quinta-feira, setembro 22, 2011

Sintomas de uma patologia

Poucas vezes eu vi um exemplo tão contundente de confusão mental misturada com impostura intelectual do que um artigo escrito pelo tal Alex Castro. Já li um ou outro texto deste cidadão e confesso que dessa vez ele se superou. A sua ruptura com a realidade chegou a níveis patológicos.

Ele começa sua peça com a afirmação que existe uma regra simples para avaliar a seriedade de uma pessoa ou grupo de pessoas. Se ela defende algo, alguém deve ser contra. Se é contra algo, alguém deve ser a favor.

Não consigo imaginar um único assunto na face da terra que exista um consenso total. Nem mesmo da própria existência, visto que alguns loucos conseguem duvidar até disso. Por esse critério, não vejo como não chegar a conclusão de que qualquer pessoa no mundo é séria. Se ele chegasse a essa mesma conclusão, seria um daqueles casos que alguém afirma o óbvio e depois fica provando o que a grande maioria não gastaria 2 ou 3 segundos para fazer.

O mais interessante, é que ele não chegou a essa conclusão. Por um raciocínio, se é que podemos chamar assim, torto do início ao fim, chegou a brilhante conclusão que determinados protestos não são coisa de gente séria pois afirmam coisas que ninguém é contra. Para acreditar realmente nisso, ele teria que partir do princípio que existem coisas realmente consensuais na humanidade, o que ele desmente na parte final quando faz uma ladainha em defesa do relativismo, de que não existe verdade, e aquela baboseira toda que só seduz os herdeiros da modernidade.

Mas estou divagando. Retomando o fio, Alex apresenta alguns exemplos de protestos vazios.

O primeiro exemplo são os movimentos pró-vida. Segundo ele, ao pé da letra, só pode ser coisa de gente não séria pois ninguém é contra-vida. No entanto, quando considerarmos que na verdade esse pró-vida significa contra-aborto, faz todo sentido pois existem pessoas que defendem o aborto.

Pois digo que o movimento pró-vida só tem sentido por ser um dos raros exemplos de uma expressão utilizada apropriadamente. Uma pessoa não usa o termo pró-vida por ser contra o aborto; ao contrário, é contra o aborto por ser a favor da vida. Pode-se discutir muita coisa sobre o aborto: se o feto tem consciência, se não seria melhor poupá-lo de um futuro tenebroso, se realmente pode ser chamado de feto. Uma coisa, entretanto, não pode haver discussão, que trata-se de uma vida. Pode-se até duvidar que seja ainda uma pessoa, mas qualquer um que já viu um ultra-som ou utilizou um microscópio vê o que a realidade mostra com toda clareza: ali há uma vida.

Não dá para dizer portando que quem defende o aborto esteja a favor da vida. Está defendendo, consciente ou não, a interrupção de uma vida. Pelo próprio critério de Castro, o movimento pró-vida, com todo rigor semântico é sério pois defende algo que algumas pessoas se colocam contra.

Depois vem com a questão da família. Não faz sentido ser a favor da família pois ninguém é contra. Até parece que não existem pessoas que afirmam que o conceito de família é algo ultrapassado, uma imposição da sociedade. Até parece que regimes totalitários nunca tentaram de todas as maneiras quebrar a estrutura familiar justamente por ser a família o maior fator de coesão social e ameaça ao domínio absoluto. Depois ainda joga a questão do homossexualismo, como se defender a família na verdade seja uma forma de ser contra os homossexuais.

Eu não defendo a família por me sentir ameaçado pelo "casamento" homossexual. Eu defendo a família porque ela está constantemente ameaçada pelo incentivo ao sexo fácil na adolescência com consequências trágicas principalmente para as mulheres pobres, pela banalização do divórcio, pela defesa do amor enquanto durar, pela glorificação do adultério, pela recusa de muitas pessoas em perpetuar sua própria família, e todo esse relativismo moral que tanto mal faz para qualquer grupo humano. Sem contar com as drogas, um verdadeiro destruidor de lares.

Sim, existem os que são contra a família. Como no caso do aborto, usam estratagemas semânticos para não reconhecer, muitas vezes para si mesmos, o que verdadeiramente acreditam.

Por fim, chega onde queria chegar, nos protestos contra a corrupção. Segundo ele, nada pode ser mais vazio do que ser contra a corrupção pois como alguém pode ser pró-corrupção?

Nem vou me ater ao óbvio de se existe corrupção, é porque alguém com certeza é a favor.

Vou falar de outras pessoas que são pró-corrupção:

Quem vota em um presidente que se mostrou corrupto porque ele está do lado certo da força.

Quem vota para presidente em uma pessoa que foi do núcleo duro de um governo corrupto porque esta pessoa está do lado certo ou porque é do sexo certo.

Quem defende que a corrupção é valida desde que seja para fortalecer um projeto de poder.

Quem acha que a corrupção é aceitável se isso gerar dinheiro público para seus cofres, sejam esses cofres de estudantes, sindicalistas ou falsos camponeses.

Quem acha que se usar o dogma da "justiça social" pode-se botar as mãos no dinheiro público, esse nome que o Brasil achou para chamar o dinheiro que foi tomado da população.

Quem não vê problema nenhum em um presidente da república vir a público negar que esteja fazendo uma faxina, que esteja expulsando os corruptos de seu governo.

Alex Castro não é bobo, longe disso. Seu problema é ser esperto demais e achar que é o único. Não é difícil perceber porque nunca estará em um protesto como os que aconteceram desde o 7 de setembro.

Basta ver a citação que faz da presidenta, como prefere dizer na sua gramática relativista. Para Dilma, combater a corrupção são ossos do ofício para um político honesto. Pensem em todas as vezes que usam a expressão ossos do ofício e perceberão o ato falho da mandatária, e do infeliz que a segue.

Por fim, pois já me alonguei demais, uma última palavra, sobre ideologia.

Ideólogo é aquele que monta uma explicação do mundo, simples pois nós humanos não conseguimos fazer coisa melhor, e tenta encaixar o mundo nessa visão. É o famoso louco de Chesterton que tenta colocar o mundo na própria cabeça. Um anti-ideólogo é aquele que faz o contrário, tenta colocar a cabeça no mundo pois acredita que sua explicação do mundo deve estar errada quando constata a realidade.

Não, Alex Castro, não somos todos ideólogos pelo simples motivo que existem pessoas que fazem uma reverência toda especial, uma reverência à realidade. Que sabem que você pode duvidar de tudo, menos do real. Que sabem que são pessoas como você que fazem pessoas de bem ir à rua para defender o que deveria ser óbvio. Mas que não é.

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