quinta-feira, dezembro 29, 2011

Em viagem, com minha família (o mais importante de tudo)

Fim de ano, férias, uma boa hora para viajar com a família.

Lembro nitidamente da minhas férias com meus pais quando era criança; principalmente quando acampávamos. O mais importante era estarmos todos juntos e ao mesmo tempo distante desse dia-a-dia que consome tanto o nosso tempo; muito por culpa nossa, confesso. Aquele velho problema das prioridades. Se tudo é importante, nada é importante. Quando viajamos, deixamos tudo isso para trás e, principalmente quando visitamos lugares novos, sozinhos, ganhamos um tempo precioso para nós como grupo, como família.

Chesterton estava certo, como sempre. Quem foge da própria família, foge do mundo. É muito fácil conviver com quem sempre concorda contigo, que tem os mesmos pensamentos. Imaginem como seria fossemos colocados, por acaso, no meio de um grupo estranho, com interesses e aptidões muito diversas. O que faríamos? Tentaríamos conviver ou sairiamos correndo?

Pois isso aconteceu conosco no dia que nascemos. Fomos colocados em um grupo aleatório, com diferentes personalidades, pelo menos aparentemente. Nossa família nada mais é do que uma amostra da humanidade, com muitas das suas virtudes e pecados. Quer ser tolerante? Conviva com sua própria família, pois estará convivendo com o mundo. Fugir dela é a mesma coisa que dar as costas à humanidade; pior ainda, de fugir de nós mesmos, pois no fundo sabemos que ninguém é mais difícil de enganar do que quem nos acompanhou desde a infância, que viu o que temos de melhor e de pior.

A primeira grande alieanção que uma pesso tem é se isolar da sua família. Tudo que vem a partir daí é um enorme conto de fadas. Ou pesadelo. Depente do ponto de vista.

Pensem a respeito.

E boas férias!


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domingo, dezembro 18, 2011

Cultura que liberta

Minhas Tardes com Margueritte (FRA, 2010)


Margueritte: você tem uma excelebnte memória auditiva.
Germain: Não, é que eu lembro tudo o que ouço.

Germain é um homem de 50 anos, criado sem afeto de sua mãe, que enfrentou a educação com sofrimento. O resultado é uma falta de cultura que se reflete em um vocabulário chulo e limitado; assimo como sua capacidade de compreender as situações reais do dia a dia. De bom coração, atrai ao mesmo tempo bons amigos e outros que gostam de ridicularizá-lo.

Sua vida começa a mudar quando conhece Margueritte, uma simpática velhinha que passa a dividir com ele, todas as tardes em uma praça, sua paixão pela literatura. Um novo mundo abre para Germain, o do poder de sua imaginação e, sobretudo, de sua capacidade de expressão.

Não pude deixar de lembrar da polêmica do início do ano em que uma professora, discípula do tal Marcos Bagno, escreveu um livro didático que defende a tese estúpida que não existe uma gramática correta, que a pessoa deve escrever da mesma forma que se expresssa. Tudo derivada das idéias escravizantes de Paulo Freire, em que o homem se transforma em uma espécie de prisioneiro de sua cultura local, pendendo sua capacidade de transcender o espaço e o tempo.

Margueritte dá um tapa na cara de toda essa gente ao mostrar para Germain que o desenvolvimento de sua capacidade de imaginação e de expressão, fruto de uma cultura literária, é um poderoso instrumento de ordenação de nossa existência na sociedade e no mundo. Só conseguimos pensar o que conseguimos expressar, coisa que os filósofos antigos já ensinavam há muito tempo. Limitar o homem ao seu contexto social é torná-lo prisioneiro de sua situação particular e garantir que nunca irá ultrapassá-la. Essa idéia simplesmente criminosa de alguns ideólogos fizeram da educação no Brasil essa coisa eu temos hoje, com consequências nefastas para a capacidade de entendimento da realidade por parte de grande parte de nossa sociedade. O Brasil é a reunião de um monte de Garmains, e não estou falando de pobreza. Temos Germains em todas as camadas da sociedade, e isso inclui, infelizmente, a falsa intelectualidade que existe no país.

Outro tema interessante do filme é a relação de Germain com sua mãe, uma mulher amarga incapaz de demonstrar qualquer afeto pelo filho, fazendo-o acreditar que jamais fora amado. Existem pessoas que realmente possuem enorme incapacidade de demonstrar empatia com os outros, o que não necessariamente significa um sentimento de animosidade. Na verdade, Germain também é prisioneiro de um círculo de agressão mútua que se formou, tornando-se incapaz de se aproximar dela. Curiosamente, os dois expressam da mesma maneira o que verdadeiramente sentem, a mão quando o amante agride Germain, e ele quando um amigo fala mal ela.

Minhas tardes com Margueritte é um belo filme que retrata como a compreensão da realidade é o ponto de partida para que uma pessoa possa transcender as limitações do espaço e o tempo, ordenando sua vida de acordo com princípios mais estáveis e corretos que já carregamos dentro de nós. Germain não se torna uma pessoa boa pela cultura, isso ele já carregava com ele; o que encontra é a possibilidade de dar a correta expressão de seus sentimentos morais e com isso dar sua parcela de ajuda aos que convivem com ele, tornando a sociedade um pouco melhor do que era.

segunda-feira, dezembro 12, 2011

André Petry e suas bobagens

Leitores da Veja, se querem acompanhar o que acontece na política americana fujam da própria revista. É impossível entender o que está acontecendo por lá tendo o André Petry como correspondente. Prefiram até a CNN, aquele orgão de propaganda do Partido Democrata, do que o nosso glorioso "enviado especial".

Na Veja dessa semana, ele assina três reportagens.

Na primeira, ele analisa a campanha republicana e, em especial, a disparada de Newt Gingrich nas pesquisas. Seus argumentos:
  1. "Só a desoladora falta de opções explica a montanha-russa em que se transformaram as primárias do Partido Republicano". Sim, a falta de opção pode causar esses movimentos, mas existem inúmeros outros que também poderiam explicá-lo. Nas eleições brasileiras de 2002 Roseana Sarney também disparou na corrida e foi abatida pela foto de uma montanha de dinheiro; depois foi Ciro Gomes com uma série de declarações pouco felizes. Lula acabou eleito. Ninguém jamais disse que aquelas alterações foram devidas a "uma desoladora falta de opções". Está acontecendo mais ou menos isso nos EUA: Rick Perry derrapou feio em vários debates e passou a imagem que seria facilmente batido por Obama; Cain se enrolou todo para tentar se explicar na questão de assédio sexual e foi ainda pior quando começou a falar de política externa. Pode ser falta de opções? Pode, mas não é a única explicação possível. Petry escolheu a mais conveniente e, logicamente, não apresentou justificativa.
  2. "empurrou o partido para o abismo quando insistiu no impeachment de Clinton". Petry esqueceu de dizer que os republicanos ficariam com o controle da casa até 2006, sendo que o impeachment foi em 1998. Pior, pesquisas mostraram que embora os americanos tenham se dividido sobre o impedimento, a imagem de Clinton foi arrasada, impedindo-o de trabalhar por Al Gore em 2000, o que pode ter levado Bush à presidência.
  3. "... por causa das travessuras sexuais". Mentira. Clinton recebeu o impedimento na Casa porque cometeu perjúrio ao mentir sob juramento, uma coisa que os americanos levam a sério. Também recebeu o impedimento por obstrução à justiça.
  4. "é por isso que os democratas de Obama estão torcendo para que Gingrich seja o adversário em 2012". Humm. Se os democratas, e Petry, estivessem achando realmente isso, não estariam dizendo em voz alta, não é?
Na segunda matéria, ele fala da condenação do ex-governador do Illinois a 14 anos de prisão. Sabe como saber o partido dele? Fácil. Petry não diz na matéria, então só pode ser democrata. Fui conferir, bingo! Afinal, se fosse republicano, estaria no lead. Jornalista de esquerda é tão previsível. Não é à toa que o mensalão tem nome de mensalão e existe uma coisa chamado mensalão do DEM. Alguém ouviu a expressão mensalão do PT na imprensa? Ou do Lula?

Na última, ele fala da perda do cargo do chefe da aviação civil americana por dirigir embriagado. Petry aproveita para fazer um paralelo com Aécio Neves. Quem me conhece sabe que não tenho simpatia nenhuma pelo mineiro, a quem atribuo parte da responsabilidade da permanência do PT no governo. Só que a lei brasileira é clara quando diz que ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo. Não vejo nenhum problema em emendar a constituição e tirar mais esse instrumento para proteger criminosos, mas enquanto isso não é feito, Aécio não infringiu lei nenhuma e nem pode-se dizer que estava embriagado.

André Petry só desperta minha curiosidade por sua capacidade de ver tudo torto. Quanto estou na dúvida de algo, sempre procuro saber o que pensa. Dá um clareada e tanto nos meus pensamentos!

sábado, dezembro 03, 2011

Irma La Douce

Direção: Billy Wilder
Com: Jack Lemmon, Shirley Maclaine
EUA, 1963

Um policial honesto, e um tanto ingênuo, recebe o encargo de patrulhar uma rua de prostituição em Paris onde as prostitutas, cafetões, clientes e polícia vivem em perfeita simbiose. Nestor acaba fora da polícia, se torna cafetão de Irma e se apaixona por ela, inventando um cliente inglês rico, o L
ord X, para tira-la das ruas.

Divertida comédia que trata, com muita sensibilidade, sem moralismo, das prostituição. Sim, trata-se de uma visão romanceada, que evita as partes espinhosas da profissão, mas que foca na relação entre duas pessoas que estão em campos opostos da sociedade. A tensão entre o caráter rigidamente honesto de Nestor e a justificativa moral de Irma acaba levando-o a inventar o Lord X. Moustache, o dono do bar, pontua todos os acontecimentos, funcionando como uma espécie de alter ego do autor. Sua descrição econômica do fluxo do dinheiro na prostituição é por si só um achado.

Em um tempo em que os diálogos eram a grande arma de um autor, Irma La Douce é especialmente feliz por conta com diálogos afiados, além de um excelente trabalho de Lemmon e Maclaine, que talvez nunca tenha estado tão linda em um filme. Definitivamente um filme que vale a pena assistir.





Quotes:


Moustache: To be overly honest in a dishonest world is like plucking a chicken against the wind... you'll only wind up with a mouth full of feathers.

Moustache: Shows you the kind of world we live in. Love is illegal - but not hate. That you can do anywhere, anytime, to anybody. But if you want a little warmth, a little tenderness, a shoulder to cry on, a smile to cuddle up with, you have to hide in dark corners, like a criminal. Pfui.


Irma: This is nota a job, its a profession



sexta-feira, dezembro 02, 2011

O homem não é produto do meio, já ensinava um grande romancista inglês

Oliver Twist
Charles Dickens, 1938

Um orfão é criado em um ambiente de pobreza e opressão, por fim passa a viver com um grupo de ladrões, que procuram iniciá-lo em uma vida de crimes. Sem nenhuma referência positiva, sem perspectiva de futuro, que escolha tem ele? Nada mais natural e justificado que se transformasse em um criminoso.

Mas aí não seria Dickens; não seria um autor em contato com a essência da alma humana, com a realidade das coisas. Para Dickens, essa essência se traduz na capacidade de tomar decisões morais, de não ser escravo das situações em que se está vivendo, em transcender o espaço tempo. Isso acontece quando temos fidelidade à realidade, quando temos respeito pelos fundamentos eternos que não estão sujeito a época em que se vive.

Oliver Twist tem sua fonte de moral na Bíblia e nos princípios cristãos, mesmo que ensinado por religiosos hipócritas. A mensagem é mais poderosa do quem a transmite. Para o garoto com 12 anos, roubar era um pecado e quando percebeu em que estava se metendo ficou horrorizado e negou-se a participar. A alma de uma pessoa é seu último refúgio, seu santuário diante da opressão que se está sujeito. Para um cientista moderno, a atitude de Oliver é inconcebível, pois aceitá-la seria negar a hipótese da origem social do crime, esse terrível engano que está na origem na explosão de criminalidade em muitos lugares no mundo. Fica claro que Dickens rejeita a princípio do homem como produto do meio. O meio tem grande influência, mas não define o caráter de uma pessoa. O homem é um ser capaz de transcender sua situação concreta atual e se posicionar no plano da eternidade. Dickens acredita que existem verdades universais imutáveis, que valem desde o início dos tempos e estarão conosco enquanto durar o mundo.

Alguns personagens memoráveis habitam as páginas do romance. Do lado bom, o Sr Brownlow, Rose, Sra Beldwin, Harry. Do lado ruim, Silkes, Brundle e, principalmente, um dos melhores vilões já criados, o judeu Fagin. Sua presença é demoníaca e domina cada cena que aparece. Impossível esquecê-lo. Dickens o descreve com uma riqueza de detalhes tão grande que a sua imagem ficar marcada na mente de um leitor atento. E, por fim, a personagem mais ambígua, e talvez por isso mesmo mais fascinante, Nancy.

Dickens também rejeita a luta de classes. No livro existem ricos bons e ruins; pobres bons e ruins. Por duas vezes Oliver é confundido com um bandido, nas duas vezes suas vítimas não só o perdoam como se tornam seus protetores. Ao descrever a situação miserável dos orfanatos paroquiais, faz uma crítica às leis dos pobres, como ficaram conhecidas, leis que supostamente protegiam os mais desafortunados mas acabavam por criar indústrias de exploração da pobreza, como fica evidenciado pela incrível fazenda de orfãos mantida pela inefável Sra Mann. Como se percebe, Dickens tinha muito a ensinar para os governos atuais.

Oliver Twist foi o segundo romance do autor, que já demonstrava todo o talento que o tornariam um dos melhores romancistas da história. Seu testemunho das condições inglesas da revolução industrial é tudo que Karl Marx achava estar fazendo. A diferença é que Dickens retratava o mundo real, em suas condições materias históricas e na forma permanente do espírito humano. Marx retratou um mundo imaginário. Em um desses paradoxos, Dickens é considerado um autor de ficção enquanto que o outro é quase um profeta para uma intelectualidade corrompida pela ideologia.

A abertura do homem à transcendência, sua capacidade de superar o momento histórico-cultural, demole um princípio que joga toda teoria materialista no ralo e mostra que um grande romancista pode ensinar muito mais do mundo em que vivemos do que uma intelectualidade completamente desconectada do mundo, imersa em seus sistemas fechados, coerentes e completamente errados. Quer entender a revolução industrial? Leia Dickens de cabo a rabo, depois leia os historiadores. Se começar pelos últimos, pode entrar em um mundo de fantasia que aprisionará sua mente.

Esse é o poder da grande literatura. E grande literatura é, entre outros, Charles Dickens.