excelente filme.

sexta-feira, agosto 12, 2011

Custo de Oportunidade


Na Uol:

Mais técnica que política, a presidente Dilma Rousseff quer todas as obras previstas dentro de um cronograma de metas o mais rápido possível. Dos 55 projetos apresentados para captação do dinheiro do Fundo de Garantia, via Caixa Econômica Federal, apenas 38 foram contratados. O governo federal tem R$ 7,8 bilhões para financiar as obras, mas alguns projetos estão sendo reprovados. Mesmo os projetos contratados podem ter sua abrangência reduzida dramaticamente, caso a obra não seja entregue até dezembro de 2013.


Não vou nem entrar no mérito de considerar a presidente mais técnica do que política. Na verdade é difícil definir em qual categoria ela é pior, mas deixa isso para lá.

A questão aqui é o custo de oportunidade, um dos conceitos econômicos mais importantes para compreender o que acontece no mundo atual e talvez por isso mesmo um dos mais desconhecidos.

Custo de oportunidade refere-se a custo que se tem ao empregar um recurso em uma finalidade ao invés de outra. Todo emprego de recurso é uma escolha que exclui todas as outras alternativas. Quando compro bananas, deixo de comprar peras e assim por diante. A questão do custo de oportunidade é se um recurso que emprego não geraria mais benefícios se empregado em alguma das outras alternativas disponíveis. Junte-se o custo de oportunidade com a obviedade que os recursos são escassos e temos a base para analisar as políticas públicas. A pergunta principal deve ser: considerando a escassez de recursos, estou empregando esses recursos na melhor finalidade possível?

Quando anunciou-se que o Brasil seria sede de copa do mundo, no meio de toda aquela euforia e sonhos de grandes estádios, aeroportos, mobilidade urbana e etc, observei na hora: e o custo de oportunidade?

A copa do mundo não criou dinheiro do além. A falácia de que não se usaria dinheiro público só enganou os ingênuos, e são muitos!, mas logo esse discurso foi abandonado. O que vai pagar a copa do mundo é o bom dinheiro do contribuinte, como esses 8 bilhões citados na reportagem.

Esses 8 bilhões, retirados do fundo de garantia, não teriam melhor emprego do que obras para a copa do mundo?

Essa é a pergunta que cada brasileiro deveria estar se fazendo. Quando fizermos isso, estaremos em condições melhores para avaliar políticas públicas e entenderemos finalmente que o estado não é uma máquina de fabricar e distribuir dinheiro, mas uma forma da sociedade alocar seus escassos recursos onde mais precisa.

O resto é fumaça.

quinta-feira, agosto 11, 2011

Notas soltas

O governo Dilma vai se mostrando o que se esperava: lama para todo lado. Nesse ponto não é muito diferente do seu antecessor, só lhe falta o talento de encantar políticos e jornalistas que o sapo barbudo tinha, esse sim uma verdadeira cascavel. A base aliada se desfarela a olhos vistos enquanto que a oposição observa sem saber o que fazer, mesmo depois de oito anos de treinamento. Politicamente o Brasil é um imenso desastre.

Nos Estados Unidos o governo tenta fazer o esforço inútil de usar as receitas fracassadas de Keynes para tentar evitar uma recessão na economia. Não funcionou na Grande Depressão, não está funcionando agora. De quebra tenta dividir com os republicanos seu próprio fracasso. Duas décadas de endividamento das famílias americanas só podiam dar onde deram, no acerto de contas. Contrair empréstimo é trocar o consumo de amanhã pelo consumo de hoje. Hoje foi nas décadas de 80 e 90. Hoje é hora de pagar a conta. E quando milhões passam a cuidar de sua dívidas...

Na Europa, os últimos suspiros dos enganados. Durante algumas décadas os europeus foram enganados por políticos e jornalistas. Acreditaram que não havia problema do estado se endividar como loucos e receberem direitos ilimitados sem uma contra-parte. Pois os estados europeus estão falindo ou tratando de pagar suas contas. Para piorar a baixa natalidade joga todo o sistema previdenciário na lata de lixo. Acabou a farra. Um povo que se afasta de Deus acaba resultando nisso, uma sociedade materialista, dependente do estado, vivendo um eterno "carpe diem", envelhecida, sem filhos, sem futuro. Nietzsche estava certo afinal, Deus está morto e vocês o mataram. Essa é a estória dos próximos 200 anos. Estamos na metade.

O Brasil está endividado. A previdência é insustentável. Formou-se toda uma casta de funcionários públicos privilegiados que são sucedidos por seus próprios filhos, que estudaram nas melhores escolas particulares e nas melhores escolas públicas. Como não precisam trabalhar podem se dedicar aos cursinhos, estudar em tempo integral e passar nos concursos públicos para contar os dias para a aposentadoria. Se aproveitam de um povo pacato que não percebe que fazem o caminho inverso: estudam nas piores escolar públicas, trabalham, estudam nas piores universidades particulares (as públicas não possuem horários convenientes para quem precisa trabalhar), e se iludem tentando passar em um concurso público em uma concorrência desleal. Pior ainda, acham que o causador desses males é a fonte de sua salvação: o governo. Um dia chegaremos lá.

Enquanto isso na Líbia... como é? França, Inglaterra, EUA e ainda estão tomando pau do Kadaffi?

Obama? Como deve ser duro admitir algo que estava na cara o tempo todo! Que vergonha!




- Posted using BlogPress from my iPad