sexta-feira, dezembro 02, 2011

O homem não é produto do meio, já ensinava um grande romancista inglês

Oliver Twist
Charles Dickens, 1938

Um orfão é criado em um ambiente de pobreza e opressão, por fim passa a viver com um grupo de ladrões, que procuram iniciá-lo em uma vida de crimes. Sem nenhuma referência positiva, sem perspectiva de futuro, que escolha tem ele? Nada mais natural e justificado que se transformasse em um criminoso.

Mas aí não seria Dickens; não seria um autor em contato com a essência da alma humana, com a realidade das coisas. Para Dickens, essa essência se traduz na capacidade de tomar decisões morais, de não ser escravo das situações em que se está vivendo, em transcender o espaço tempo. Isso acontece quando temos fidelidade à realidade, quando temos respeito pelos fundamentos eternos que não estão sujeito a época em que se vive.

Oliver Twist tem sua fonte de moral na Bíblia e nos princípios cristãos, mesmo que ensinado por religiosos hipócritas. A mensagem é mais poderosa do quem a transmite. Para o garoto com 12 anos, roubar era um pecado e quando percebeu em que estava se metendo ficou horrorizado e negou-se a participar. A alma de uma pessoa é seu último refúgio, seu santuário diante da opressão que se está sujeito. Para um cientista moderno, a atitude de Oliver é inconcebível, pois aceitá-la seria negar a hipótese da origem social do crime, esse terrível engano que está na origem na explosão de criminalidade em muitos lugares no mundo. Fica claro que Dickens rejeita a princípio do homem como produto do meio. O meio tem grande influência, mas não define o caráter de uma pessoa. O homem é um ser capaz de transcender sua situação concreta atual e se posicionar no plano da eternidade. Dickens acredita que existem verdades universais imutáveis, que valem desde o início dos tempos e estarão conosco enquanto durar o mundo.

Alguns personagens memoráveis habitam as páginas do romance. Do lado bom, o Sr Brownlow, Rose, Sra Beldwin, Harry. Do lado ruim, Silkes, Brundle e, principalmente, um dos melhores vilões já criados, o judeu Fagin. Sua presença é demoníaca e domina cada cena que aparece. Impossível esquecê-lo. Dickens o descreve com uma riqueza de detalhes tão grande que a sua imagem ficar marcada na mente de um leitor atento. E, por fim, a personagem mais ambígua, e talvez por isso mesmo mais fascinante, Nancy.

Dickens também rejeita a luta de classes. No livro existem ricos bons e ruins; pobres bons e ruins. Por duas vezes Oliver é confundido com um bandido, nas duas vezes suas vítimas não só o perdoam como se tornam seus protetores. Ao descrever a situação miserável dos orfanatos paroquiais, faz uma crítica às leis dos pobres, como ficaram conhecidas, leis que supostamente protegiam os mais desafortunados mas acabavam por criar indústrias de exploração da pobreza, como fica evidenciado pela incrível fazenda de orfãos mantida pela inefável Sra Mann. Como se percebe, Dickens tinha muito a ensinar para os governos atuais.

Oliver Twist foi o segundo romance do autor, que já demonstrava todo o talento que o tornariam um dos melhores romancistas da história. Seu testemunho das condições inglesas da revolução industrial é tudo que Karl Marx achava estar fazendo. A diferença é que Dickens retratava o mundo real, em suas condições materias históricas e na forma permanente do espírito humano. Marx retratou um mundo imaginário. Em um desses paradoxos, Dickens é considerado um autor de ficção enquanto que o outro é quase um profeta para uma intelectualidade corrompida pela ideologia.

A abertura do homem à transcendência, sua capacidade de superar o momento histórico-cultural, demole um princípio que joga toda teoria materialista no ralo e mostra que um grande romancista pode ensinar muito mais do mundo em que vivemos do que uma intelectualidade completamente desconectada do mundo, imersa em seus sistemas fechados, coerentes e completamente errados. Quer entender a revolução industrial? Leia Dickens de cabo a rabo, depois leia os historiadores. Se começar pelos últimos, pode entrar em um mundo de fantasia que aprisionará sua mente.

Esse é o poder da grande literatura. E grande literatura é, entre outros, Charles Dickens.

3 comentários:

Anônimo disse...

Olá, Marcos Junior!
Eu li no Skoob este texto de Dickens e - achando-o formidável! - procurei como poderia escrever a quem o escreveu. Eu gostaria de lhe parabenizar pela reflexão clara e de autonomia, contestando com argumentos próprios uma teoria clássica. Eu penso do mesmo jeito. Ou melhor, quase do mesmo jeito: pois preciso fazer uma ressalva sobre Marx. (Sou estudante de Sociologia, do Recife.) Também, neste mesmo ponto, gostaria de emendar com o tema do seu post sobre Paulo Freire, mais acima...
Marcos Junior, você escreve de maneira muito clara e de muita significância em seus pensamentos, suas reflexões, por assim dizer. (Gostei muito do post sobre o passeio da família! Adorei!) Porém, ao mesmo tempo que concordo consigo, preciso fazer uma ressalva (principalmente remetendo ao post do Paulo Freire, que, por conseguinte, remete ao primeiro, o de Dickens e Marx):
Eu, como disse, penso do mesmo jeito: as características individuais são sumamente relevantes a se pensar a fluidez das coisas socialmente, a ordem social em si. Porém, isso não é um pensamento reconhecido na academia, na história das teorias, e por aí vai. Segue-se quem escreveu isso ou aquilo, mas pouco se procura considerar as minúcias.
Isso vale para todas as teorias sociais: Feminismo, Comunismo, Capitalismo... e também as perspectivas religiosas ou místicas sobre o mundo ou a existência: Budismo, Catolicismo, Protestantismo, Islamismo... e por aí vai. Existem entre-linhas que dizem sobre o comportamento de pessoas, os conflitos humanos e outras coisas mais que não aparecem nestas abrangências, mas, sim, somente nas consciências de cada pessoa. (Existe um livro, por sinal, que exempla mais ou menos o que eu digo... "O Drama de Jean Barois".)

Anônimo disse...


Assim sendo (estou divagando demais, é porque não consigo escrever pouco ante tanta coisa que poderia escrever, mas, que assim seja... volto ao tema e ao ponto final), o que Marx e Paulo Freire (ao aprendizado deste com aquele) descreveram, não é uma verdade completamente abarcante, que abarca tudo, não, mas, ainda assim, é uma verdade. Por que eu digo isso? Pelo seguinte: conheci isso com os olhos. Desde pequeno eu observava curioso o comportamento das pessoas que viviam em zonas canavieiras (justamente as quais Paulo Freire escreveu sobre) e me perguntava o porquê daquela gente viver daquele jeito: passando fome, sem ter o que vestir, comer, dando tapa por qualquer coisa... Enfim, aquela vida dura e brutalizada pelo - como você disse - o meio. Isso, eu digo pelo o que eu VI, por toda a minha vida em Pernambuco. (Bem ao jeito do que aparece no livro "Vidas Secas" do Graciliano Ramos.)
Ora! Eu só vim descobrir mais tarde o que eu, aos poucos, já suspeitava. Aquela gente cortava cana para a usina, trabalhava como condenado e vivia numa miséria sem fim e de tantas agruras.... Porque, o modelo que eles tinham de trabalho - e eles não sabem o que EU SEI hoje, pois poucos sabiam ler e escrever (com o tempo as coisas vem mudando) - pressionava-os a estar sempre ali: ou trabalhava por uma mixaria ou morria de fome. Eles fariam o quê? Revolução? Revolução de miseráveis e analfabetos? Isso não existe. Por isso, SIM, o que Marx e Paulo Freire escrevem, tem sim, NA REALIDADE NUA E CRUA, muita validez. Mas, tratando-se do comportamento singular de cada pessoa, não. Pois cada pessoa é de um jeito: uma é boa de coração, outra é tinhosa, e por aí vai.
Mas como essas coisas mudam? Com o conhecimento. Só que o conhecimento é muito perigoso e muito pouca gente tem chance de alcançá-lo (não falo só sobre escolas ou livros, mesmo na Grécia o que Sócrates fez foi uma "transgressão": não cobrar pelo que falava ou ensinava, vamos dizer assim). A Globo e demais emissoras só ajudam a perpetuar a inércia e a ignorância da população. As religiões ajudam com uma mãozinha (digo isso de espontânea vontade, sou católico, mas sei como é). E, enfim, as coisas se dão mais ou menos assim.
Espero ter sido cordial. Não foi minha intenção fazer uma "réplica", muito pelo contrário: admirei muito seu pensamento sobre Dickens e sobre a família.
Um abraço!
Ramires
- Mais tarde, eu posso voltar para ver o que (se) você respondeu, e, também, responder.

Anônimo disse...

Ah! E sobre a gramática e como se escreve... Eu acredito o seguinte: A língua (o idioma, proveniente da faculdade de falar e fazer-se entender, coisa que surgiu com o tempo, com o homo sapiens sapiens), como ferramenta, o idioma, como instrumento de comunicação do ser humano... não é uma coisa rígida, que se possa eu, você, o linguísta, o presidente, ou quem quer que seja, segurar como seu. (A não ser por lei, o que seria um absurdo!) Por quê? Porque pertence ao mundo da vida e não ao sistema. Por exemplo: pode-se formular uma lei, mas uma lei conflitante com os interesses das pessoas em seu cotidiano, tende a cair, pois ninguém muda o jeito de ser senão por muitos anos e condescendência com aquilo. O mesmo são as normas gramaticais. As normas estabelecem as diretrizes, mas o domínio da fala é do povo, é quem usa a língua, não os livros; os livros não falam. As pessoas mudam os costumes com o tempo; os livros, não; a não ser se alguém viver mais de 100 anos e continuar a modificar em seguidas edições o que escreveu.
Caem em desuso muitas normas e termos na língua falada - e que passam a não serem mais utilizada nem mesmo em língua escrita.
Por exemplo: Não se usa "Tu vais" no Brasil. É o que se aprende na escola, mas não é o que se usa. Isso chega a ser cômico, pois é como se fosse dizer que nós ratificamos o nosso compromisso com a displicência: pois não somos competentes nem mesmo de falar o próprio idioma!
Ora! Isso é uma grande besteira, pois o idioma falado aqui não é mais o de Portugal (lá se fala COMPLETAMENTE diferente). O que nós falamos é o PortuguÊs Brasileiro. E, sim, na minha opinião, é preciso considerar as modificações da fala corrente no idioma nacional. Não significa extirpar tudo o que era antes, não (não sei o que disse esse Professor, não o conheço, e não li sobre), mas é preciso considerar as maneiras de falar em cada região e ajuntá-las em compêndio. Isso sim é o que deveria ser feito. A cada 10 em 10 anos.
No RS fala-se "pra ti", aqui (em PE), se alguém fala "pra ti", vai parecer afetação de quem quer mostrar-se superior, mesmo entre gente instruída.
Abraço!
Ramires