domingo, dezembro 18, 2011

Cultura que liberta

Minhas Tardes com Margueritte (FRA, 2010)


Margueritte: você tem uma excelebnte memória auditiva.
Germain: Não, é que eu lembro tudo o que ouço.

Germain é um homem de 50 anos, criado sem afeto de sua mãe, que enfrentou a educação com sofrimento. O resultado é uma falta de cultura que se reflete em um vocabulário chulo e limitado; assimo como sua capacidade de compreender as situações reais do dia a dia. De bom coração, atrai ao mesmo tempo bons amigos e outros que gostam de ridicularizá-lo.

Sua vida começa a mudar quando conhece Margueritte, uma simpática velhinha que passa a dividir com ele, todas as tardes em uma praça, sua paixão pela literatura. Um novo mundo abre para Germain, o do poder de sua imaginação e, sobretudo, de sua capacidade de expressão.

Não pude deixar de lembrar da polêmica do início do ano em que uma professora, discípula do tal Marcos Bagno, escreveu um livro didático que defende a tese estúpida que não existe uma gramática correta, que a pessoa deve escrever da mesma forma que se expresssa. Tudo derivada das idéias escravizantes de Paulo Freire, em que o homem se transforma em uma espécie de prisioneiro de sua cultura local, pendendo sua capacidade de transcender o espaço e o tempo.

Margueritte dá um tapa na cara de toda essa gente ao mostrar para Germain que o desenvolvimento de sua capacidade de imaginação e de expressão, fruto de uma cultura literária, é um poderoso instrumento de ordenação de nossa existência na sociedade e no mundo. Só conseguimos pensar o que conseguimos expressar, coisa que os filósofos antigos já ensinavam há muito tempo. Limitar o homem ao seu contexto social é torná-lo prisioneiro de sua situação particular e garantir que nunca irá ultrapassá-la. Essa idéia simplesmente criminosa de alguns ideólogos fizeram da educação no Brasil essa coisa eu temos hoje, com consequências nefastas para a capacidade de entendimento da realidade por parte de grande parte de nossa sociedade. O Brasil é a reunião de um monte de Garmains, e não estou falando de pobreza. Temos Germains em todas as camadas da sociedade, e isso inclui, infelizmente, a falsa intelectualidade que existe no país.

Outro tema interessante do filme é a relação de Germain com sua mãe, uma mulher amarga incapaz de demonstrar qualquer afeto pelo filho, fazendo-o acreditar que jamais fora amado. Existem pessoas que realmente possuem enorme incapacidade de demonstrar empatia com os outros, o que não necessariamente significa um sentimento de animosidade. Na verdade, Germain também é prisioneiro de um círculo de agressão mútua que se formou, tornando-se incapaz de se aproximar dela. Curiosamente, os dois expressam da mesma maneira o que verdadeiramente sentem, a mão quando o amante agride Germain, e ele quando um amigo fala mal ela.

Minhas tardes com Margueritte é um belo filme que retrata como a compreensão da realidade é o ponto de partida para que uma pessoa possa transcender as limitações do espaço e o tempo, ordenando sua vida de acordo com princípios mais estáveis e corretos que já carregamos dentro de nós. Germain não se torna uma pessoa boa pela cultura, isso ele já carregava com ele; o que encontra é a possibilidade de dar a correta expressão de seus sentimentos morais e com isso dar sua parcela de ajuda aos que convivem com ele, tornando a sociedade um pouco melhor do que era.

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