terça-feira, novembro 01, 2011

Lula e o câncer

Os últimos dias tem sido interessantes para diagnosticar e estudar o estado patológico da discussão política no Brasil. O ponto inicial foi a divulgação que o ex-presidente está com câncer. A partir daí, abriram uma verdadeira caixa de pandora onde entrou um pouco de tudo: exploração política, ressentimentos pela internet, associação da doença com o fumo, vingança dos deuses, o papa, a formação do mito, sus, direito de expressão, etc.

Até agora fiquei bem quieto no meu canto, até porque realmente não tenho muito o que dizer. Mais um indivíduo enfrenta o problema de uma doença grave e terá um longo caminho pela frente. Sim, não é um indivíduo qualquer, é o ex-presidente da república, um quase mito, um herói da esquerda e etc. Mas no fundo, tirado todos adjetivos, resta um ser humano diante de si mesmo.

Acho que a vida política de Lula, culminando com os longos 8 anos na presidência, foi um profundo mal para o país e que levaremos algumas gerações para consertar o estrago. Não tanto o econômico e político, inclusive os danos à uma democracia que ainda se consolida e que recuou sob comando do lulismo, mas na alma do brasileiro. Lula aprofundou no espírito brasileiro a idéia da aversão ao conhecimento, o direito ao assistencialismo, o ressentimento diante do sucesso do outro. Isso não vai acabar de uma hora para outra: é a principal e mais danosa marca de sua gestão. Infelizmente ainda vamos passar algum tempo mergulhados na ilusão da luta de classes marxista, vivendo o século XXI com a cabeça no XIX.

O cristianismo é um paradoxo, como dizia Chesterton. Ao mesmo tempo que o pecado deve ser combatido com vigor, o pecador deve ser perdoado infinitamente. Um dia Lula terá que acertar as contas de tudo que fez e deixou de fazer com o enorme poder que teve nas mãos, mas não cabe a ninguém acertar essas contas com ele. Não se deve odiar a sua pessoa, da mesma maneira que não se deve odiar a ninguém. Mas sua obra pode ser condenada, e odiada, com todas as forças; ele vai responder por elas.

Não adianta pedir que ele e seu bando não usem a doença como dividendos políticos. Não há nada que o petismo não use para reforçar sua causa. Foi assim com Dilma, será com Lula. Nesse instante algum grupo no partido está fazendo a gestão dos ativos que poderão ser extraídos da " luta" do nosso guia. Faz parte do DNA dos ideólogos e no fundo o petismo-lulismo é isso mesmo, uma ideologia. Claro que boa parte do jornalismo, formados naquele ambiente que estamos vendo na USP e se reproduz Brasil a fora, das ciências sociais, vai entrar no jogo ajudando a reforçar a imagem de mito de Lula. A nota sobre a oração do papa já demonstra isso.

Aliás, o que queriam que o papa fizesse?

Por coincidência, o novo embaixador brasileiro no Vaticano tinha uma audiência com o papa logo depois do anúncio. Diante da informação da doença do brasileiro, o que o papa poderia ter dito de diferente? Meus pêsames? Problema do Lula? Quero que arda no inferto? Fez a única coisa que poderia ter feito, disse que oraria por ele. Um bom cristão deve orar por qualquer um, é o cerne da doutria, amar ao próximo como a si mesmo. O dia que um papa disser que deseja o mal de alguém, a Igreja pode fechar as portas porque é uma Igreja morta.

Lula está doente. Que seja uma melhor pessoa na doença do que foi na saúde. Esse é meu desejo para o ex-presidente. Talvez a doença o ensine a ser mais humilde, talvez não, mas com certeza vai mostrá-lo que todos temos nossos limites. Até mesmo um mito.

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