domingo, novembro 20, 2011

Julgando um livro pela capa


A colecionadora (La Collectionneuse, 1967)
De Eric Rohmer

Adrien se isola anualmente em uma casa à beira mar com o amigo Daniel para praticar a ociosidade, dentro de um ideal de contemplação. Dessa vez, os dois têm que dividir a casa com uma jovem, Haidée, que encarna a nova mulher liberada que surgia no final da década de 60. Com vários amantes em sucessão, a moça aproveita cada minuto das férias para fazer o que mais gosta, colecionar homens. Aos poucos, uma tenção se estabelece entre Adrien e Haidée e a estória gira em torno de um jogo de sedução feito por ele, um experiente colecionador de arte.

A Colecionadora é o quarto filme de Rohmer da série 6 contos morais. A temática dos contos é o dilema de um homem comprometido, Adrien é noivo, diante do surgimento de uma garota atraente e cheia de vida. Adrien se acha um homem bem resolvido, que usa suas férias para ficar sem fazer nada e contemplar o mundo, como se fosse uma espécie de estereótipo de filósofo greto.

Mas Adrien não é nada disso; é um pretensioso e arrogante, duas qualidades que têm origem na vaidade, a mãe de todos os pecados na teologia Cristã. Não é sequer capaz de ficar ocioso, como cobra Daniel, esse sim bem mais autêntico e com menores pretensões intelectuais. O protagonista precisa ficar lendo livros intermináveis, todos da doxa intelectual chique, como Rosseau, para não ter que lidar com os próprios pensamentos.

Nem por um minuto imagina que Haidée, uma jovem sexualmente ativa, colecionadora de homens como diz, poderia resistir a seus encantos se resolvesse seduzi-la. É o que acaba por fazer ao iniciar jogos indiretos de sedução, sempre com uma atitude superior, recorrendo muitas vezes a outros homens, como Daniel e um amigo negociante.

Só que Haidée não é uma jovem qualquer. Um dos erros de Adrien é achar que pelo comportamento dela, a moça seria uma pessoa fútil e de fácil conquista. Muito mais autêntica que os dois homens maduros, ela chega até a ser racional em suas atitudes e acaba dando duras lições em Adrien. O mais interessante é que o sedutor maduro acaba apelando para atitudes e gestos vulgares, enquanto que a jovem permanece serena, chegado algumas vezes ao enfado com os jogos de Adrien.

Rohmer, através de Haidée, dá um tapa na cara em homens como Adrien, que se julgam superiores a mulheres que se mostram liberais em sua vida afetiva. Julgando o livro pela capa, deduz que tratam-se de mulheres fáceis, uma diversão passageira para superar o tédio. O cineasta mostra que a vida é mais complexa do que sugere os lugares-comuns, onde as sutilezas do espírito se mostram presentes nos sentimentos e atitudes das pessoas. Mais um belo filme do grande cineasta francês, o homem que soube como ninguém construir filmes sobre pessoas reais com dilemas reais.

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