sábado, novembro 12, 2011

Uma lição econômica na parábola do trabalhador da última hora

Disse Jesus: "O reino dos céus é semelhante a um pai de família que saiu de madrugada, a fim de assalariar trabalhadores para sua vinha. Tendo convencionado com os trabalhadores que pagaria um denário a cada um por dia, mandou-os para a vinha. Saiu de novo à terceira hora do dia e, vendo outros que se conservavam na praça sem fazer coisa alguma, disse-lhes: - Ide também vós outros para a minha vinha e vos pagarei o que for razoável. Eles foram. Saiu novamente à hora sexta e à hora nona do dia e fez o mesmo. Saindo mais uma vez à hora undécima, encontrou ainda outros que estavam desocupados, aos quais disse: - Porque permaneceis aí o dia inteiro sem trabalhar? Disseram eles : - E' que ninguém nos assalariou. Ele então lhes disse: - Ide vós também para a minha vinha. Ao cair da tarde, disse o dono da vinha àquele que cuidava dos seus negócios: - Chama os trabalhadores e paga-lhes, começando pelos últimos e indo até aos primeiros. Aproximando-se então os que só à undécima hora haviam chegado, receberam um denário cada um. Vindo a seu turno os que tinham sido encontrados em primeiro lugar, julgaram que iam receber mais, porém, receberam apenas um denário cada um. Recebendo-o, queixaram-se ao pai de família, dizendo: - Estes últimos trabalharam apenas uma hora e lhes dás tanto quanto a nós, que suportamos o peso do dia e do calor. Mas, respondendo, disse o dono da vinha a um deles: Meu amigo, não te causo dano algum. Não convencionaste comigo receber um denário pelo teu dia? Toma o que te pertence e vai-te; apraz-me a mim dar a este último tanto quanto a ti. Não me é então lícito fazer o que quero? Tens mau olho, porque sou bom? À primeira vista, pode parecer que Jesus, nesta parábola, esteja consagrando a arbitrariedade e a injustiça. De fato, não seria falta de equidade pagar o mesmo salário, tanto aos que trabalham doze horas, como aos que trabalham dois terços, a metade, um terço, ou apenas um duodécimo da jornada? Sê-lo-ia, efetivamente, se todos os trabalhadores tivessem a mesma capacidade e eficiência. Tal, porém, não é o que se verifica. Há operários diligentes, de boa vontade, que, devotando-se de corpo e alma às tarefas que lhes são confiadas, produzem mais e melhor, em menos tempo que o comum, assim como há os mercenários, os que não têm amor ao trabalho, os que se mexem somente quando são vigiados, os que estão de olhos pregados no relógio, pressurosos de que passe o dia, cuja produção, evidentemente, é muito menor que a dos primeiros. Uma vez, pois, que o mérito de cada obreiro seja aferido, não pelas horas de serviço, mas pela produção, que interessa ao dono do negócio saber se, para dar o mesmo rendimento, um precisa de doze horas, outro de nove, outro de seis, outro de três e outro de urna? Malgrado a diversidade das horas de trabalho, a remuneração igual, aqui, é de inteira justiça. Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos, porque muitos são os chamados e poucos os escolhidos “ (Mateus, 20:1 a 16).


A parábola do trabalhador da última hora diz muito sobre as discussões econômicas dos últimos séculos.

O trabalhador da primeira hora não se revolta pelo que recebeu, mas pelo fato de ter recebido tanto quanto aquele que chegou depois. Muitas lições advêm desse episódio.

A primeira é a visão que o salário deveria ser função do trabalho que se teve para produzir um bem. Trata-se da visão que começou com Adam Smith, se aprofundou com Ricardo e atingiu seu ápice com o marxismo.

Jesus rejeita essa teoria até certo ponto racional, pois em tese duas pessoas estariam recebendo o mesmo por esforços diferentes, contrariando a regra da proporcionalidade. Só que na parábola, assim como na vida real, o salário foi fruto de uma livre negociação entre empregador e o empregado, um valor combinado no início do dia.

Outra lição é a revolta pelo recebimento do outro. Os libertários advogam que o livre comércio gera ganho para todos os participantes. Em uma negociação, ou um empreendimento qualquer, uma parte que tinha 10 moedas pode ganhar mais 10; enquanto que uma parte que tinha 100 pode receber 50.

É fácil ver que proporcionalmente o que tinha menos ganhou mais, só que a diferença de posses entre eles aumentou. Racionalmente é possível argumentar que a queixa do primeiro é injusta já que ele dobrou o que tinha. Mas, felizmente, as pessoas não são abstrações matemáticas e sim seres providos de sentimentos, muitas vezes irracionais. A angústia diante da diferença de renda é real e gera o que os economistas chamam de externalidades. O liberalismo não tem solução para isso e nem é seu propósito solucionar todos os problemas de uma sociedade. Deve-se evitar o erro de considerá-lo uma filosofia, como se fosse a antítese do socialismo. A única coisa que o liberalismo defende é que a prática do livre comércio permite a maximização do uso dos recursos por uma sociedade. O problema é que mesmo que essa maximização seja alcançável, não quer dizer que seja ideal.

Jesus repreende o trabalhador pelo sentimento de inveja. O que foi combinado não foi cumprido? Por que a comparação? Em uma visão simplista pode-se dizer que Jesus estava defendendo o liberalismo econômico.

Só que há uma lição subtendida em todo episódio. Uma poderosa lição de caridade.

Fosse o empregador um liberal, teria pago ao trabalhador da décima hora o décimo do salário que pagou ao primeiro. Estaria sendo justo no sentido aristotélico de dar a cada um o que lhe compete, ao usar o critério da proporcionalidade. Estaria sendo razoável. E seria insuficiente.

Quando o empregador dá ao último o mesmo salário que o primeiro, sem precisar fazê-lo, contra qualquer princípio racional, ele está praticando a caridade, está superando o liberalismo e entrando no cristianismo. Aí está o caminho da salvação; aí o cristianismo se mostra em sua amplitude e supera todas as teorias econômicas juntas.

Os governos do mundo podem fazer planos econômicos a cada nova crise, podem buscar soluções globalistas, podem buscar a forma ideal de controlar a economia mundial. No fim, será tudo insuficiente pois as coisas essencialmente racionais são sempre insuficientes.

Apenas quando houver a prática universal da caridade, por ricos e pobres, surgirá a verdadeira solução para os problemas econômicos do mundo. Essa é a resposta que Cristo trouxe e poucos compreendem.

Quer dizer que o mundo tem que se tornar cristão? Não necessariamente, mas tem que praticar essas virtudes paradoxais trazidas por Jesus Cristo, independente da religião que se queira professar. Ninguém precisa ser cristão para ser caridoso, ao contrário. Nos tornamos cristãos ao praticá-la, mesmo que não percebamos.

Utopia? Impossível? Bem, aí temos outra virtude cristã, a esperança. Ela surge exatamente quando se espera o impossível e é mais intensa quanto maior for a impossibilidade.

Os liberais e materialistas vão argumentar, com propriedade, não nego, que isso tudo não é razoável. Que o mundo não funciona dessa maneira. A minha resposta para esses á a terceira virtude cristã: a fé. Acreditar em algo sem uma comprovação científica ou racional é ter fé.

Essas são as três lições que o cristianismo trouxe para resolver os dilemas humanos: fé, esperança, caridade.

Uma última palavra. Nada disso justifica a crença da esquerda que o governo deve realizar a distribuição de renda para alcançar o que chamam de justiça social, que nada mais é do que o igualitarismo. A caridade só existe se praticada livremente. Ao invés de expropriar o que não lhe pertence, os governos deveriam promover ações que incentivassem a prática da caridade. É muito mais eficaz. E barato.

A parábola do trabalhador da última hora, como todas as parábolas de Jesus, possuem camadas diversas de entendimento. No plano econômico, a mensagem é que ricos e pobres devem praticar a caridade uns com os outros. Infelizmente insistimos em caminhar no sentido contrário e dar ouvidos ao trabalhador da primeira hora em sua ira, bastante racional, mas injusta, para com o seu próximo. Por isso Jesus disse: ouçam os que tiverem ouvidos para ouvir.

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