segunda-feira, novembro 28, 2011

Uma teoria sofre a filosofia da história e da política

Anamnese - Eric Voegelin
É Realizações

Um dos principais problemas da História, e também da política, é saber onde está a verdade. Mais do que isso, saber se é possível conhecer a verdade. Ou ainda mais, se a verdade efetivamente existe. Em torno dessa problemática, filósofos discutiram ao longo de séculos e a questão continua aberta para muitos. Não para Eric Voegelin que na década de 60 formulou sua teoria "provisória" sobre a história e a política.

Para ele, o cerne estava na consciência do indivíduo; a chave para uma teoria da história e política estava na teoria da consciência, alcançável a partir de método proposto por Platão, o da recordação (anamnese). Voegelin acreditava que a tensão do indivíduo em direção ao fundamento do ser, através de um processo noético, era a base para compreender os fenômenos da ordem do homem na sociedade e na história.

O livro se divide em três partes:

1. Recordações: trata-se da como e quando os problemas da filosofia da consciência primeiro se colocaram para Voegelin. A partir de recordações da infância, em que situações do espaço e tempo se colocaram, o autor passa pela análise dos insights de Husserl e formula a problemática da relação da consciência com a ordem.

2. Experência e História: trata-se de vários estudos intermediários que abordaram problemas que seriam fundamentais para a formulação da teoria final de Voegelin, em que problemas da consciência se colocaram na análise histórica que foram feita de determinados acontecimentos, mas que revelam uma séria de inadequações dos diversos autores aos fundamentos da realidade. O problema da ideologia se coloca e estabelece-se a tensão moderna entre a filosofia noética e a filosofia não-noética, de tipo ideológico, que culmina no fenômeno da segunda realidade, com os trágicos efeitos no século XX.

3. A ordem da consciência: Voegelin trata da formulação de sua filosofia da consciência e como se relaciona com a ordem em uma sociedade no espaço e no tempo. Para ele, encontramos a ordem de nossa existência como seres humanos na ordem da consciência, através do símbolo platônico da recordação, que se realiza pela tensão para o fundamento divino. Trata-se de nos livramos dos detritos de símbolos de revolta contra esses fundamentos, as ideologias, o positivismo, o ceticismo, etc, para encontrarmos em nossa própria consciência, através de um processo de iluminação e diferenciação, o fundamento transcendente do ser.

Eric Voegelin mostra a conexão necessária entre o homem e a realidade do mundo, através de um processo de iluminação, onde se compreende o que se sabe a partir de um tensão na consciência em busca dos fundamentos do ser. Através desse processo, é possível se livrar do lixo simbólico acumulado, seja do dogmatismo ideológico, teológico, positivista, etc, mas que obscurecem a visão da realidade ao criar imagens falsas do fundamento. Seguindo o insight de Platão da formação da sociedade através dos indivíduos reais que a constituem, base para sua filosofia, Eric Voegelin estabelece um método de estudo em que a base está na fidelidade à realidade, ampliando as iluminações de uma noese clássica através da incorporação de novos conceitos que não se colocaram para Platão e Aristóteles, que viviam a experiência das pólis e não chegaram a tratar dos impérios ecumênicos e da formação das massas.


Cada parágrafo do livro teve para mim o poder de um despertar, de uma iluminação, mostrando na prática, na minha experiência real, as idéias que se colocavam. O sentimento que aquilo não só é a verdade, mas como uma verdade que eu já conhecia mas era incapaz de formular, deixaram uma marca em minha consciência. Voegelin construiu um pensamento consistente, aplicando à própria teoria, os conceitos que organizou, mostrando que a fidelidade ao mundo real é a base para uma teoria do conhecimento e que nossa consciência, individual e concreta, é o fundamento para o entendimento no espaço (política) e no tempo ( História).

Os símbolos de dogmatismo ideológico que dominam o pensamento contemporâneo nas sociedades ocidentais expressam não a realidade do conhecimento, mas uma revolta contra ele. Não tentam levar os homens à participação pela persuasão; ao contrário, são desenvolvidos na forma de uma linguagem obsessiva desenhada para prevenir o contato com a realidade pelos homens que se fecharam contra o fundamento.


Não creio que seja capaz de observar os fenômenos políticos e as análises histórias como antes. Trata-se de uma dessas obras que nos transformam interiormente e nos abrem para novos patamares, como chega a afirmar em seu livro em relação ao surgimento da especulação filosófica. Se antes tinha uma intuição que a capacidade de filosofar era essencial para uma compreensão dos fenômenos históricos, que agora entendo como fenômenos da ordem, agora tenho a absoluta certeza que as análises histórias e políticas de nosso tempo são completamente insuficientes, e na maioria das vezes falsas, da realidade da relação do homem com o a sociedade, o mundo e a transcendência.

domingo, novembro 27, 2011

Mensagem para Paulo Freire


De tempos em tempos nos deparamos com uma verdade tão cortante, tão direta, que não conseguimos formulá-la adequadamente. Compreendê-la é um trabalho filosófico, é o buscar em nossa consciência o que já sabemos. Uma das tensões existenciais é conseguir explicar o que ainda não compreendemos direito mas sabemos ser a verdade. Nesses casos, só nos resta repetir essa verdade e torcer para que tenham a mesma iluminação que tivemos.

Hoje me deparei com um pensamento de Constantin Noica. É exatamente o que gostaria de dizer a Paulo Freire. A Piaget. A muita gente que já conheci que pretente saber tudo sobre ensino. Que acha que descobriu os meandros da mente humana.


Antes havia a sofística. Ensinavam às pessoas como pensar sobre o que quer que fosse e responder a quem quer que fosse. Depois, por séculos inteiros, ensinou-se retórica. Ensinavam às crianças como falar, quais são as partes de um discurso, e como dizer algo, mesmo quando não tem nada a dizer. Hoje já não se ensina sofística nem retórica. Mas algo tem que ocupar-lhe o lugar. A humanidade não renuncia assim tão fácil a seu direito de mudar o ensinamento vivo em ensinamento morto. O que lhe tomou o lugar? Acreditei durante muito tempo que era o direito. Não, é a pedagogia.

domingo, novembro 20, 2011

Julgando um livro pela capa


A colecionadora (La Collectionneuse, 1967)
De Eric Rohmer

Adrien se isola anualmente em uma casa à beira mar com o amigo Daniel para praticar a ociosidade, dentro de um ideal de contemplação. Dessa vez, os dois têm que dividir a casa com uma jovem, Haidée, que encarna a nova mulher liberada que surgia no final da década de 60. Com vários amantes em sucessão, a moça aproveita cada minuto das férias para fazer o que mais gosta, colecionar homens. Aos poucos, uma tenção se estabelece entre Adrien e Haidée e a estória gira em torno de um jogo de sedução feito por ele, um experiente colecionador de arte.

A Colecionadora é o quarto filme de Rohmer da série 6 contos morais. A temática dos contos é o dilema de um homem comprometido, Adrien é noivo, diante do surgimento de uma garota atraente e cheia de vida. Adrien se acha um homem bem resolvido, que usa suas férias para ficar sem fazer nada e contemplar o mundo, como se fosse uma espécie de estereótipo de filósofo greto.

Mas Adrien não é nada disso; é um pretensioso e arrogante, duas qualidades que têm origem na vaidade, a mãe de todos os pecados na teologia Cristã. Não é sequer capaz de ficar ocioso, como cobra Daniel, esse sim bem mais autêntico e com menores pretensões intelectuais. O protagonista precisa ficar lendo livros intermináveis, todos da doxa intelectual chique, como Rosseau, para não ter que lidar com os próprios pensamentos.

Nem por um minuto imagina que Haidée, uma jovem sexualmente ativa, colecionadora de homens como diz, poderia resistir a seus encantos se resolvesse seduzi-la. É o que acaba por fazer ao iniciar jogos indiretos de sedução, sempre com uma atitude superior, recorrendo muitas vezes a outros homens, como Daniel e um amigo negociante.

Só que Haidée não é uma jovem qualquer. Um dos erros de Adrien é achar que pelo comportamento dela, a moça seria uma pessoa fútil e de fácil conquista. Muito mais autêntica que os dois homens maduros, ela chega até a ser racional em suas atitudes e acaba dando duras lições em Adrien. O mais interessante é que o sedutor maduro acaba apelando para atitudes e gestos vulgares, enquanto que a jovem permanece serena, chegado algumas vezes ao enfado com os jogos de Adrien.

Rohmer, através de Haidée, dá um tapa na cara em homens como Adrien, que se julgam superiores a mulheres que se mostram liberais em sua vida afetiva. Julgando o livro pela capa, deduz que tratam-se de mulheres fáceis, uma diversão passageira para superar o tédio. O cineasta mostra que a vida é mais complexa do que sugere os lugares-comuns, onde as sutilezas do espírito se mostram presentes nos sentimentos e atitudes das pessoas. Mais um belo filme do grande cineasta francês, o homem que soube como ninguém construir filmes sobre pessoas reais com dilemas reais.

----------------
Now playing: Uriah Heep - July Morning
via FoxyTunes

sábado, novembro 12, 2011

Uma lição econômica na parábola do trabalhador da última hora

Disse Jesus: "O reino dos céus é semelhante a um pai de família que saiu de madrugada, a fim de assalariar trabalhadores para sua vinha. Tendo convencionado com os trabalhadores que pagaria um denário a cada um por dia, mandou-os para a vinha. Saiu de novo à terceira hora do dia e, vendo outros que se conservavam na praça sem fazer coisa alguma, disse-lhes: - Ide também vós outros para a minha vinha e vos pagarei o que for razoável. Eles foram. Saiu novamente à hora sexta e à hora nona do dia e fez o mesmo. Saindo mais uma vez à hora undécima, encontrou ainda outros que estavam desocupados, aos quais disse: - Porque permaneceis aí o dia inteiro sem trabalhar? Disseram eles : - E' que ninguém nos assalariou. Ele então lhes disse: - Ide vós também para a minha vinha. Ao cair da tarde, disse o dono da vinha àquele que cuidava dos seus negócios: - Chama os trabalhadores e paga-lhes, começando pelos últimos e indo até aos primeiros. Aproximando-se então os que só à undécima hora haviam chegado, receberam um denário cada um. Vindo a seu turno os que tinham sido encontrados em primeiro lugar, julgaram que iam receber mais, porém, receberam apenas um denário cada um. Recebendo-o, queixaram-se ao pai de família, dizendo: - Estes últimos trabalharam apenas uma hora e lhes dás tanto quanto a nós, que suportamos o peso do dia e do calor. Mas, respondendo, disse o dono da vinha a um deles: Meu amigo, não te causo dano algum. Não convencionaste comigo receber um denário pelo teu dia? Toma o que te pertence e vai-te; apraz-me a mim dar a este último tanto quanto a ti. Não me é então lícito fazer o que quero? Tens mau olho, porque sou bom? À primeira vista, pode parecer que Jesus, nesta parábola, esteja consagrando a arbitrariedade e a injustiça. De fato, não seria falta de equidade pagar o mesmo salário, tanto aos que trabalham doze horas, como aos que trabalham dois terços, a metade, um terço, ou apenas um duodécimo da jornada? Sê-lo-ia, efetivamente, se todos os trabalhadores tivessem a mesma capacidade e eficiência. Tal, porém, não é o que se verifica. Há operários diligentes, de boa vontade, que, devotando-se de corpo e alma às tarefas que lhes são confiadas, produzem mais e melhor, em menos tempo que o comum, assim como há os mercenários, os que não têm amor ao trabalho, os que se mexem somente quando são vigiados, os que estão de olhos pregados no relógio, pressurosos de que passe o dia, cuja produção, evidentemente, é muito menor que a dos primeiros. Uma vez, pois, que o mérito de cada obreiro seja aferido, não pelas horas de serviço, mas pela produção, que interessa ao dono do negócio saber se, para dar o mesmo rendimento, um precisa de doze horas, outro de nove, outro de seis, outro de três e outro de urna? Malgrado a diversidade das horas de trabalho, a remuneração igual, aqui, é de inteira justiça. Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos, porque muitos são os chamados e poucos os escolhidos “ (Mateus, 20:1 a 16).


A parábola do trabalhador da última hora diz muito sobre as discussões econômicas dos últimos séculos.

O trabalhador da primeira hora não se revolta pelo que recebeu, mas pelo fato de ter recebido tanto quanto aquele que chegou depois. Muitas lições advêm desse episódio.

A primeira é a visão que o salário deveria ser função do trabalho que se teve para produzir um bem. Trata-se da visão que começou com Adam Smith, se aprofundou com Ricardo e atingiu seu ápice com o marxismo.

Jesus rejeita essa teoria até certo ponto racional, pois em tese duas pessoas estariam recebendo o mesmo por esforços diferentes, contrariando a regra da proporcionalidade. Só que na parábola, assim como na vida real, o salário foi fruto de uma livre negociação entre empregador e o empregado, um valor combinado no início do dia.

Outra lição é a revolta pelo recebimento do outro. Os libertários advogam que o livre comércio gera ganho para todos os participantes. Em uma negociação, ou um empreendimento qualquer, uma parte que tinha 10 moedas pode ganhar mais 10; enquanto que uma parte que tinha 100 pode receber 50.

É fácil ver que proporcionalmente o que tinha menos ganhou mais, só que a diferença de posses entre eles aumentou. Racionalmente é possível argumentar que a queixa do primeiro é injusta já que ele dobrou o que tinha. Mas, felizmente, as pessoas não são abstrações matemáticas e sim seres providos de sentimentos, muitas vezes irracionais. A angústia diante da diferença de renda é real e gera o que os economistas chamam de externalidades. O liberalismo não tem solução para isso e nem é seu propósito solucionar todos os problemas de uma sociedade. Deve-se evitar o erro de considerá-lo uma filosofia, como se fosse a antítese do socialismo. A única coisa que o liberalismo defende é que a prática do livre comércio permite a maximização do uso dos recursos por uma sociedade. O problema é que mesmo que essa maximização seja alcançável, não quer dizer que seja ideal.

Jesus repreende o trabalhador pelo sentimento de inveja. O que foi combinado não foi cumprido? Por que a comparação? Em uma visão simplista pode-se dizer que Jesus estava defendendo o liberalismo econômico.

Só que há uma lição subtendida em todo episódio. Uma poderosa lição de caridade.

Fosse o empregador um liberal, teria pago ao trabalhador da décima hora o décimo do salário que pagou ao primeiro. Estaria sendo justo no sentido aristotélico de dar a cada um o que lhe compete, ao usar o critério da proporcionalidade. Estaria sendo razoável. E seria insuficiente.

Quando o empregador dá ao último o mesmo salário que o primeiro, sem precisar fazê-lo, contra qualquer princípio racional, ele está praticando a caridade, está superando o liberalismo e entrando no cristianismo. Aí está o caminho da salvação; aí o cristianismo se mostra em sua amplitude e supera todas as teorias econômicas juntas.

Os governos do mundo podem fazer planos econômicos a cada nova crise, podem buscar soluções globalistas, podem buscar a forma ideal de controlar a economia mundial. No fim, será tudo insuficiente pois as coisas essencialmente racionais são sempre insuficientes.

Apenas quando houver a prática universal da caridade, por ricos e pobres, surgirá a verdadeira solução para os problemas econômicos do mundo. Essa é a resposta que Cristo trouxe e poucos compreendem.

Quer dizer que o mundo tem que se tornar cristão? Não necessariamente, mas tem que praticar essas virtudes paradoxais trazidas por Jesus Cristo, independente da religião que se queira professar. Ninguém precisa ser cristão para ser caridoso, ao contrário. Nos tornamos cristãos ao praticá-la, mesmo que não percebamos.

Utopia? Impossível? Bem, aí temos outra virtude cristã, a esperança. Ela surge exatamente quando se espera o impossível e é mais intensa quanto maior for a impossibilidade.

Os liberais e materialistas vão argumentar, com propriedade, não nego, que isso tudo não é razoável. Que o mundo não funciona dessa maneira. A minha resposta para esses á a terceira virtude cristã: a fé. Acreditar em algo sem uma comprovação científica ou racional é ter fé.

Essas são as três lições que o cristianismo trouxe para resolver os dilemas humanos: fé, esperança, caridade.

Uma última palavra. Nada disso justifica a crença da esquerda que o governo deve realizar a distribuição de renda para alcançar o que chamam de justiça social, que nada mais é do que o igualitarismo. A caridade só existe se praticada livremente. Ao invés de expropriar o que não lhe pertence, os governos deveriam promover ações que incentivassem a prática da caridade. É muito mais eficaz. E barato.

A parábola do trabalhador da última hora, como todas as parábolas de Jesus, possuem camadas diversas de entendimento. No plano econômico, a mensagem é que ricos e pobres devem praticar a caridade uns com os outros. Infelizmente insistimos em caminhar no sentido contrário e dar ouvidos ao trabalhador da primeira hora em sua ira, bastante racional, mas injusta, para com o seu próximo. Por isso Jesus disse: ouçam os que tiverem ouvidos para ouvir.

sábado, novembro 05, 2011

Top 5 - Uriah Heep Albuns

  1. Magicians Birthday: sempre foi meu favorito. Foi a maturidade da formação clássica da banda com Byron, Hensley, Kerslake, Box e Thain. Começa com a maravilhosa Sunrise, ainda tem a minha favorita, Blind Eye, a balada definitiva, Rain, e a grandiosa faixa título.
  2. Demons and Wizards: difícil diferenciar de Magicians, foi o primeiro album com a formação clássica e do mesmo nível do seu sucessor. Escolher entre os dois albuns é apenas uma questão de gosto. Tenho uma interpretação toda peculiar de The Wizard. Prestem atenção para os versos "He was the wizard of a thousand kings ", "He told me tales and he drank my wine ", "So spoke the wizard in his mountain home". Um mágico de mil reis, vinho, montanha. Sacaram?
  3. Sweet Freedon: Forma a trinca de ouro com MB e DW, embora em um patamar ligeiramente inferior. Destaques para Dreamer, Stealin', Sweet Freedon e Pilgrim.
  4. Look At Yourself: Tem July Morning. Só por isso já merecia um lugar na lista.
  5. Wonderwold: Último com o melódico baixista Gary Thain. Fim da era de ouro da banda.

terça-feira, novembro 01, 2011

Lula e o câncer

Os últimos dias tem sido interessantes para diagnosticar e estudar o estado patológico da discussão política no Brasil. O ponto inicial foi a divulgação que o ex-presidente está com câncer. A partir daí, abriram uma verdadeira caixa de pandora onde entrou um pouco de tudo: exploração política, ressentimentos pela internet, associação da doença com o fumo, vingança dos deuses, o papa, a formação do mito, sus, direito de expressão, etc.

Até agora fiquei bem quieto no meu canto, até porque realmente não tenho muito o que dizer. Mais um indivíduo enfrenta o problema de uma doença grave e terá um longo caminho pela frente. Sim, não é um indivíduo qualquer, é o ex-presidente da república, um quase mito, um herói da esquerda e etc. Mas no fundo, tirado todos adjetivos, resta um ser humano diante de si mesmo.

Acho que a vida política de Lula, culminando com os longos 8 anos na presidência, foi um profundo mal para o país e que levaremos algumas gerações para consertar o estrago. Não tanto o econômico e político, inclusive os danos à uma democracia que ainda se consolida e que recuou sob comando do lulismo, mas na alma do brasileiro. Lula aprofundou no espírito brasileiro a idéia da aversão ao conhecimento, o direito ao assistencialismo, o ressentimento diante do sucesso do outro. Isso não vai acabar de uma hora para outra: é a principal e mais danosa marca de sua gestão. Infelizmente ainda vamos passar algum tempo mergulhados na ilusão da luta de classes marxista, vivendo o século XXI com a cabeça no XIX.

O cristianismo é um paradoxo, como dizia Chesterton. Ao mesmo tempo que o pecado deve ser combatido com vigor, o pecador deve ser perdoado infinitamente. Um dia Lula terá que acertar as contas de tudo que fez e deixou de fazer com o enorme poder que teve nas mãos, mas não cabe a ninguém acertar essas contas com ele. Não se deve odiar a sua pessoa, da mesma maneira que não se deve odiar a ninguém. Mas sua obra pode ser condenada, e odiada, com todas as forças; ele vai responder por elas.

Não adianta pedir que ele e seu bando não usem a doença como dividendos políticos. Não há nada que o petismo não use para reforçar sua causa. Foi assim com Dilma, será com Lula. Nesse instante algum grupo no partido está fazendo a gestão dos ativos que poderão ser extraídos da " luta" do nosso guia. Faz parte do DNA dos ideólogos e no fundo o petismo-lulismo é isso mesmo, uma ideologia. Claro que boa parte do jornalismo, formados naquele ambiente que estamos vendo na USP e se reproduz Brasil a fora, das ciências sociais, vai entrar no jogo ajudando a reforçar a imagem de mito de Lula. A nota sobre a oração do papa já demonstra isso.

Aliás, o que queriam que o papa fizesse?

Por coincidência, o novo embaixador brasileiro no Vaticano tinha uma audiência com o papa logo depois do anúncio. Diante da informação da doença do brasileiro, o que o papa poderia ter dito de diferente? Meus pêsames? Problema do Lula? Quero que arda no inferto? Fez a única coisa que poderia ter feito, disse que oraria por ele. Um bom cristão deve orar por qualquer um, é o cerne da doutria, amar ao próximo como a si mesmo. O dia que um papa disser que deseja o mal de alguém, a Igreja pode fechar as portas porque é uma Igreja morta.

Lula está doente. Que seja uma melhor pessoa na doença do que foi na saúde. Esse é meu desejo para o ex-presidente. Talvez a doença o ensine a ser mais humilde, talvez não, mas com certeza vai mostrá-lo que todos temos nossos limites. Até mesmo um mito.